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Saturday, October 24, 2026

Quem vota em extremistas só quer viver como um burguês

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E o Último Homem? A pergunta atravessa as memórias de Francis Fukuyama, "In the Realm of the Last Man", recém-publicadas. O livro é, entre outras coisas, um ajuste de contas com quem entendeu tudo errado sobre a famosa tese do "fim da história" —o que, convenhamos, foi quase toda a gente, com a possível exceção do próprio autor.

Em "O Fim da História e o Último Homem", Fukuyama nunca defendeu que a história tinha acabado com o triunfo do liberalismo político. Alertou também para os perigos da complacência que a democracia liberal pode despertar em certos espíritos carentes de excitação. São esses espíritos que se revoltam contra o Último Homem que Nietzsche já havia antecipado: o burguês satisfeito, acomodado na sua mediania, de chinelos nos pés e opiniões moderadas.

Comecemos pelo princípio, que neste caso é o fim: a tese de Fukuyama nunca me convenceu. Sim, a rigor, o fim da história não deve ser confundido com nenhuma utopia liberal fechada. A ideia era outra, mais sutil: depois da derrota do fascismo e do comunismo, não havia no horizonte nenhuma alternativa ideológica séria às sociedades democráticas do Ocidente. Nem o fundamentalismo islâmico, nem o nacionalismo poderiam se apresentar como rivais.

No fim do século 20, de fato, não havia. E, para espíritos democráticos e liberais, talvez não haja alternativa mesmo, no sentido de mais liberdade e mais decência. Se há, eu também não conheço, razão pela qual nunca me passaria pela cabeça viver em Teerã, Moscou ou Pequim.

Mas, a médio prazo, Fukuyama confundiu o desejo com a realidade. O fundamentalismo islâmico está vivo e ativo no Oriente Médio, e o nacionalismo da Rússia e da China compete diretamente com as democracias liberais em influência, exemplo e poder.

A primeira falha de Fukuyama foi uma falha de imaginação: o mundo não é o reflexo das nossas crenças mais profundas, por mais que as nossas crenças mais profundas o desejem.

Existe uma segunda falha: entender os desafios por que passa a democracia como um sintoma de tédio, e não como a expressão de queixas reais.

Para Fukuyama, os espíritos revoltosos se erguem contra o Último Homem e o mundo confortável e previsível que ele habita porque desejam mais transcendência, mais risco, mais luta. Nem que para isso tenham de derrubar a democracia liberal e o horizonte achatado que ela produz.

Admito, sem dúvida, que a natureza anti-heroica da democracia liberal seja um estorvo para os pequenos super-homens. A democracia é uma forma de gerir descontentamentos, de forma pacífica e regular, sem prometer o paraíso terrestre. Não tem trombetas, nem deuses em chamas, nem redenção pelo amor. A democracia é Haydn, não Wagner.

Também admito que os críticos de Fukuyama não leram mesmo os capítulos finais do seu livro clássico, onde o Último Homem aparece como fantasma no banquete da vitória liberal.

Mas, se os críticos não leram Fukuyama, até que ponto Fukuyama leu a si mesmo?

Em obras anteriores, como "Identidade" ou "O Liberalismo e Seus descontentes", não é sobretudo o repúdio do Último Homem que põe em xeque a democracia liberal. São os próprios excessos do liberalismo que deram munição aos seus inimigos.

À direita, a desigualdade "grotesca", as crises financeiras e a natureza predatória da globalização, que destruiu empregos e vidas, mancharam o currículo dos neoliberais.

À esquerda, a tribalização étnica e rácica das "políticas de identidade" e o wokismo inquisidor fizeram o mesmo com os liberais progressistas.

Há, naturalmente, outras paixões em jogo. O ressentimento não se mede apenas pela conta bancária. Mas, quando o povo, em números expressivos, decide votar em candidatos extremistas, não é necessariamente por tédio psicológico com a enfadonha democracia liberal.

É, muitas vezes, por sentir que as promessas dos moderados não se materializaram na sua vida comum: em renda, saúde, educação, segurança e até respeito.

Diria mesmo que o voto desesperado nos extremistas é uma tentativa, por mais equivocada que seja, de compartilhar o conforto e a previsibilidade do Último Homem.

Quem quer derrubar os burgueses quando o sonho é viver como eles?

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