Após eleições, Putin prepara-se para uma nova mobilização?

Por muito que o Kremlin não o assuma, a guerra de atrito está a exercer pressão sobre a Rússia para renovar as suas fileiras. Ao Financial Times, Janis Kluge, especialista do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança, explicou que as autoridades locais estão “sob enorme pressão” para cumprir as quotas de recrutamento. “Eles sabem quem tem dívidas, quem está sob investigação criminal ou quem perdeu a carta de condução. E vão atrás desses homens.”
Esta tem sido, aliás, uma das estratégias usadas. Como contou ao jornal Meduza um membro das Forças Armadas, a Rússia tem procurado pessoas em situação vulnerável — como indivíduos com dívidas ou com processos criminais pendentes. Para estes homens, a ida para a linha da frente é apresentada pelas autoridades como o menor de dois males. No entanto, a realidade é bem diferente: trata-se, na sua maioria, de cidadãos frágeis que o próprio militar descreveu abertamente como “descartáveis”.
Putin já tomou decisão? E porque razão é que a mobilização apenas acontece após as eleições?
Uma vitória eleitoral histórica. Foi assim que os meios de comunicação social russos retrataram o resultado do Rússia Unida nas eleições parlamentares. O partido próximo do Presidente conquistou 355 dos 450 lugares na Duma (o Parlamento russo), batendo o recorde de representação parlamentar. Num ato eleitoral em que o principal partido antiguerra — o Yabloko — foi impedido de participar, Vladimir Putin passa a poder apresentar, interna e externamente, o argumento de que a população russa apoia a guerra.
Putin renova maioria parlamentar na Rússia com recorde de deputados
O êxito eleitoral não é uma surpresa num país marcado por uma repressão cada vez mais acentuada nos atos eleitorais. Porém, nos últimos meses, ganhou força a narrativa de que a população russa estaria descontente com a longevidade do conflito e com o impacto dos ataques ucranianos dentro do país. Ora, este resultado eleitoral serve para transmitir a mensagem oposta: a de que os russos continuam ao lado de Vladimir Putin e, portanto, mantêm o apoio à ofensiva na Ucrânia.
Seguindo esta lógica, faria sentido que a Rússia lançasse agora uma nova vaga de mobilização. Com as eleições finalizadas, o regime dispõe do argumento de que a população apoia Vladimir Putin e a sua visão sobre a guerra. É por isso que vários analistas antecipam que este outono possa ser o momento escolhido pelo Kremlin para decretar um processo de recrutamento massivo.
Apesar de todas as teorias que circulam, o Kremlin tem-nas desmentido. Ainda esta sexta-feira, o porta-voz da presidência reiterou que não “há planos” para que aconteça uma mobilização em massa. Mas as palavras de Dmitry Peskov podem não bastar — e muitos russos já estão a fugir do país. Como escreve o ISW, os “dirigentes russos têm negado repetidamente que a Rússia possa levar a cabo uma mobilização forçada de reservistas, de forma a diminuir o descontentamento da sociedade e evitar uma nova vaga de emigração em massa, como a que ocorreu no outono de 2022”.
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