Alemanha. AfD é um "upgrade da política de Schröder"?

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O fim de semana ficou marcado por várias eleições, algumas com eventual impacto nas guerras. É disso que vamos começar a falar com o coronel José do Carmo. Muito bom dia, bem-vindo, coronel. Comecemos por esta vitória do partido de Vladimir Putin na Rússia. Independentemente da forma como correu o processo, isto significa que temos uma liderança russa mais reforçada depois de ontem?
Como diz a Carla, independentemente é uma palavra bastante permissiva. Na Rússia, ganha as eleições quem Putin quer, no fundo. Não tem um significado real, tem um significado de fato de percepção.
E de narrativa.
Sim, as pessoas na Rússia ficam convencidas, como nós, ou se for o poder em Moscovo, que sim, que estão a apoiar e, portanto, o poder pode invocar esta legitimidade. É por isso que se fazem eleições, é para ter uma legitimidade. No fundo, é uma espécie de tributo que o vício paga à virtude. É necessário legitimar-se democraticamente, porque é a única legitimidade que hoje em dia é aceita, porque a outra é a legitimidade do poder puro e duro. Sim, neste aspecto, isto já se sabia que ia acontecer. Ou seja, Putin já sabia que ia ganhar as eleições, já sabia que ia ter os votos que quisesse. Agora, é evidente que, sendo assim, está legitimado. O formalismo está considerado e, portanto, está legitimado para continuar. No fundo, o que ele pode dizer é que o povo russo subscreveu a sua política, não é de agressão, mas nas palavras deles, a sua política de libertação da Ucrânia, do inimigo nazi.
Portanto, reforça a narrativa. Poderia não estar previsto era que estes três dias, e sobretudo até no fim de semana, tivessem sido marcados por intensos ataques com drones ucranianos em território russo. Esta guerra de desgaste, Kiev está a tentar passá-la também e está a conseguir passá-la para o outro lado da fronteira?
Exatamente. No fundo, é jogar no mesmo jogo, ou seja, é pensar que os russos estão a subscrever uma política e, neste caso, se estiverem a perceber no terreno as consequências da guerra e o fato de haver guerra, e o fato de estarem em guerra, os levará a votar de maneira diferente. Mas parte-se já do pressuposto que as eleições são reais, ou seja, que as pessoas votam exatamente no que querem ou como querem. E na verdade não é isso que se passa. Eu penso que a Ucrânia está a fazer sentir aos russos que é uma guerra, para criar descontentamento com a guerra, independentemente do que os votos dizem. A ideia é criar descontentamento. É também sobrecarregar a logística russa, as suas armas de defesa, a sua capacidade de se defender e levar ao povo russo que está naquele momento a votar, alguns deles, pelo menos votam, vão lá depositar o seu voto. O resultado não tem muito a ver com eles, mas alguns acreditarão que sim. E nesse caso, é fazer-lhe ver que é uma guerra e que as consequências se vão começar a sentir internamente. No fundo, esta guerra vai-se decidir não é nas urnas, pelo menos no lado russo, mas vai-se decidir na logística. É na logística, é na capacidade de sustentação das forças numa guerra que se está a transformar em total.
Diz que a guerra se vai decidir nos recursos. Hoje, há poucas horas, Volodymyr Zelensky anunciou que vai ter um novo encontro com Donald Trump e que podem surgir novas ideias, um novo encontro nos próximos dias. O que é que poderá surgir neste encontro que ainda não tenha surgido noutros, coronel?
O Zelensky está a tentar também legitimar-se em termos de apoio internacional, no momento em que na Europa há eleições que colocam em causa justamente aquilo que é esta força.
A Alemanha.
Sim, a sustentação do apoio à Ucrânia. Aí sim, o grande problema está neste momento aí. Ou seja, neste momento Putin teve a vitória que Putin está a ter em eleições na Alemanha. Na Alemanha, a AFD, se chegar ao poder, se implementar, é uma Ostpolitik do tipo Schroeder. É uma Ostpolitik em que cede tudo à Rússia, em que coloca a Alemanha, em troca de gás barato, na dependência da Rússia. E a AFD tem esta política em relação à Rússia, que é uma espécie de Schroeder Tipo 2. Isso sim, é preocupante, porque isso tira a maior parte da sustentação à capacidade europeia de sustentar a Ucrânia. No fundo, é aí que as coisas se vão sentir. Na América, é só tentar que as políticas transnacionais de Trump não levem Trump a deitar, mais uma vez, a Ucrânia por debaixo do autocarro em troca de ganhos noutros teatros. E Zelensky está a tentar acautelar isso. Não vai lá pedir nada, vai lá comprar, tentar comprar coisas, tentar que a América forneça coisas, que também neste momento não tem muitas. Mas não convém perder os americanos, não só como mediador possível, mas também como fonte de algumas capacidades que não existem na Europa ainda.
Ou seja, Zelensky a tentar manter-se na agenda nos Estados Unidos que estão muito concentrados também no desgaste da guerra com o Irão. Aqui também sabemos que os mediadores dos dois países estão a tentar chegar a algum acordo. O fato de começarmos esta semana com a Assembleia Geral das Nações Unidas pode trazer alguns desenvolvimentos a nível diplomático ou não é por aí, de facto, que estes conflitos se vão desenvolver e resolver?
Não, é que há conversas. A ONU serve para isto. Serve para as pessoas se encontrarem e conversarem. É basicamente isto. Não é nos mecanismos da ONU que estas coisas se resolvem, mas a ONU é, neste momento, a sua grande vantagem. É um areópage onde as pessoas falam e falando encontram-se umas com as outras e podem discutir, e os líderes falam. Aqueles que falam, não falam todos, mas pelo menos é um sítio onde toda a gente fala, independentemente de gostar ou não dos outros, fala-se. Eventualmente, Trump irá falar com o Paquistão, embora o Paquistão não seja quem manda no Irão. Mas é para isso que serve. Não é na ONU que se vai decidir nada, mas vão fazer discursos, vão se definir políticas, vão se clarificar posições e depois as decisões são tomadas noutros planos que não este. Mas de qualquer maneira ficamos com uma ideia do que é que os Estados Unidos querem, do que é que a China quer, do que é que o Irão quer, do que é que a Rússia quer. E dito, pelo menos, de uma forma quase propagandística, porque não estão a falar só para os seus países, estão a falar também para os seus clientes, para as pessoas que os ouvem. A Rússia fala para o sul global, tal como a China, fala para alas no Ocidente, alas de amigos da Rússia no Ocidente ou inimigos dos Estados Unidos no Ocidente, também há muitos. E estes discursos servem para isso tudo. O que é importante não são estes discursos, são as conversas que eles têm depois à margem, ali nos cafés, nos Passos Perdidos. Não sei se isso há lá na ONU, mas é onde as pessoas conversam, é aí que as coisas realmente podem ter interesse. Agora, nos discursos, não. Os discursos são discursos retóricos para as suas clientelas e para aqueles que os ouvem e querem ouvir um reforço da posição.
Mas quem sabe esses encontros bilaterais em algum corredor passe a facilitar. Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise neste Gabinete de Guerra.
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