Geração Z ocupa praça em Lisboa contra crise da moradia e enfrenta repressão policial
Na madrugada desta terça-feira (20), por volta das 6h, a polícia portuguesa dispersou jovens que se manifestavam por melhores condições de moradia. Eles estavam acampados na praça dom Pedro 4º, em Lisboa, conhecida como Rossio. Foram apreendidas 228 tendas, e 55 pessoas foram presas, de acordo com a Polícia de Segurança Pública de Portugal.
A "acampada", como ficou conhecida, deu-se em torno da estátua de dom Pedro 4º —o monarca que, no Brasil, ficou conhecido pelo nome de dom Pedro 1º e proferiu o Grito do Ipiranga. O brado retumbante dos jovens portugueses durante a "acampada" era outro: "Na rua nos querem, na rua nos verão".
O slogan fazia referência à principal reivindicação dos manifestantes: condições mais favoráveis para aluguel de imóveis. Os jovens da geração Z portuguesa, assim como os de vários países europeus, saem cada vez mais tarde da casa dos pais devido aos custos crescentes de moradia. Na desocupação da praça, ativistas portugueses acusaram a polícia de violência e de apreender pertences pessoais dos manifestantes. Dois jovens saíram com ferimentos leves.
Quando a polícia começou a retirar os manifestantes, os jovens se reuniram em torno das barracas e passaram a entoar a canção "Grândola, Vila Morena", hino da Revolução dos Cravos, que derrubou a ditadura salazarista em 25 de abril de 1974. É justamente no Rossio que é comemorada, todos os anos, a data nacional portuguesa.
Em comunicado, a polícia disse que os manifestantes foram detidos por "prática de ilícitos criminais, designadamente desobediência". O uso da força, segundo as autoridades, foi "limitado ao mínimo necessário, tendo cessado logo que deixaram de se verificar os pressupostos que o determinaram".
Os 55 jovens detidos foram liberados na tarde da própria terça-feira (20), com o compromisso de comparecerem a um tribunal no dia seguinte. Na noite de terça, os manifestantes voltaram ao Rossio para protestar, ainda sem decidir se fariam uma nova "acampada".
Na França, ao longo das duas últimas semanas, jovens foram às ruas por melhores condições de ensino. As manifestações portuguesas, motivadas pela crise habitacional, inspiraram-se não no caso francês, mas no movimento da praça Puerta del Sol, em Madri, que há cerca de um mês está ocupada por tendas.
A principal reivindicação dos jovens de Lisboa e do Porto —cidade onde as manifestações portuguesas começaram na semana passada— é a revogação da Lei do Arrendamento, aprovada provisoriamente pela Assembleia da República e ainda não promulgada.
A nova lei está em sintonia com a política do governo de Luís Montenegro para lidar com a crise habitacional. O primeiro-ministro acredita em baixar os aluguéis com um "boom" na construção civil, que aumentaria o número de imóveis no mercado. Isso envolveria incentivos aos proprietários, como facilitar os despejos e acabar com os tetos de aumentos para os aluguéis.
As reivindicações dos jovens vão na direção contrária. Eles acreditam em um crescimento da habitação pública, com a recuperação de imóveis da prefeitura fora de uso. A pauta também se compõe de ideias inspiradas no movimento espanhol, em que os jovens se solidarizaram com a aposentada Maricarmen Abascal, despejada aos 87 anos do apartamento onde morou a vida toda.
Assim como os manifestantes espanhóis, os portugueses querem o fim do despejo quando não há alternativa de habitação para o morador –caso de Maricarmen, que acabaria por morrer em um hospital— e limites para a aquisição de imóveis por fundos imobiliários. Eles defendem também tetos para aluguéis e limites de aumentos na renovação dos contratos.
O professor de relações internacionais Álvaro Vasconcelos, que vem acompanhando as manifestações em Lisboa e em Paris, diz não acreditar em uma escalada de violência em Portugal comparável à que aconteceu na França. "Claro que se a repressão policial aumentar pode haver uma reação, como vimos em Paris", disse à Folha. "Protestos violentos, no entanto, não fazem parte da cultura de Portugal."
Lá Fora
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Na Espanha, o acampamento na Puerta del Sol teve um forte impacto político. Ele levou à queda do governo de Pedro Sánchez. O primeiro-ministro socialista se viu obrigado a convocar eleições para o dia 29 de novembro quando não conseguiu aprovar dois decretos atendendo algumas das reivindicações dos manifestantes, e viu a coalizão que o sustentava se desfazer.
Em Portugal, a Lei do Arrendamento foi aprovada provisoriamente com os votos dos partidos de direita e a abstenção do Chega, sigla que representa a ultradireita em Portugal. O Chega, no entanto, costuma retirar seu endosso de causas que se revelam impopulares. O apoio da opinião pública, assim, pode ser decisivo para os jovens da geração Z —que contariam, neste cenário, com um improvável apoio da direita mais radical às suas reivindicações.
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