A fúria em Israel contra os ultraortodoxos que não combatem

Teve a sorte de ter tido duas irmãs mais velhas a deixar os ultraortodoxos antes dele, o que provocou grande escândalo na comunidade, e diminuiu o lugar da família na hierarquia social, uma espécie de rating que cruza a herança familiar no seio dos ultraortodoxos, a fortuna, a influência política e cultural, a beleza e o nível de fidelidade de toda a família aos princípios haredi.
Quanto mais baixo for este rating familiar, menos escolhas têm os descendentes nos casamentos arranjados: “Provavelmente ter-me-iam arranjado uma noiva, mas ela também teria irmãos e irmãs que saíram… ou poderia não ter uma mão, ou ser cega, ou seja o que for.” Não chegou a acontecer, porque Yossi saiu antes de chegar a essa fase. Mas os dois irmãos não o autorizam a ver os 13 sobrinhos, com receio de que seja uma má influência (só os vê em casamentos).
Eva Steinmetz também sentiu esse peso, de estar marcada como problemática, e a família estava mesmo preocupada por não lhe conseguir arranjar “nenhum bom rapaz”.
Acabou por ser apresentada a um rapaz ultraortodoxo que vivia a religião de forma mais leve e, para não correr o risco de lhe arranjarem outro casamento, numa altura em que todas as raparigas só falam e pensam em constituir família, disse aos pais que ia casar com ele, apesar de ele não ser hassídico (a corrente do judaísmo ortodoxo da família de Eva). “Não pode acontecer, não na nossa família, não nas nossas regras!”, responderam os pais. Os três irmãos rapazes disseram imediatamente que não voltavam a falar com ela. Até hoje, 24 anos depois.
Esse casamento durou apenas dois anos, até Eva se afastar de vez da religião. Apesar da falta de bases na educação, estudou por si própria dez anos de matemática num só, para conseguir entrar na universidade e fazer o curso de Direito. Acaba de receber a notícia de que foi aceite para fazer um doutoramento na Universidade de Nova Iorque, onde vai aprofundar estudos em Liderança e Inovação, especificamente focados sobre a tomada de grandes decisões sem ter informação suficiente — que é algo que considera que falta no seio dos ultraortodoxos.
“Depois do 7 de outubro, precisámos dos ultraortodoxos e eles não vieram”
Nos três anos em que Yossi esteve no departamento militar, já se sentia laico interiormente e passou a sentir-se também laico em termos visuais, deixando de usar a touca judaica (kippah).
Apesar de ser muito jovem, ajudou a preparar as condições para integrar os ultraortodoxos, compatibilizando a vida militar com as regras da religião: ajudou a garantir por exemplo que haveria comida kosher confecionada com as restrições indicadas; ou que não teriam de ter contacto com mulheres: ainda esta semana o The Telegraph noticiou que 16 militares haredi se recusaram a participar numa missão, por estar prevista a participação de uma paramédica.
Devido à impreparação escolar, os ultraortodoxos recebiam uma formação especial acelerada: “O percurso é construído de forma a pegar em alguém que não sabe nada sobre o exército e, em poucos meses, se transforma num soldado que é útil para o exército.”
Esta formação era financiada pelo Ministério do Emprego, na expetativa de ajudar a preparar os homens ultraortodoxos para eventualmente entrarem no mercado de trabalho mais preparados, em vez de ficarem desempregados e sem capacidade para desempenhar a maior parte dos empregos, por falta de aprendizagens básicas. Isto já tendo em conta que o número de homens ultraortodoxos que tem um emprego é uma minoria, que carece de autorização dos líderes da comunidade.
Depois de cumprir o seu tempo no exército, Yossi foi alto quadro de uma empresa tecnológica ligada ao tratamento de água, mas esteve sempre ligado à integração de jovens ultraortodoxos, coordenando atualmente uma ONG que tem esse objetivo.
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