O Senador que irrita Trump entrou para a história

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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o senador que irrita Trump entrou para a história.
Donald, look, I know you struggle with my name. So after JD swears me in in January, you can just go on a call me Senator.
Estamos a ouvir o discurso de vitória de Abdul El-Sayed, do senador Abdul El-Sayed. O nome, por si só, já conta uma história. É o primeiro muçulmano a candidatar-se e a ganhar a corrida ao Senado. El-Sayed venceu no estado-chave do Michigan, que tanto elegeu Trump em 2024, como Joe Biden em 2020. Mas esta, que é uma das principais histórias que saíram da madrugada de terça-feira, não é só sobre o primeiro senador muçulmano. Abdul El-Sayed também é o representante de uma corrente dentro do Partido Democrata que, tirando uma ou duas exceções, esteve sempre contida ao longo dos anos. Hoje vou falar sobre o que esta vitória significa com o especialista em política americana, Nuno Gouveia. Vamos conhecer melhor de onde veio este senador, como resistiu aos ataques de que foi alvo durante a campanha e vamos perceber se esta corrente mais à esquerda ganhou poder no Partido Democrata ou se as eleições de terça-feira confirmaram, apesar das histórias excepcionais, o poder da ala moderada. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quinta-feira, 05 de novembro. Olá, Nuno, bem-vindo.
Olá, tudo bem?
Bem, obrigado. Estamos ainda a digerir os resultados destas eleições intercalares norte-americanas, que trouxeram-nos muitas histórias e muitos momentos que seguramente tornarão esta madrugada histórica. Uma dessas histórias é a vitória do senador do estado do Michigan, um senador que ficou conhecido por ser o primeiro candidato muçulmano e o primeiro senador muçulmano. O que o Nuno destaca desta história em particular?
Em primeiro lugar, de facto, foi uma vitória diferente daquelas que estamos habituados, mas esta foi uma eleição bastante competitiva. Em primeiro lugar, dentro do Partido Democrata, nas primárias para o estado do Michigan, para a seleção do candidato ao Senado, já tinha sido bastante competitivo. O establishment do Partido Democrata tinha apoiado a congressista Haley Stevens, que foi derrotada e, por outro lado, a ala mais à esquerda do partido tinha apoiado El-Sayed. Foi uma vitória muito curta, como disse, por 1%, mas que obviamente depois dessa eleição primária, houve uma tentativa de união em redor deste candidato, que como quem diz, é um candidato que traz algo diferente para a política norte-americana. É a primeira eleição de um candidato muçulmano. Muitas das suas posições estão muito fora do mainstream do que é a política americana ou do que era a política americana até agora, e mesmo dentro do Partido Democrata. Aliás, se nós olharmos para o panorama eleitoral destas eleições, foi talvez a vitória mais importante desta ala à esquerda do Partido Democrata e, por isso só, também tem significado político para aquilo que vai ser o futuro do partido e no fundo, o rumo que está a levar também a política americana.
É isso. Isso é uma das histórias que vamos seguir com interesse e já vamos falar um pouquinho mais sobre essa divergência ideológica dentro do Partido Democrata. Mas se calhar vamos olhar um pouquinho para este candidato, o que o levou até aqui, quem ele é. Ele é filho de egípcios, cresceu já nos Estados Unidos e é um médico de formação. Esta componente como muçulmano fez com que, durante a campanha eleitoral, ele fosse muito atacado, sobretudo pelos adversários republicanos e também pelo presidente e pelo vice-presidente dos Estados Unidos, sobretudo encostando-o ao extremismo religioso, aos terroristas, etc. No entanto, essa mensagem não passou porque ele foi bom a defender-se ou porque os americanos já não compram tudo aquilo que os políticos lhes vendem?
Eu diria que é um misto. De facto, o candidato, que é um candidato carismático, mostrou ter competências políticas muito boas. Obviamente que ele foi atacado, em primeiro lugar, por ser muçulmano e no contexto político em que os Estados Unidos estão, era um ataque fácil. É preciso dizer que o seu percurso político se iniciou não agora. Ele já tinha sido candidato em 2018, nas primárias do Partido Democrata para a governação do Estado, onde perdeu para a atual governadora, mas no fundo, já nessa altura se tinha destacado como alguém carismático e que sabia defender muito bem as suas ideias. Ao longo desse percurso, ele de facto teve algumas associações, eu diria um pouco infelizes, algumas pessoas mais da extrema-esquerda americana, Hasan Piker fez parte da sua campanha Para estas primárias e isso trouxe alguns dissabores. Ele próprio também tinha cometido alguns deslizes em afirmações públicas, que no fundo potenciaram estes ataques do Partido Republicano, mas obviamente ao acusarem-no de ser da Irmandade Muçulmana, algo que não existem provas e que não conseguiram mostrar provas ou que era próximo de grupos terroristas, isso fragilizou em primeiro lugar um pouco o ataque dos republicanos. E depois estas eleições, também é preciso dizer, eram umas eleições muito difíceis para o Partido Republicano e mais fáceis para o Partido Democrata, como se concretizaram. A sua vitória não deixa margem para dúvidas. Venceu por 7%, mas também é preciso dizer, foi menor que a vitória da candidata do Partido Democrata ao governo do Estado, que venceu por cerca de 11%. Portanto, eu diria que a sua candidatura polêmica terá sofrido um pouco em virtude desses ataques do Partido Republicano, mas claramente não foram suficientes e percebendo até pelas suas qualidades e características políticas, eu estou certo que ele vai ter um forte impacto enquanto senador do Partido Democrata em Washington.
E nesta corrida, o Nuno falou de alguns posicionamentos dele à esquerda e algumas ligações até a uma esquerda mais extrema dentro do Partido Democrata e não só. Foi interessante olhar para as primárias, que é a forma como os americanos escolhem quem é o seu candidato, o candidato do seu partido para um determinado cargo, neste caso, o cargo de senador do Michigan. A concorrente Haley Stevens era o Partido Democrata tradicional. Até os pontos de vista que tinha, por exemplo, sobre Israel, que foi um dos temas desta campanha, eram mais alinhados com aquilo que é o mainstream americano e, portanto, uma posição pró-Israel. Não é o caso de Abdul El-Sayed, que tem uma visão muito crítica de Israel. A luta entre os dois foi tão grande, entre esta visão tradicional e uma visão mais à esquerda daquilo que é a política, que acabou há dois dias das eleições com a adversária democrata a declarar apoio ao candidato republicano, Mike Rogers.
Sim, havia uma grande animosidade entre os dois e de facto foram feitas várias tentativas já durante a campanha de os juntar e de os colocar lado a lado. A candidata derrotada, Haley Stevens, tinha declarado apoio à sua candidatura, mas que há dois dias das eleições retirou e apoiou o adversário republicano, algo que certamente irá contribuir para o fim da sua carreira política, pois o Partido Democrata obviamente não irá perdoar essa traição. A questão israelita parece-me muito interessante e de facto esta vitória de El-Sayed também sinaliza uma mudança no posicionamento do Partido Democrata em relação a Israel. Aqui, se calhar, está mais dentro do mainstream daquilo que é o pensamento de muitos políticos democratas do que a própria Haley Stevens, pois nós nestes últimos, sobretudo nestes últimos dois anos com Donald Trump na Casa Branca, assistimos claramente a uma mudança de posição de muitos políticos do Partido Democrata e já não é só a ala esquerda a defender uma política diferente em relação a Israel. E nesse aspecto, esta vitória de El-Sayed também vem balizar este novo posicionamento que existe no Partido Democrata e até mais do que isso, também no Partido Republicano começam a haver críticas a esta proximidade entre os Estados Unidos e Israel. Mas voltando a El-Sayed, isso de facto sinaliza esta nova abordagem que o Partido Democrata tem. Nós tivemos votações com esta atual composição da Câmara dos Representantes e do Senado muito críticas para o apoio a Israel. Foi a votação se os Estados Unidos deveriam ou não continuar a apoiar Israel. Muitos democratas defendem até que os Estados Unidos devem deixar de vender armas a Israel, e El-Sayed obviamente defende isso. E portanto, nesse aspecto, parece-me que a vitória de El-Sayed normaliza essa posição. Depois há muitas outras posições críticas de El-Sayed e que isso lhe trará certamente alguns dissabores no futuro dentro do partido. Por exemplo, ele defende que Chuck Schumer, o líder da até agora minoria democrata no Senado, deveria ser substituído. Ora, a vitória nestas eleições intercalares é muito mérito de Chuck Schumer e da qualidade dos candidatos que ele soube recrutar em estados que eram tradicionalmente republicanos, mas que ontem acabaram por dar esta vitória esmagadora ao Partido Democrata. Mas, por exemplo, a sua oposição de El-Sayed ao líder do Partido Democrata no Senado certamente lhe trará alguns dissabores ou pelo menos algumas disputas, pois os seus posicionamentos políticos, e ele não parece figura para abdicar daquilo que sempre defendeu até ao momento, portanto presumo que ele irá trazer também alguns dissabores à liderança democrata.
Vai ser seguramente interessante acompanhar esta relação, porque Efetivamente, e eu dizia isto no início deste episódio, nós estamos a falar de um candidato, de um senador que tem umas visões que nalguns casos, por exemplo, para os portugueses são coisas que fazem mais ou menos sentido, nomeadamente um serviço de saúde universal e gratuito para toda a gente, que é uma coisa que aqui na Europa é mais ou menos consensual, mas nos Estados Unidos é um foco de grandes discussões sobre o que isso significa verdadeiramente enquanto regime político. Ele defende esse tipo de posições, ele defende coisas como taxar os ricos, por exemplo. São posições mais extremas à esquerda. Esta vitória dele fica circunscrita, é uma história que nós contamos, uma coisa excecional que aconteceu no Michigan, ou significa que o Partido Democrata vai efetivamente ter cada vez mais palco para figuras como o Bernie Sanders, embora ele não seja verdadeiramente democrata, mas seja um tipo de discurso mais no extremo à esquerda na política americana. Isto vai passar a ser a norma ou aquilo que estas eleições nos contaram é que apesar de tudo, foram os moderados que conseguiram os melhores resultados?
Parece-me que vão acontecer as duas coisas, ou seja, eu acho que vamos ter cada vez mais candidatos desta ala mais à esquerda a ser eleitos. Ontem, por exemplo, para a Câmara dos Representantes foram eleitos também alguns candidatos desta ala mais à esquerda, alguns daquele grupo chamado Democratic Socialists of America. Mas analisando o conjunto geral das eleições, o que nós tivemos foi vitórias de candidatos centristas, no fundo, a dar este resultado esmagador ao Partido Democrata. Quando nós olhamos para o Senado e analisamos os candidatos que venceram em estados como no Texas, como no Kansas, como na Carolina do Norte, como na Geórgia, possivelmente até no Mississippi, que é uma disputa que ainda não está finalizada, que está em aberto, no Iowa, estamos a falar de candidatos que se situam mais ou menos na ala centrista do Partido Democrata. Certamente serão feitas muitas análises dentro do Partido Democrata e parece-me que a ilação a retirar desta eleição é que, de facto, candidatos mais à esquerda em contextos muito específicos como foi este, e como é o caso de El-Sayed, podem vencer em estados, no fundo, os swing states, como é o caso do Michigan, mas que para vencer a América, o lado mais seguro é ter candidatos centristas. Agora, a qualidade dos candidatos também faz obviamente a diferença. E os melhores candidatos e os que tiveram resultados mais folgados foram de longe candidatos centristas como Roy Cooper na Carolina do Norte ou Jon Ossoff na Geórgia, estados também tradicionalmente mais republicanos, apesar que ultimamente são mais swing states. E, portanto, parece-me que o centrismo, digamos assim, ou o centro-esquerda do Partido Democrata será o grande vencedor das eleições de ontem, apesar destes resultados extraordinários de El-Sayed. Agora, nós sabemos que há grandes divisões dentro do partido e parece-me que aquilo que será agora a disputa pelas eleições primárias de 2028 para nomeação presidencial, será uma disputa entre estas diferentes alas e certamente a ala mais à esquerda, se calhar representada por Alexandria Ocasio-Cortez ou outra figura que vai emergir, certamente terá uma palavra a dizer nas eleições primárias para 2028, porque é uma força claramente em crescimento dentro do partido, uma força não maioritária, uma força ainda minoritária e que terá muito caminho para fazer para chegar a maioritária dentro do partido, mas que não deixará de causar forte impacto na discussão dos próximos anos.
Nuno, muito obrigado.
Muito bem, foi um prazer estar aqui.
Eu conversei hoje com o especialista em política dos Estados Unidos, Nuno Gouveia, sobre uma das histórias mais curiosas que saiu das intercalares americanas. Na noite da vitória, Abdul El-Sayed, o primeiro senador muçulmano, não deixou de responder aos críticos na pessoa do vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, que o acusou de tudo, desde extremista a psicopata.
"There is this delicious irony in the fact that you're constitutionally obligated to swear me in in January".
Até com recurso a palavras árabes, disse: "J.D., meu querido, há uma ironia deliciosa no facto de estares constitucionalmente obrigado a dar-me posse em janeiro". Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.
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