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Thursday, October 22, 2026

'Mandei as crianças deitarem enquanto ele falava que ia me matar', diz professora de creche atacada em Curitiba

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Era sexta-feira (9), véspera de feriado, dia de comemorar as crianças. Tinha festa na creche e elas vestiam fantasias de seus heróis favoritos. Naquela tarde, em Curitiba, a atitude de proteção adotada pela professora Ana Nickel, 23, seria fundamental.

Ela permaneceu com seus 13 alunos, entre 3 e 4 anos, feitos reféns por um homem em surto. Foi Ana quem deitou com elas no chão e as acalmou diante da ameaça armada, que se estendeu por três horas.

Crianças e professora foram rendidas na entrada da sala, quando retornavam do refeitório, após se divertirem no piquenique do CMEI (Centro Municipal de Educação Infantil) São Braz.

"Ele me parou na porta e, antes de ele falar qualquer coisa, dei um grito, pois ele estava completamente fora de si, transtornado. Foi quando ele gritou comigo, falou que não estava de brincadeira e mostrou a arma."

Naquele momento, apenas 13 das 20 crianças da turma haviam retornado para a sala. O homem, que invadiu a escola pulando o muro, mandou a professora entrar e fechou a porta.

"O tempo todo ele apontava a arma e falava que ia matar. Xingava as crianças e dizia que não estava brincando, que ia matar todos que não o respeitassem", diz ela. "Mandei as crianças deitarem no tapete, que é o protocolo, enquanto ele gritava e falava que ia me matar se eu não fizesse elas pararem de gritar."

A professora relata o terror vivido pelos alunos, que não conseguiam parar de chorar, fazendo com que o homem ficasse cada vez mais nervoso e também gritasse muito.

"Disse que era mentirinha, que não precisava ficar com medo, que a mamãe já ia chegar. Com isso, consegui que elas ficassem um pouco quietinhas no tapete."

Paranoico, com uma faca e uma arma (que depois teve a confirmação de ser falsa), o invasor mandou a professora fechar todas as cortinas. "Ele falava que era um acerto de contas. Mas não dizia qual. E mandava fechar as cortinas de novo, só que já estavam fechadas."

Naquele momento, ele encostou a arma no pescoço de Ana e a mandou sair da sala, trancando-se lá com as crianças por mais duas horas. Depois de ele ameaçar colocar fogo na escola, e de várias tentativas de negociação, sem sucesso, a polícia invadiu a sala e matou o homem a tiros. A identidade dele não foi divulgada.

Todas as crianças foram resgatadas sem ferimentos graves. Até os pais chegarem, a professora conseguiu rever seus alunos. "Estavam preocupados comigo. Perguntavam se o ladrão tinha me machucado e pediam colo e abraços."

Ana, que havia voltado às aulas duas semanas antes, após afastamento por síndrome de burnout, afirma que precisou começar nova medicação e não sabe se conseguirá voltar a lecionar.

"Estou em constante estado de alerta, coração acelerado, não consigo sair de casa."

O CMEI São Braz tem 15 profissionais e atende 57 crianças. Segundo a Secretaria de Educação de Curitiba, a maioria retornou para escola na última quarta-feira (14), depois de uma reforma e novas medidas de segurança implantadas pela prefeitura, como câmeras de vigilância, botão de pânico e reforço da Patrulha Escolar.

A pasta também informou que são oferecidos serviços gratuitos de apoio psicológico para alunos, familiares e professoras, que recebem orientações sobre como agir em situações de risco, por meio do protocolo Conhecer para Prevenir.

A educadora, que cursa psicologia, reforça a importância da atenção e acompanhamento à saúde mental dos professores. Diariamente, diz, eles são submetidos a pressão e desvalorização, inseguros a cada novo episódio extremo, como o que vivenciou.

"Nós somos seres humanos. Somos profissionais, mas também sentimos medo, sentimos dor, e precisamos de segurança."

A Polícia Civil do Paraná instaurou inquérito para apurar os crimes de lesão corporal, ameaça, sequestro e cárcere privado, e posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso restrito.

"Os dispositivos eletrônicos do suspeito foram apreendidos e encaminhados à perícia técnica. A investigação segue em andamento para esclarecer a motivação dos fatos", diz a nota.

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