“Ainda usava fraldas e já andava de Porsche com o meu pai”

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Estamos a falar desta marca deste senhor, Ferdinand Porsche, famosíssimo.
Austríaco.
Austríaco omão.
Teve os primeiros projetos de um carro elétrico em 1900, que acho que apresentou num salão.
Este Egger-Lohner C.2 Phäton, chamava-lhe o P1 porque é o posto número um. Era um carro elétrico, um dos primeiros veículos elétricos do mundo.
Ele era de facto um grandíssimo.
Tinha motores elétricos nas rodas.
Cada roda tinha um motor elétrico.
Estamos em 1898. Ele depois mostrou na Exposição Universal em Paris em 1900. Ao lado da Torre Eiffel estava o primeiro carro elétrico. Há 120 anos não têm noção disto, eram visionários. Até ao fim do mês, a Galeria 28 Art, no Prata Riverside Village, em Marvila, convertida no Art District da zona ribeirinha de Lisboa, apresenta a exposição "The Art of Porsche. A History Written in Racing Colors 1970-1987", uma fusão entre arte, automobilismo clássico e cultura pop. O artista, Publicas Art, autodidata e freelancer nas áreas do desenho, ilustração, fotografia, vídeo, design gráfico e pintura. O pai era piloto da marca há mais de meio século e por isso ele quis com esta mostra homenagear uma marca, que é também uma paixão e uma lenda, usando peças originais da Porsche como telas tridimensionais e reinterpretando as cores e patrocinadores icónicos das pistas de automobilismo das décadas de 70 e 80. Aquelas corridas, como por exemplo, as 24 Horas de Le Mans. Olá, Publico, parabéns por teres aceitado este meu convite. Bem-vindo.
Obrigado pelo convite.
É um grande prazer estar aqui a falar contigo.
Também é um prazer estar aqui.
Este nome artístico, Publicas Art, é porque Publico é explicar, igual ao teu pai.
É, meu pai era piloto.
E por isso toda a gente chamava-lhe Publicas para aqui.
Ao meu pai também chamavam Publicas.
Só que ele não assinava obras de arte, e tu assinas.
Não.
Tu tens o teu nome Publicas.
O meu pai sempre esteve ligado aos automóveis.
Primeiro vou à tua paixão pelas artes. Tu frequentaste a António Arroio, claro. Equipamento interior, arquitetura, era a tua área. E tu estudaste alguma coisa no Brasil, de artes?
Não. No Brasil só em lazer.
Mas tu tinhas a paixão do desenho. Sempre desenhaste muito?
Sempre, desde que me conheço.
Tens muito boa mão, vi desenhos teus hoje e pinturas.
Fui perfeccionando. Também tive a sorte de, onde eu morava, casa dos meus pais, tinha um vizinho que é uma personagem, que era o Jonas, desenhava muito bem.
Ok.
E eu aprendi muito com ele.
Boa. Autodidata, mas tiveste mestres bons.
Exato. Por acaso tive ao longo da minha vida pessoas muito interessantes nesta área.
Isto é a melhor escola.
Exatamente.
É incrível. Tens muito boa mão. Eu vi muitos dos teus desenhos, gostei imenso. E retratos e tudo. Não é fácil.
Não, isto depois é tudo muito trabalho. Tem que se ter talento, mas depois é tudo trabalho.
Como dizia o outro, é 90%, como é que é?
É 20% talento e 80 é trabalho.
Mas dizia o outro, como é que é? Que a inspiração te apanhe nos 90% que estás a trabalhar.
Isso também é verdade.
O outro era isso. Estamos agora no princípio dos anos 90, chegaste a trabalhar oito anos como ilustrador, designer gráfico, num departamento criativo de várias empresas. Os seus primeiros trabalhos falam, e eu vi, tens no Instagram imensos exemplos de ilustração, DM Magazine, nas revistas Pais e Filhos, Bike Magazine.
Isso foi na minha primeira fase.
Exato. Tens um desenho que eu adorei, o Monkey, Monkey Looking at Putin. Isto é de quando? Que é assim um macaco a olhar desconfiado para cima.
Isso foi quando começou a guerra.
Foi?
Na Ucrânia, foi.
E por que um macaco a olhar para o Putin? Um macaco, é um gorila ou um chimpanzé. Olhar assim com um ar super desconfiado.
É de uma admiração, porque é que um homem numa altura dessas faz uma coisa dessas.
Admiração é mesmo. No mau sentido, neste caso. Cuspando.
Mas vale falar com . Acho que até os macacos são mais interessantes.
Em 94, participaste neste concurso do Zoo de Lisboa. Depois chegaste a ter uma marca de roupa. Tu és muito versátil. Esta Offline, uma marca de roupa.
Exatamente. Desenhava, mandava fabricar, ia ao norte e depois tive que começar a vender. E foi uma altura que-
Estamos em 96. Mas Deus, está a entrar 30 anos.
Sim, ainda não havia aquelas grandes marcas, aquelas grandes superfícies. E eu lembro que era difícil vender uma marca que ninguém conhece.
Sim.
Então eu ia para a rua e entrava nas lojas e quando falava da marca, ninguém queria saber rigorosamente nada. Corriam comigo quase a pontapé. E houve um que uma vez disse: "Por que eu vou ficar com a sua marca se ninguém pergunta por isso?"
Ok.
E aquilo, fui para casa.
Pensar naquilo.
Pensar naquilo. Então comecei a arranjar clientes fictícios à procura da marca. Via qual era a taxa, o target, era um malpercebedor.
Tu fizeste um estudo de mercado.
Eu fiz tudo sozinho na rua.
Aliás, tu fazes tudo sozinho. O catálogo, esta exposição que vamos falar, que é lindo de morrer. O livro, a gramagem, a folha, a impressão, as cores, a restituição, tudo aquilo é espetacular, é um livro lindíssimo.
Exatamente. E eu comecei a pôr pessoas à procura da marca, arranjava dois ou três miúdos: "Agora vais arrancar a loja". E passados 15 dias ia lá.
E eles iam perguntar: "Tem alguma coisa da Offline?" "Não, não tem". Mas os vendedores ficavam com isto na cabeça.
Ia duas e três vezes, esperava 15 dias e depois quando ia lá.
"Olá, eu sou da Offline".
"Olá, eu sou da Offline". "Entra aqui que eu estou muito interessado, que ainda agora"-
"Ainda esta semana duas pessoas perguntaram".
Não, e por acaso de manhã tinha ido a minha irmã perguntar a uma loja daqui uma rapariga que insistiu por causa da marca, que era uma marca muito boa, não sei o quê.
E era muito bom, eras giro, as pessoas gostavam muito?
Era, eu que fazia os desenhos.
Era género coisas estampadas?
Era. Até tinha uns desenvios. Eu sabia que se vendia, portanto só precisava era de entrar
Sim, furar o mercado não é fácil. E ainda por cima era offline, que é engraçado, que isto é décadas antes do online e da internet. É incrível. Tu eras um pistoleiro.
Isto era tudo tinha que fazer na rua. Tinha que fabricar, desenhar, ia cobrar.
Ia a Cavalo do Ave ver a produção.
Ia para lá. Era o Rio Tinto, uma fábrica que ainda existe. Era o senhor Agostinho que era o proprietário da fábrica.
Incrível, mas vais tirar esse empreendedorismo, hoje diria-se empreendedorismo. Esta coisa é tua faculdade.
Foi aí que eu comecei a entrar nas lojas. Cheguei até ao Porfírio, na altura.
Estava a pensar nisso. Por causa de estar na Salazar, ali na Baixa. Estava a pensar nisso, naquela altura, lojas assim, eu lembro perfeitamente.
Depois, há uma cadeia de lojas muito grande que faz uma grande encomenda e vai à falência.
Tu ficaste sem material para escoar.
Nem material eu fiquei. Ainda tentei que me devolvessem o material, mas não. Isso aquilo foi para uma insolvência.
Exatamente. Os credores ficaram com tudo.
E eu fiquei com as dívidas, que depois tive que continuar.
A dar a volta. Tu és um homem que dá a volta às coisas e reinventa-se. Tu estás em muitas áreas, é sempre bom, és muito versátil. Em 98, por exemplo, design gráfico, começaste a criar marcas e identidades corporativas, estamos a falar de design marketing, na identidade visual. Ganhaste o prémio Logótipo da Taça do Mundo e Campeonato Europeia de Paraquedismo. Design gráfico, branding e comunicação visual. Isto era o que interessava.
Depois trabalhei com grandes empresas de cosmética, a maior do mundo.
L'Oréal, por exemplo.
Exatamente. A Coty.
E depois a aviação foi uma paixão. Por que tu tens esta paixão pela aviação?
Isto começou pelo meu irmão.
Tu passaste por imensas: Aeropress, os Aeroportos de Portugal, a TAP, o Museu do Ar, Força Aérea, as lábios, sabias?
Eu tive a sorte de ter uns irmãos fantásticos.
São muitos?
Somos cinco. O mais velho tem uma distância maior entre nós.
Quatro rapazes e uma rapariga, já percebi.
Mas depois os outros três são mais próximos. Eu tive o irmão que entrou para a Força Aérea. Eu tinha perto de 12 anos e acompanhei os primeiros passos dele na aviação. E tem piada que ele foi brevetado em Sintra, onde o meu pai correu lá, que era o Granja do Marquês. Fazia-se o circuito Granja do Marquês.
Onde ainda há o Museu do Ar lá, o corredor é assim. A Base Aérea número um.
Ele tirou o brevê lá com um avião.
Tem lá um avião em cima da porta.
T37, que era na altura o avião das Asas de Portugal. Sempre tivemos esta ligação à aviação.
Tu fizeste muitos trabalhos para revistas, jornais, aviação.
Depois o meu irmão apresenta-me uma pessoa que é o Jorge Vieira, que era o dono da Aeropress, que eles eram as relações públicas de Airbus. E foi a partir daí que eu comecei a fazer parte daquela equipe. Ele fundou um jornal, foi o primeiro jornal da aviação.
Este Takeoff?
Takeoff. A parte gráfica era eu que fazia.
Trabalhaste em 100 edições, não é mais nada. Do zero a 101.
Antigamente, não é como agora. Tinhas vastas páginas vasto braço, era para fazer fotolitos, fazer emendas, não é como é hoje.
Além de outras empresas que tu também ajudavas, a Lancôme, a Biotherm, essas todas, não é? Delta. A Delta é aviões e TAP também. Schorko, Benfica, Sotheby's, etc.
Benfica fiz muito também. Fazia a águia do Benfica.
E fizeste a cow parade em 2000. Faz agora 20 anos, como o tempo passa. 2006.
E fiz a vaca do Benfica.
A gloriosa.
A gloriosa.
Aquela toda encarnada com as águias brancas pintadas em posição de atacar. Eu lembro-me muito disso.
E depois tinha as assinaturas dos jogadores.
Sim.
E depois aí comecei a ligação também com o Benfica. Eles depois começaram a pedir coisas.
Tu tens uma mão muito boa, o teu design é muito bom.
Fazia aquelas targets.
As faixas grandes.
Aquelas faixas grandes da águia do Benfica, que eram mostradas no estádio, era eu que fazia. Mas eu sempre fui uma pessoa muito disponível, isso também é muito importante, sermos profissionais naquilo que fazemos. O Benfica chamou-me à liga uma vez. "Pleigas, eu tenho um jogo, preciso urgentemente de ti". Eu estava na praia, eu disse: "Olha, vou de calções e tudo bem".
Para pintar uma faixada?
Para pintar, no dia a seguir tinha três ou quatro esboços.
Para criar uma imagem que eles iam depois reproduzir.
Eu era uma pessoa muito prática e muito de comunidade, mesmo com os clientes grandes e com o portátil debaixo do braço.
Ainda hoje és.
Sou.
Eu sei que essas peças, por exemplo, que estão hoje na exposição, algumas já estão vendidas e tu diz: "Eu faço coisas por encomenda, há colecionadores de Porsches que me pedem coisas e eu faço e pinto".
Eu comecei assim com o Jorge.
O Jorge é o Jorge Nunes.
Jorge Nunes, que é o filho do Américo Nunes.
E também o pai dele, como o teu, era um piloto.
Os nossos pais correram em Porsche nos anos 60.
Mas não são nada um ao outro, são só amigos.
Eram amigos.
Não eram parentes.
O Américo Nunes sempre correu em Porsche. Toda a vida. Ele acho que começou a trabalhar na Garin com 12 anos.
Garin é Volkswagen, Porsche.
Depois foi Porsche. Eles começaram nos anos 60 e o meu pai também. O meu pai quando teve o primeiro Porsche, eu ainda não era nascido. O meu irmão mais velho já era. Que era um 356.
Era um Porsche quê? 356?
Era um 356.
Ainda não havia os 911, esses assim?
Não, isso foi mais tarde.
O teu pai sempre teve Porsches também, daí esta "The Art of Porsche".
Porsche teve três ou quatro. E depois teve ali NSU, TTS, que era um carro alemão, que na altura corria com o pai do Lamy, que era o Álvaro Lamy. Era o Malva. Faziam a mesma equipe. E teve TR2 também.
Tu tinhas fraldas e andavas de Porsche.
Sim.
É do muito que ouvi, acho que em poucos casos se pode dizer isso.
O meu pai sempre teve oficinas, porque ele teve uma empresa de transportes, tinha táxis. Eles também faziam instalações de gás. Sempre estive ligado aos automóveis, e o meu pai como corria, tinha ali os carros todos disponíveis. E depois, em 72, ele terminou a carreira.
E foi o ano em que inaugurou o Autódromo do Estoril.
Ainda tenho lá a carta a convidar o meu pai a fazer a inauguração com a história toda do Autódromo do Estoril.
Sim.
Que isso por acaso até foi o meu irmão mais velho que guardou estas coisas.
Era aquele empresário.
O meu pai era Fernanda Pires da Silva.
Exatamente.
Porque o projeto começou no Brasil.
Do Gran Prix, tinha a ver com o Gran Prix.
Exatamente, porque o pai tinha os projetos todos do hotel.
Foi um grande projeto, uma coisa grande.
E ele fez a prova e terminou em quinto com o Porsche.
Boa.
E o pai do-
O Américo?
O Américo terminou em quarto, parece-me. É que antigamente havia classes. Mas eu lembro que o meu pai queixava-se que naquela prova disse que o rampa era curto, o carro não passava dos 210 da reta da meta, então ele disse que saía da parabólica, já ia escutado. Então ele perdeu tempo. E depois, o que é que acontece?
O teu pai tinha Porsches no teu imaginário desde fraldas.
Eu nasci em 69, portanto em 72 o meu pai deve ter comprado o Porsche em 70, porque era do Américo, era um carro que era do Américo. E ele ficou com o carro. Entretanto, o meu pai ainda teve aquele carro muitos anos, que era a nossa mascote. O meu pai ia para os batizados, ia para os casamentos, ia sempre de Porsche. Éramos todos no Porsche, brincamos todos com o Porsche. Eu e os meus irmãos, aquilo era sempre uma festa. Andámos de fraldas praticamente dentro do Porsche para baixo e para cima e a minha mãe a dar biberão a um, biberão a outro. Depois quando ele deixou o Porsche, tínhamos os Porsches do pai do Jorge, que era o Américo. Ele tinha uma oficina ali no Campo Queno, que era a Zagaia, e ele só pegava em Porsche.
O Jorge Nunes e Nunes tem muitos?
Tem, ele tem uma coleção fantástica.
Coleciona mesmo?
Aliás, ele faz um trabalho que é um-
Que é o quê? A nível de restauro.
Ele faz um restauro que um carro leva um ano. Aquilo é tudo desmanchado. Aquilo é um trabalho de relojoaria. Eu nunca vi.
É paixão. As pessoas que fazem isso é...
E ele praticamente também nasceu dentro de um Porsche. Aliás, eu ainda me lembro, este Porsche que esteve na inauguração, que foi campeão nacional em 72, o Carrera 6. Eu lembro-me quando o meu pai vendeu o Porsche. Era o Carrera 6, era aquele amarelo e verde, que esteve muitos anos numa rampa, quando se entrava na oficina, e eu lembro que a gente saía do carro e íamos para dentro do carro do Américo.
Brincar.
E o Jorge, de facto, começou a fazer réplicas do 356, ainda na oficina do pai, e ele aperfeiçoou-se cada vez mais e criou a Sportclass, que já tem 30 anos, mas faz um trabalho excecional. Aquilo é um trabalho quase de relojoaria.
Há um clube de colecionadores de Porsches?
Há vários.
Há vários? Boa.
E o Jorge tem uma grande coleção. E o Jorge tem vindo a recuperar os carros que eram do pai dele.
Conservou-os. Tu não, nenhum?
Não.
Do vosso pai não ficaram nenhum.
Não.
E ele então recupera esses carros e tem isso.
Recupera e faz um trabalho incrível.
Entre os vários projetos relevantes que também tiveste, tiveste, por exemplo, esta inauguração do Aeroporto da Madeira e do da Praia, em Cabo Verde, também.
Não, da Cabo Verde não tive.
Ah, não?
Foi através da Aeropress. Agora ligando já ao Jorge e como é que as coisas surgiram, não sei se queres falar já.
Sim, como é que surgiu esta ideia desta exposição.
Como eu já te conheço há algum tempo e cada vez que vou à oficina estamos sempre a falar de carros.
Como é que surgiu? E por acaso tinha sido convite da galeria ou alguma coisa?
Isso depois foi.
De facto é uma homenagem não só à marca, mas ao teu pai, claro. É paixão de família.
Exatamente, ao meu pai, ao pai dele. É uma homenagem aos dois, praticamente. Ele um dia, depois de um almoço, disse: "Michel, porque é que tu não-- tenho ali tanto material da Porsche antigo, que me custa deitar fora".
Material, era peças nesse caso, porque aquilo é tudo coisas pintadas em peças.
Aquilo são peças originais.
Discos de travões, discos de embraiagem, portas.
Ele recupera, guarda.
Tem até um armazém de peças, de bocados?
Tem. Ele como nunca deitou fora, que aquilo são coisas valiosas.
Coisas de capô, onde tu aproveitas, limpas tudo e depois pintas por cima os motivos.
E ele um dia: "Por que é que não?"
É extraordinário.
Isto é uma forma também de reciclar, em vez de mandares para o lixo.
Faz arte. Só que uma coisa é os gajos que vão apanhar coisas na praia, os plásticos. Outra coisa é. No caso de Porsches, quer dizer. A matéria-prima é diferente.
O pai deste projeto é de facto o Jorge. Ele levou-me ao armazém e disse: "Olha, está aqui tudo, tudo o que quiseres apanhar".
Ele viu-te a pintar ou teve uma grande surpresa quando chegou à inauguração?
Não, eu comecei com um capô. Aliás, instantes da galeria.
A ser a tela, no fundo.
Exatamente, eu comecei com um capô.
E a mão que tu houve e o teu estilo, olha mesmo para a capa do catálogo e tudo, isto é Michel Vaillant, faz lembrar alguns pops de BD. Exato, muito estilo, muito igual. Estas cores e tudo, os Martins, aquelas publicidades.
E também peguei numa parte da história da Porsche de 70, porque foi a primeira vitória em Le Mans. Aliás, Le Mans começou em 1920.
A sério? Tem mais de 100 anos? Não fazia ideia.
E a Porsche só venceu-
Há mais de 100 anos já havia carros que aguentavam 24 horas de corrida?
Sim, acho que sim. A Porsche só ganhou a primeira em 70.
70.
Aliás, é a marca que mais vitórias tem.
Com histórias incríveis. Tu falas isto no catálogo e contas lá. No teu Instagram também está.
Cada peça tem uma história.
Por um acidente ou alguma coisa, tiveram que desistir e depois voltaram para a prova e acabaram por ganhar. É impressionante a resiliência.
Essa foi um capô que fiz há pouco tempo para a Emenda. Foi a 19ª vitória da Porsche com o 919 Hybrid, que chegaram a ficar em 54º e ainda a recuperar e ganhar.
E recuperou e ganhou os 55 lugares.
Espetacular.
É extraordinário. Os teus livros e catálogos também é uma parte em que tu tiveste, com estes percursos e escrita, por exemplo, da Teresa Gonçalves Lobo, esta artista madeirense. E fizeste a produção editorial de muitas publicações, a Aviação em Cabo Verde, a Regulação.
Sim, alguns livros.
Estas 31800 horas, que é a homenagem ao Luís Santos.
Isso é da Rita Tamarini.
Luís Santos da Costa Branco. Este o fundador da Beta em Moçambique.
Exatamente, fiz a parte gráfica.
Também tens muitas coisas a ver com Moçambique e concretamente com a Lam. Há alguma ligação especial?
Não, foi através da Aeropress, do Jorge Vieira. Eu fazia tudo que era a parte gráfica para a Aeropress. Todos os projetos que vinham para a Aeropress de livros e publicações, era sempre eu que fazia.
Fotografia desde o ano 2000, tanto fotografia comercial, editorial, artística. Depois fizeste umas formaçõezinhas em retrato, em estúdio, produção digital.
Paul Hart também.
Fotografia criativa. Vi também no teu Instagram. É interessante, o teu Instagram, polikas.art, certo? As pessoas podem ir consultar. Tens fotos, por exemplo, Vietname, Myanmar.
Fotografia tem polikas photography. Arte é só pintura e ilustrações.
Mas devemos ver estas coisas das tuas viagens também. Espetacular.
A Ásia. Foi uma namorada que eu tive, que era a Catarina, que tinha uma paixão pela Ásia.
Birmânia, antiga Birmânia, Myanmar e Vietnã. Lindas as fotos.
E eu comecei a viajar com ela na Ásia, enquanto namoramos fomos para a Ásia. Ela depois também acabou por ter o gosto pela fotografia, porque me via a tirar fotografias.
Sim, claro.
E viajar com fotógrafos não é nada agradável. Eu tive sempre problemas com as namoradas. "Mas por que estás aí tanto tempo?"
Tem que ter paciência e perceber.
Ela foi inteligente e começou também a tirar fotografias.
Acompanhou-te na paixão.
Acompanhou e fez melhor.
Às vezes do que esperavas. Muito bem, Polikas.
Porque isso tem que ter paixão.
Exatamente.
E quando se leva alguém.
Que não partilha dessa paixão, é complicado.
Não consegue perceber.
Há ali uma discrepância.
Porque o fotógrafo está aquele momento e depois às vezes: "Deixa-me esperar mais um pouquinho, que a luz está..."
O tempo é importante.
Mas isto contar isto a uma pessoa fora do meio, não percebe nada e acha tudo uma seca.
Muito bem, Polikas. Estamos a fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Polikarpou Rodrigues Brito, ele é mais conhecido por Polikas, que nos fala da sua última exposição "The Art of Porsche: A History Written in Racing Colors, 1970-1987". Até o fim do mês vai estar na 28 Art Gallery, no Prata Riverside Village, em Marvila, onde ele homenageia uma marca, que é também uma paixão e uma lenda, e também homenageia o pai, que foi piloto da Porsche há mais de meio século. Estavas a falar das tuas viagens, que têm muito a ver também com a tua parte fotográfica toda. Estou a pensar agora aqui em alguns prémios que tu recebeste e onde concorreste. Falei já da Taça do Mundo e Campeonato da Europa de Paraquedismo. Tiveste menções honrosas e prémios por causa também da coesidade visual da Portway, por exemplo. A Calpareide já falámos, com a gloriosa da vaca do Benfica. Esta menção honrosa no Decora o Teu Smart, também era um concurso.
Ganhei uma PlayStation. Por acaso nunca concorri muito, mas este concorri. Ganhei uma sardinha.
Ganhaste a farpada na coleção das sardinhas. É muito gira, uma sardinha desenhada em desenho de farpada, eu sei, é estilíssimo. Inclusive uma das botas faz o olho. Eu achei com muita piada. Por acaso fui ver como é que era. Muito gira. A primeira Bienal de Arte Sacra e Religiosa.
Exatamente. Ganhei pela Câmara de Oeiras.
Exatamente.
Aliás, esse quadro está lá na Câmara de Oeiras.
Está? Então é ao pé de onde eu moro. Vou pedir ao Isaltino para mostrar.
Está lá na câmara.
E este, muito importante para mim, este Swatch que tu ganhaste.
Isto foi quando foi a Expo Dubai, a Swatch fez um concurso para 95 países.
Exatamente.
E cada país escolhia um tema do seu país e desenvolvia graficamente uma imagem que pudesse ser usada num relógio.
O teu é lindo, Prémio Imagem, que ganhaste o prémio, que não vale nada.
Eu por acaso esbocei no comboio, numa viagem, porque na altura quando morava no Estoril com Catarina, eu vim uma viagem de comboio e esbocei. Pensei: "Fado, sardinha".
Atenção, o fado tinha acabado de ser eleito património imaterial cultural da humanidade.
E no fim de semana, um sábado, recebo um e-mail do CEO mesmo da Swatch a dar os parabéns.
Prémio Imagem. Foi uma maravilha. Eu vi depois o relógio, está lindíssimo. Com os guitarristas e a cantora.
Depois mandaram-me sete ou oito relógios, meteram o relógio à venda. Na altura da exposição, o relógio estava à venda online.
Grande honra ter o relógio. O único que eu conhecia português da Swatch era aquele dos azulejos. O primeiro que eles fizeram há 30 ou 40 anos, que era com o desenho dos azulejos, azul e branco. Swatch Portugal.
Eles sempre fizeram assim umas edições. Em Portugal, eles fazem. Agora, isto era um concurso internacional.
Sim, incrível. Muitos parabéns, é um grande prémio. Incrível. Muito bem, depois participaste no Prémio da Pintura Brasileira do Chiado. Tiveste fotografias no Novo Banco, no Tagus Park, em Oeiras.
Sim, foi um projeto que também fiz para o Novo Banco, de uma foto da escada principal. Que depois foi impressa e está no hall de entrada. É uma obra que tem três metros.
Uma grande tela.
Não é tela, aquilo é plexiglass. Está dividido em seis quadros.
Muito bem. Depois participaste em outras feiras internacionais de arte contemporânea, na Arco Madrid, no Passeio da Arte, em Passe de Arcos, Galeria Monumental, também tiveste exposições.
Sim, fiz algumas.
Foste sempre autorizado e freelancer nestas áreas de desenho, ilustração, fotografia. E tens esta exposição agora. Inclusive filmes publicitários, vídeos. Fizeste coisas em drones.
Fiz para a TAP também.
Fizeste umas coisas giras na Ecopista, não sei donde, do Norte, que vais com o drone por cima das pessoas. Ainda hoje fazes destas várias áreas ou hoje estás mais dedicado a uma coisa só ou a duas?
Agora estou mais dedicado à pintura.
Tu começaste muito na fotografia e depois foste passando.
Houve uma altura no período do Covid, também trabalhei muito para uma empresa Era a Sotheby's que fotografava casas de milhões.
Sotheby's de Portugal?
Exatamente.
Imobiliária de luxo.
Também aprendi muito com um fotógrafo que era o António Moutinho, que é dos melhores fotógrafos. Eu tive estes mestres todos ao longo da minha vida. Fui também me dedicando e fui aperfeiçoando.
É ter a mente aberta, também ires absorvendo as partes boas.
Me dediquei mais no mercado também na imagem. Mas isso foi uma altura que depois passou. As coisas depois vão sempre surgindo outras novas coisas. Eu não gosto de estar muito tempo sempre no mesmo.
É, não é? Principalmente tens tantas áreas onde esticas e vais fazendo coisas.
Mas hoje em dia temos que nos desmultiplicar, porque senão a gente está só numa área, porque uma coisa hoje em dia dá aquilo, depois dá outro. Portanto, se andarmos assim em várias.
Sim, dá-te mais escapatórias.
Exatamente.
E não te chateias tanto, porque tens sempre variedade de temas e de coisas. Muito bem, então esta exposição eu percebi, depois de falar um bocado contigo e de ler estes textos do teu catálogo, que isto é um bocado homenagem, claro, a esta marca icónica. Ainda mais nos anos 70 e 80, como está aqui retratado. E também, claro, uma homenagem ao teu pai, à memória e à paixão que ele tinha também. Ele foi piloto, correu com a Porsche nos anos 60 e 70, terminou em 72, como tu contaste. Estamos a falar desta marca, deste senhor, este Ferdinand Porsche, famosíssimo.
Austríaco.
Austríaco à mão, exatamente.
Teve os primeiros projetos de um carro elétrico em 1900, que acho que apresentou num salão.
Este Egger-Lohner C.2 Phäton, chamava-lhe o P1 porque é o Porsche número um. Era um carro elétrico, um dos primeiros veículos elétricos, digamos, do mundo. Tinha motores elétricos nas rodas.
Cada roda tinha um motor elétrico.
Estamos em 1898. Ele depois mostrou na Exposição Universal em Paris, em 1900. Ao lado da Torre Eiffel, estava o primeiro carro elétrico. Há 120 anos. A gente não tem noção disto, eram visionários também. Extraordinário.
E depois tem o projeto do Beetle.
Exatamente, o velho carocha é dele. O desenho é dele.
Que é uma emenda do governo nazi.
Exatamente, foi uma coisa para fazer um carro para o povo, o Beetle. Foi mesmo, é sabido.
Tal carro que a refrigeração é ar, em vez de ser água.
Pois é.
Foi aquilo que começa. Aliás, porque estes Porsches todos de Le Mans eram todos a ar, por isso é que tinham aquela turbina grande. Aquilo eram todos com quase cinco litros.
Aliás, há uma turbina, se não me engano, está pintada por ti aqui, não está? Está lá uma turbina.
Está uma turbina de 1911, uma turbina de 1917.
E este carro antigo, eu tenho que falar disto. Este carro antigo, este P1, de 1898, ele tinha 22 anos, atenção, era um visionário, era novinho ainda. O próprio Ferdinand Porsche tinha 22 anos. Tinha três a cinco cavalos, atingia 25 a 35 km/h, tinha uma autonomia de 80 km, pesava uma tonelada e 200. A bateria pesava 400 quilos. Extraordinário!
As coisas evoluíram.
E ele gravou depois o código P1 em todos os componentes de madeira do carro. Há imensos. Muito bem, este modelo original está guardado e recuperado no Museu da Porsche, em Stuttgart. Estiveste lá alguma vez, na Alemanha?
Não, nunca fui. Já estive na Alemanha, mas nunca fui ao Museu da Porsche. Depois é uma próxima, acho que é importante.
Na adolescência, o Ferdinand Porsche era fascinado pela eletricidade. Aos 18 anos, instalou um sistema de iluminação elétrica na casa dos pais. Extraordinário. Eu também fui ver antes, no teu Instagram também está. Não é só para esta exposição agora, isto é uma coisa que já percebemos que nascemos, ainda estavas de fraldas, já andavas de Porsche, digamos assim, não é verdade? Portanto, eu fui ver o teu trabalho para trás, tens muitas ilustrações de Porsches já com este estilo e com esta arte pop engraçada.
Sim, sempre tive a ligação à marca. Portanto, esta marca está minha, dos meus irmãos.
No teu DNA. Está no vosso DNA.
Está na nossa alma, está no coração, está no sangue, praticamente.
É muito bom.
Porque nascemos praticamente no meio do desporto automóvel, por causa do meu pai, e dos Porsches. Depois deu a ligação ao Eric Nunes, ao Jorge, e até agora.
É exato, é incrível.
Vou ter com o Jorge, vamos almoçar, ele tem lá sempre. Aquilo parece uma loja de brinquedos.
Mas ele depois vai evoluindo. Ele agora tem os Panameras.
Não, ele está mais nos clássicos.
Ou ficou nos clássicos Carreras.
Mas aquilo é um carro, é como se fosse um fato. Portanto, um cliente chega ali e pede: "Quero isto, faz um creme". Ele faz um carro personalizado.
As pessoas entregam-no a ele para recuperar?
Exatamente. E muitos pedem como ele quer, ou então como ele acha.
Exato, como é que acha que é? E ele dá sugestões. Quem conhece aquilo.
Tem que ir lá ver, porque aquilo vale a pena.
Isto é a tal ZH?
Não. ZH é do pai. Isto é Ana Maria e Pia. Sport Class.
Está bem, ok.
Sport Class. Tem que ver no site. Já vai fazer 35 anos, parece. Sport Class.
É engraçado, porque toda esta exposição que estamos a falar, de Adolf Porsche, são peças originais, Porsches recuperadas e tratadas, mas tem guarda-lamas, portas, discos de embraiagem, travão, coletor de escape, aqueles escapes chouriço de 1900.
É, chamam chouriço.
Turbinas de ar, tampas de motor. É muito curioso. O Porsche era a marca talvez mais vencedora em Le Mans, acho eu.
É.
Esta 19ª vitória é aquela que tu falaste.
É de 1970.
Em 2017. 1919 híbrido dois, número dois. E de facto, misturas um bocadinho a arte, o automobilismo, a memória visual, a cultura pop nesta exposição.
Sim, porque esses carros na altura, nos anos 70, eram aquelas marcas de tabaco, era a Martini, tinham aquelas cores.
Vermute, era canário azul.
Antigamente distinguia-se um Ford de um Ferrari. Hoje em dia é muito difícil, os carros são quase todos iguais.
Pois é. E havia o todo preto que era o JPS, o John Player Special, eu lembro.
Exatamente.
Começou João Paulo Secadura, eram as iniciais que eu dizia sempre, tinha o meu nome. Que era o Lotus, que era o Tony Fitch. Mas era o único quase preto, não via mais desses. Hoje são todos muito parecidos, pois são. Mas distingues um fundo pelas cores dos patrocínios, certo, tens razão. E depois ainda há uma coisa com os discos, com os vários, Coca-Cola, não sei o quê.
A Coca-Cola fez o campeonato americano. O que eu escolhi que era o 935, com o número cinco, é americano. Depois há lá o que é o cor-de-laranja, de Jagmaster, que é do licor, que é aqueles laranja, faziam o campeonato alemão. O resto é tudo Le Mans
Sim.
Praticamente é tudo Le Mans. Tem lá a primeira vitória. O carro ganhou em 1970, foi quando houve as cores do Pink Pig.
É verdade. E esta lá é em 71, Le Mans. Um dos modelos mais irreverentes da história da Porsche. Era uma versão experimental do 917, muito mais larga que os outros, acho que tinha 24 centímetros a mais.
Foi uma empresa-
24 centímetros é imenso, são dois palmos
...foi uma empresa francesa, que era a Cera, que desenvolveu o carro, só que o carro ficou tão largo e tão feio que a Martini recusou patrocinar o carro.
Pronto.
E o Anatole.
Anatole Lapine era um designer famoso.
Era o chefe da equipa de design da Porsche, que entrou em 69 e saiu em 89.
"Então vou pintá-lo de cor-de-rosa".
Pintou-
Como se fosse uma porca.
Exatamente. Como olhou pro carro, disse: "Isto parece um porco". Então pintou de rosa e talhou como se fosse-
Porque tem desenhos com a forma, as partes do porco. O chambaço, o chambão. É muito engraçado.
O carro, por acaso, teve boas performances, mas depois acabou por desistir, teve problemas mecânicos.
Fechou.
Além do outro, havia o psicadélico, esse terminou em segundo, que era o número três. Psicadélico, que foi inspirado no vestido da secretária do Anatole, que um dia ela apareceu-
Do designer
...exatamente. Viu o vestido da secretária e achou tão lindíssimo. "Então, epa, vou pintar um carro com a cor desse vestido". E ele dizia: "No meio de 70 carros, ao menos vê-se. É um carro que se vê dos outros todos, destaca-se dos outros".
Exato.
E então pintou o carro e chamou-lhe psicadélico. Que era que tinha aquele roxo com verde.
Cá está. Tal como o Pink, eu acho que são belíssimos exemplos desta ligação entre a arte, o design, o humor e a engenharia, porque isto eram carros experimentais.
Não, claro. E hoje em dia-
São objetos de coleção, claro
...o padrão do Pink tá em todo lado. Você vai à internet, há canecas, e há camisas, há casacos, ainda fazem. Aliás, e há modelos recentes da Porsche, o GSR, que usam a mesma cor. Portanto, aquilo foi uma decoração, foi uma linha gráfica que ficou.
Sim.
Nunca mais.
É engraçado esta exposição, porque em cada obra representas um modelo que fez história.
Exatamente.
Isso é engraçado.
Mas a ideia é mesmo essa.
Conquistou vitórias, marcou para sempre o imaginário do automobilismo. É uma viagem, no fundo, ver esta exposição ali em Marvila, é uma viagem pela inovação, pela velocidade, pelo design e por esta identidade gráfica, que é uma coisa que te agrada muito e que sempre fizeste. É engraçado, porque as pessoas aprendem muito sobre esta marca. Afinal, isto é o criador, e o designer dele, e tudo. Tem muita história e fatos curiosos.
As pessoas achavam interessante, porque isto além de ser uma exposição, era uma viagem pela marca.
Exatamente.
Pela história.
Tá bem contado, no catálogo também os textos tão ótimos.
Exatamente. E fiz também o catálogo, e conta a história.
Com datas.
Cada peça tem uma história.
Cronologicamente, tá muito giro. Tem lá o capacete também, aquele negro com o desenho, próprio Ferdinand.
Exatamente, que é o primeiro projeto do Porsche.
Não sabia.
É. E que tem a imagem do Ferdinand Porsche. Também há o desenho ao fundo, que também tem a mesma imagem.
Sim, na parede ao fundo. Exatamente.
É o mesmo quadro em memória ao Ferdinand Porsche.
Já falei do catálogo também, que tá um livro lindíssimo.
Tem o guarda-lama também, tem lá um guarda-lama da primeira vitória.
Mas é giro, porque a gente tá ali, passeia, vê. Não é telas, é pinturas em bocados de automóveis, peças. Tu explicas tudo o que é, de onde é que é, de onde é que foi tirado, que carro é. É muito engraçado. E depois tens boa mão para o design, é muito giro.
Só também tive esta facilidade por causa do Jorge. Se não fossem as peças do Jorge, eu não conseguia fazer isso.
Aquele armazém que ele tem.
Porque é muito difícil arranjar este material.
A matéria-prima, não é?
Como é que se consegue arranjar isto? Nem na internet se arranja. Ou se compra um Porsche e cai-se uma fortuna, desmancha-se o Porsche todo, então...
Para fazer uma exposição. Isso é caro.
De facto, ele teve uma ideia belíssima.
Ah, mas foi mesmo ele que decidiu.
É, ele é que é o pai desta história toda. Depois eu comecei a fazer para clientes do Jorge, particularmente.
Esta exposição já tem uma série delas vendidas, peças.
Eu tenho clientes que são amigos, têm 20 carros em casa.
Antes já tinhas encomendas.
E que eu vou lá a sala e tem lá dois capôs pintados para mim.
Ah, que giro.
E o Luís Pintão, o da 28 Art Gallery, é que um dia viu o meu trabalho e disse: "Ei, mas por que tu não levas isto para uma exposição?"
Pronto, a ideia de ir pra aquela galeria foi dele.
Exatamente, foi dele.
Porque conheceu aquilo e disse-
Vou pensar
...e os espaços tem ele, que aquilo tem um espaço giro, aquilo é grande, tem dois ou três polos ali.
Esta ideia dele até foi porque o ano passado, há uma prova de Ibérica da Porsche, que é o SP21, que me convidaram pra pôr um capô da Porsche com o novo modelo 997, com as cores da Porsche, pra pintar e pra estar na zona VIP.
Ok.
E tinham os circuitos todos, que eram seis. Portanto, Portugal e Espanha. E ele quando viu o capô, ficou muito entusiasmado.
Encomendou-te.
Ele é que depois teve a ideia da exposição. Esse capô foi vendido no dia que lá chegou, foi logo reservado, quiseram logo ficar com o capô.
Quando dizes cores da Porsche, é o quê?
As cores do 997, elas não têm um vermelho completo.
Ah, cada modelo tem uma cor mais característica.
Sim, as 997 tem uma cor característica, que é um vermelho.
Hoje em dia vê-se muitos, mas estes maiores, Panamera e acima, são pretos. A maioria são pretos.
Mas estes são de competição. Às vezes fazem decoração pra certainas provas.
Exatamente. Mesmo sem ter a ver com o patrocínio? Podem não ter a ver, não é?
Não, aquilo é só Porsche.
É, sim.
Depois cada carro tem o seu patrocínio, mas a entidade principal é SP21.
Também eles escolhiam a-
Têm uma cor.
Portanto, a Porsche tem sempre um designer que se encarrega de dizer-
Tem o novo Anatole.
Exatamente. Que pode dizer: "Olha, vamos fazer este assim", e tal.
Tem que estar super-
Portanto, tens já peças vendidas e tens clientes colecionadores que te compram as coisas e que te encomendam.
Sim, agora vai haver um evento da Porsche início de novembro, também já me pediram pra levar lá as peças.
É uma ideia muito engraçada. Há outras marcas que fazem isso, sabes?
Não sei. Não faço ideia.
Ferraris.
Por acaso já pintei também uma encomenda de um capô de um Aston Martin. Que o Aston Martin tem uma vitória alemã em 1956, parece-me.
Ok. Também é um belíssimo carro.
É, e eu também pintei um capô.
Carro do James Bond.
É mais fácil de pintar porque é alumínio, é levezinho. Os Porsche são mais pesados.
É? Por quê? É ferro?
É. Os de competição são mais leves, que são de fibra.
Sim, saem levezinhos.
São levezinhos. Agora, o original é um bocado pesado.
Bom, não sabia.
Portanto eu, com a idade, tenho que começar a pintar em coisas em fibra e carbono que é para me aguentar.
Exato. Estão todos a ficar para novos. Isso já custa. Pegar na tela, isto já não é uma tela, não é? Isto é uma tela pesada.
É como a fotografia. Quando era novo andava com lentes grandes, agora cada vez ando com uma lente mais pequena, que cada vez custa mais.
Tu passaste facilmente do analógico para o digital? Ou quando começaste já era só digital?
Não, eu quando comecei era analógico. Falava-se já no digital, apareciam umas coisinhas.
Mas ao princípio houve muita recência. Eu lembro-me que eu disse: "Uís, passaram 10 anos. Tive de arranjar uma D, qualquer coisa, porque até aí não".
E depois apanhei logo o analógico. Eu não fiz muito, eu depois apanhei logo o digital.
A minha recência era um bocadinho porque achava que não faziam as mesmas coisas e era mais fiável. Hoje em dia já não.
Eu sempre acreditei no digital. Mas os fotógrafos antigos diziam: "Não, isto vai aparecer, mas vai desaparecer, porque o bom é que é o slide".
E os prova, os slides a cor.
Para fazer uma exposição de fotografia, não há dúvida que o slide-
Sim, aí tens que imprimir em grande e aumentar muito
O slide é uma coisa que-
Para não ter grão. Mas hoje já se consegue fazer coisas fantásticas.
O digital, isto é como a IA. Também a IA está aí.
Ninguém vai dizer: "Não, nós por isto de lado, nunca mais vamos usar". É uma ferramenta.
Esta vida é um comboio. Ou saímos de uma paragem ou continuamos.
Exato.
Eu fui-me adaptando. Eu quando comecei na área gráfica, eu ainda fazia folhetos, tudo à mão.
Em mesas de luz.
Sim, ia buscar as fontes, era um catálogo que era da Mecanorma, que havia uma papelaria Fernandes ali no Rato.
No Rato, sim, claro.
Era a Técnica, Fernandes Técnica, onde eu ia buscar o material e fazíamos tudo. Depois apareceram os computadores, também tive que me adaptar aos computadores.
Tinta China e coisas do gênero.
Sim, ainda fiz muita coisa. Os meus primeiros trabalhos de ilustração era Aerógrafa.
Sim, e como se paginava. Quando eu comecei nas revistas também eram paginadas assim à mão, mesas de luz e as coisas, pôr as fotografias, moldar, cortar.
Exatamente.
E guilhotinas e coisas do género.
Sim, e ainda quando trabalhei para uma empresa grande espanhola.
E as coisas faziam-se e eram ótimas.
Alcon Viagens, começámos a fazer os primeiros jornais.
Alcon, com H, eu sei.
Exatamente. Eu fiz toda a parte de campanhas para eles, fazia toda a parte de trabalho gráfico. E eu lembro que eles imprimiam em Salamanca e nós íamos com o jornal num disco que era um Sitek com 200 MB, íamos de carro para lá, porque não havia meio de mandar aquilo.
Por correio.
Só chegava lá uma semana depois.
Hoje em dia você tira e-mail de um lado para o outro. Comprimido.
Chegávamos o jornal e fazíamos direto de Salamanca para estar lá e imprimir.
Incrível.
E eu lembro que uma vez chegámos lá e não havia uma fonte.
Faltava uma fonte. Fonte é os caracteres gráficos.
Os caracteres gráficos.
Triste, mas extraordinário. Olha, para a pessoa te seguir e saber as tuas posições: plicas.art. Basta isto no Instagram. Muito bem, então o nosso tempo acabou. Mas, Plicas, queria agradecer muito esta tua disponibilidade em vir aqui.
Eu que agradeço.
E deixar aqui este convite a quem nos está a ouvir, esta exposição "The Art of Porsche. A History Written in Racing Colors 1970-1987", que vai estar até ao fim do mês na 28 Art Gallery, na Praça Central do Prata Riverside Village, em Marvila, de terça a sexta, das 17 às 21 horas. Este horário é que não é famoso, porque das 17 às 21 horas é quase só pós-laboral, quem puder ir para a outra ponta da cidade no pós-laboral.
Exato. Mas está lá o contacto.
Até conseguir ver, foi complicado.
Se alguém estiver muito interessado é contactar ou ligar.
Muito bem. Então bem-hajas por ter vindo, Plicas, e que continues sempre com esta inspiração, que foi muito bom. Muito obrigado.
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