Elogios improváveis, TGV e Paris. O regresso de Sócrates

No dia 10 de setembro de 2025, caía o pano sobre as declarações iniciais de José Sócrates no julgamento da Operação Marquês, ao fim de nove sessões consecutivas. Exatamente um ano depois, numa “coincidência” assinalada na audiência desta quinta-feira, o ex-primeiro-ministro regressou ao Juízo Central Criminal de Lisboa para voltar a prestar novas declarações. Contudo, em cerca de quatro horas e meia de intervenção (ainda sem direito a contraditório da juíza Susana Seca, que apenas clarificou questões pontuais, ou do MP), pouco se falou de aspetos ‘novos’, nomeadamente os circuitos de dinheiro — um dos aspetos centrais da acusação do Ministério Público de outubro de 2017 e da pronúncia da Relação de Lisboa de janeiro de 2024.
Em junho, José Sócrates tinha enviado um memorando ao tribunal a pedir para voltar a ser ouvido em setembro para abordar outros aspetos. “Estou agora preparado para abordar outros aspetos da acusação”, escreveu, então, o antigo governante. No entanto, sobressaiu um certo déjà vu desta sessão, com o principal arguido do processo a recuperar temas, como as casas da Venezuela ou o dossier do TGV (ambos centrais na tese de alegado favorecimento ao grupo Lena), sem esquecer a história do apartamento de Paris. Todos temas que já tinham figurado nas suas primeiras declarações, mas que esta quinta-feira foram reforçados com mais argumentos para tentar desmontar as teses do MP.
Embora formalmente representado pelo defensor oficioso Luís Carlos Esteves no julgamento, cuja defesa não é reconhecida pelo antigo governante e que até já veio manifestar nos autos a retirada de eficácia dos atos praticados pelo advogado, José Sócrates chamou a si mesmo a sua defesa e o protagonismo da sessão. Sempre que precisou de algum tipo de apoio, nem que fosse de uma caneta para escrever, recorria a Filipe Baptista, o advogado da sua ex-mulher, Sofia Fava, e a quem chegou a passar uma procuração para ser seu mandatário, mas que não foi efetivada pelo próprio Baptista pela recusa do tribunal em garantir 10 dias para preparação da defesa. Hoje a juíza Susana Seca enfatizou que o tribunal não negoceia procurações. “Ou apresenta a procuração ou não apresenta — não há procuração condicionada a despacho do tribunal”, afirmou a líder do coletivo de magistrados.
Pelo meio, o antigo líder do PS não perdeu a oportunidade de voltar a fustigar os procuradores com ataques duros, ao imputar-lhes novamente uma alegada politização e uma “auditoria moral” à sua governação. Sócrates surpreendeu também com inusitados elogios ao Governo Passos Coelho, nomeadamente à diplomacia económica do ministro Paulo Portas na Venezuela, bem como na alusão a sketches da Porta dos Fundos ou ao filme A Vida dos Outros, citados para condenar o MP.
O dinheiro no suposto circuito XMI/ILS/Dynamic Pharma
A abordagem ao denominado circuito financeiro entre as empresas XMI (ligada a Carlos Santos Silva), ILS e Dynamic Pharma (estas duas ligadas a Paulo Lalanda e Castro, antigo presidente da Octapharma, que chegou a ser investigado, mas não foi acusado na acusação da Operação Marquês) foi, porventura, a maior novidade nos temas referenciados nesta sessão pelo antigo primeiro-ministro. E a única
De acordo com a tese da acusação, existiria um circuito de movimentação de dinheiro entre estas três sociedades, cujo objetivo final passaria por fazer chegar dinheiro ilícito a José Sócrates, devido ao contrato de trabalho que teve com a última sociedade e que consistiria num aparente esquema de branqueamento de capitais para dissimular entregas de vantagens ao ex-primeiro-ministro.
Porém, José Sócrates, que garantiu nunca se ter interessado pelos aspetos relacionados com a XMI, começou por colocar em causa uma premissa de associação dessa empresa a Carlos Santos Silva e apontou o poder sobre essa sociedade noutra direção. “O Carlos [Santos Silva] é proprietário da empresa? Ele tem 20% da empresa. Nunca me interessei por isto, porque diz respeito ao Carlos e à Lena, não me diz respeito. E depois tenho de explicar os milhões que passaram pela conta de Santos Silva? Mas não me parece que haja problema com os milhões de Santos Silva. Só se o dinheiro for sujo! Esta conversa de insultar as pessoas só porque têm dinheiro tem de acabar”, defendeu.
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