Manifestantes ocupam praça em Madri pela segunda noite após despejo de idosa de 87 anos
A aposentada espanhola Maricarmen Abascal, 87, que se tornou símbolo da crise habitacional na Espanha após ser despejada de seu apartamento na quarta-feira (23), pediu nesta segunda-feira (28) aos manifestantes que continuem "a luta". No centro de Madri, a praça Puerta del Sol está ocupada desde a noite de sábado por cerca de uma centena de pessoas, que denunciam a alta dos preços e a redução da oferta de moradias.
"Peço a todos coragem, que lutem e defendam o que é nosso", afirmou a aposentada de 87 anos em um vídeo publicado na rede X na noite de domingo (27) para segunda-feira (28) pelo Sindicato de Inquilinos da Espanha. "Aguentem firme!", acrescentou. A aposentada está hospitalizada e lamentou, por motivos de saúde, "não estar ao lado dos manifestantes nesta mobilização e nesta luta".
A praça espanhola já havia sido ocupada em 2011 pelos "Indignados", que protestavam contra a austeridade e a corrupção após a crise financeira de 2008. "Ficaremos o tempo que for necessário", declarou Alberto Macias, porta-voz do Sindicato da Habitação de Carabanchel, uma das organizações responsáveis pelo acampamento de protesto. "Todos somos Maricarmen", "Nem mais uma Maricarmen", gritavam os manifestantes.
Maricarmen foi obrigada a deixar o apartamento onde vivia havia 70 anos depois que uma empresa imobiliária comprou o imóvel e aumentou seu aluguel em 275%, o equivalente a € 2.650 por mês (cerca de R$ 16.695), segundo o sindicato. Seu caso ilustra as dificuldades de acesso à moradia na Espanha, onde plataformas de aluguel turístico de curta duração, como o Airbnb, e fundos especulativos são acusados de elevar os preços e reduzir a oferta de imóveis.
Explosão dos preços
Em dez anos, o preço médio do metro quadrado para aluguel na Espanha quase dobrou. Já o preço médio de compra chegou a 2.355 euros por metro quadrado, alta superior a 50% no mesmo período, segundo dados oficiais. Madri foi eleita em 2025 e 2026 a cidade mais atraente do mundo para o mercado imobiliário de luxo pelo grupo Barnes. A capital espanhola tem um parque habitacional social tão reduzido que parte das moradias públicas é distribuída por sorteio.
Aunque no pueda estar en la acampada, Maricarmen quiere mandarnos todo su apoyo y su fuerza. Para todas las que estamos acampando, organizándonos y defendiendo nuestro derecho a tener una casa.Ninguna lucha debería librarse sola. Seguimos juntas. https://t.co/fPs4nmSPXA
? Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madrid (@InquilinatoMad) September 27, 2026
As imagens do despejo de Maricarmen na semana passada causaram forte comoção no país. O primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez foi criticado pela oposição e por aliados por não ter conseguido conter a alta dos preços de compra e aluguel desde que chegou ao poder, em 2018. Ele deve participar na tarde desta segunda-feira (28) de um evento em Barcelona sobre o tema.
No domingo (27), Sánchez garantiu que seu governo trabalha para apresentar novas medidas nesta terça-feira (29), após uma reunião do Conselho de Ministros. O decreto-lei proposto pelo Executivo precisará ser aprovado pelo Parlamento, mas não tem aprovação garantida, já que o governo não dispõe de maioria parlamentar.
"Ontem, Maricarmen publicou um vídeo e pediu ao governo da Espanha, e particularmente a mim, que apresentássemos na próxima terça-feira um decreto-lei para começar a aliviar a situação de emergência habitacional vivida por milhões e milhões de espanhóis", disse o primeiro-ministro.
"Maricarmen, tenho uma mensagem para você. O governo trabalha para apresentar um decreto-lei sobre habitação na próxima terça-feira. Peço aos grupos parlamentares que façam um último esforço para que ele seja aprovado no Parlamento", acrescentou durante um comício do Partido Socialista.
Protestos em outras regiões
Segundo o Sindicato de Inquilinos da Espanha, várias manifestações estão previstas para esta segunda-feira em outras regiões do país. Na quarta-feira, as imagens do despejo da aposentada geraram compoção nacional. No domingo, os manifestantes receberam a visita do cineasta espanhol Pedro Almodóvar.
"É absolutamente insuportável para a sociedade espanhola continuar convivendo com esse problema por mais um dia. Os responsáveis políticos precisam resolvê-lo, porque são eles que nos governam", declarou à emissora pública RTVE.
"Vamos lutar para que a moradia deixe de ser um bem de mercado e passe a ser um bem de primeira necessidade", disse um manifestante ao megafone. "Não aguentamos mais. Ou o sistema de aluguel entra em colapso, ou o governo cai", resumiu o Sindicato de Inquilinos da Espanha na rede X. A entidade havia convocado a população a se juntar ao acampamento, instalado "espontaneamente" após uma manifestação que reuniu várias dezenas de milhares de pessoas no sábado.
A prefeitura de Madri, controlada pelo Partido Popular (direita), pediu no domingo a desocupação da Puerta del Sol e acusou o governo central de permitir a continuidade do protesto, segundo a imprensa local.
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