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Saturday, October 24, 2026

O negociador que libertou um refém por mil palestinianos

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A negociação com o Hamas para libertar o soldado Shalit em 2011. Uma espera a Witkoff na casa de banho. E o apelo a Trump: “Tem de dizer a Netanyahu: ‘Termina com isto!’” Entrevista a Gershon Baskin.

Gershon Baskin dedicou a sua vida a tentar estabelecer laços entre israelitas e palestinianos e levou a missão de tal forma a sério que destruiu os laços com uma parte da sua própria família. Um primo foi vítima de um atentado em 2005. Ele jurou na sua campa que iria fazer tudo o que pudesse para salvar vidas. Logo no ano seguinte, embrenhou-se em contactos com o Hamas para tentar a libertação do soldado israelita Gilad Shalit. A negociação durou cinco anos: para garantir o regresso do refém a Israel, foram libertados mais de mil presos palestinianos do Hamas, incluindo os quatro assassinos do primo. Assim que o acordo foi alcançado, a viúva do primo destratou a sua mulher ao telefone e nunca mais lhe falou.

Em entrevista ao Observador, sentado num baloiço no pátio da sua casa em Jerusalém, Gershon Baskin recorda os bastidores dessa longa negociação — que acabou em 2011 com Netanyahu a recusar-lhe a única coisa que tinha pedido: poder receber o soldado Shalit no regresso a casa. Descreve ainda a forma inusitada como aproveitou uma ida à casa de banho para conseguir aproximar-se de Steve Witkoff, futuro enviado especial dos EUA ao Médio Oriente. Diz que a única hipótese de resolver o conflito é uma intervenção de Trump.

Se Netanyahu vencer as eleições e continuar a governar, Baskin diz que vai deixar de viver em Israel. Sobre Gadi Eisenkot, que lidera as sondagens, diz que “é um homem íntegro”. Mas não vai votar nele. E apela a entendimentos com os partidos árabes, para tornar Israel governável.

▲ Fotografia de Gilad Shalit poucas semanas antes de ser capturado pelo Hamas

Handout

Gostava de o ouvir sobre a negociação para a libertação do soldado Gilad Shalit, para aprofundar o que esse episódio revela sobre a personalidade de Benjamin Netanyahu e sobre a forma como ele lida com uma situação de pressão como esta.
Gilad Shalit esteve em cativeiro durante cinco anos e quatro meses. Foi o período mais longo que um israelita esteve em cativeiro na história deste país. A tragédia de toda esta história é que, seis meses depois de ele ter sido raptado [em 2006], havia um acordo sobre a mesa, negociado pelos egípcios com o Hamas e apresentado ao então primeiro-ministro [Ehud] Olmert [primeiro-ministro de Israel entre 2006 e 2009]. O acordo previa a libertação de 1000 prisioneiros palestinianos em troca de Gilad Shalit, em duas fases: a primeira vaga de 450 a partir de uma lista do Hamas, e a segunda vaga de 550 a partir de uma lista de Israel. Esse foi o acordo que acabou por se realizar cinco anos mais tarde.

Esteve envolvido na negociação desse primeiro acordo?
Estive. Dois meses e meio depois de Gilad Shalit ter sido raptado, fui à Faixa de Gaza… e demorou três semanas até conseguir contacto, mas trouxe o primeiro sinal de que Gilad Shalit estava vivo, com a primeira morada dos captores que o detinham. Era uma carta manuscrita por Gilad Shalit. Antes disso, eu estava a tentar que o Hamas libertasse uma cassete de vídeo; o Hamas queria, em troca do vídeo, a libertação de todas as mulheres e menores da prisão — havia 350 mulheres e menores na altura — e Olmert não aceitou. O Hamas queria um cessar-fogo, Olmert não aceitou. Olmert meteu-se em sarilhos com a justiça e acabou por ter de se demitir. Netanyahu tornou-se primeiro-ministro [em março de 2009].

Entretanto entrou no processo um espião alemão. Conheceu-o?
Nessa altura, tinham pedido a Angela Merkel para nomear o seu homem das informações, Gerhard Conrad, para assumir o processo. Gerhard Conrad começou a fazer viagens de ida e volta entre Gaza e Tel Aviv, dezenas de vezes. Falei com ele ao telefone um par de vezes. Não o conheci pessoalmente, não.

Mas estava a fazer o mesmo tipo de trabalho…
Ele era oficial, eu não era oficial. Ele foi nomeado pela chanceler alemã. Tinha um avião e uma equipa a trabalhar para ele; eu tinha um telefone e mais nada. E ele era oficial, prestava contas a Merkel, prestava contas a Netanyahu. Ficou muito amigo do homem do Hamas encarregue do dossiê, Mahmoud al-Zahar, que era o ministro dos Negócios Estrangeiros.

Este pessoal da Mossad gosta de se encontrar em cafés públicos. Estávamos sentados a falar de negociações ultra-secretas num café numa rua em Jerusalém. Foi realmente bizarro. Foi muito engraçado, porque as únicas pessoas sentadas à nossa volta eram filipinos, por isso nem entendiam hebraico

Quem era o seu principal interlocutor junto do Hamas?
Foi Ghazi Hamad, que nessa altura era o adjunto de al-Zahar, por isso sabia o que se estava a passar. Mais tarde, Ghazi Hamad tornou-se o coordenador entre a ala militar e a ala política do Hamas. Em 2009, o Hamas disse a Conrad para se ir embora e nunca mais voltar. Ninguém sabia porquê. Mais tarde descobri que a razão era que a proposta de Conrad ao Hamas era um documento de 100 páginas. O Hamas olhou para aquilo e disse: “Este gajo está a trabalhar para os israelitas”. O acordo que acabou por ser assinado tinha três ou quatro páginas. Portanto, o Hamas suspeitou que Conrad era um agente dos israelitas, e ele desapareceu, foi-se embora. Durante esse tempo em que ele esteve fora, ao longo dos meses seguintes, as respostas israelitas continuavam a ser: “Estamos à espera de uma resposta do Hamas”. Mas pessoas do Hamas disseram-me que não haveria qualquer resposta.

Como é que deu a volta a isso?
Em abril de 2011, durante o feriado do Pessach [Páscoa judaica], Netanyahu nomeou um homem chamado David Meidan, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Ele era da Mossad. Eu conhecia outra pessoa que tinha trabalhado na Mossad no passado, chamada Pini Meidan — o mesmo apelido. Perguntei-lhe se conhecia o David Meidan. Disse que sim. Perguntei se era parente, disse que não. Perguntou o que eu precisava, e eu disse que precisava de falar com ele. “Sobre quê?” Eu disse: “Coisas sobre o Gilad Shalit”. Ele passou a mensagem ao David Meidan e, mais tarde nesse dia, o David Meidan ligou-me. Três semanas depois, ele pediu-me para enviar uma mensagem ao Hamas. Uma hora depois, obtive resposta, liguei ao Meidan e disse-lhe a resposta. Penso que o que aconteceu foi que o David Meidan se sentou com a equipa dele e ficaram em choque, porque a experiência deles durante meses era enviarem mensagens e demorar semanas, às vezes meses, para obterem resposta, e ali tinham uma resposta numa hora. Pediu-me para enviar outra mensagem — e acho que desta vez estavam mesmo a escutar-me —, entreguei a mensagem conforme solicitado e trouxe a resposta de volta. Meidan disse-me que ia obter luz verde para me usar como emissário.

Como foi o seu primeiro encontro com David Meidan?
Conheci o David Meidan — é uma coisa estranha, este pessoal da Mossad gosta de se encontrar em cafés públicos. Estávamos sentados a falar de negociações ultrassecretas num café numa rua em Jerusalém, ao virar da esquina de onde mora a sogra dele, na rua Palmach. Foi realmente bizarro. Foi muito engraçado, porque as únicas pessoas sentadas à nossa volta eram filipinos, por isso nem entendiam hebraico. De qualquer forma, foi assim que começou. Comecei a entregar mensagens. O Ghazi Hamad e eu passámos por sete versões de um documento proposto, com altos e baixos durante o processo. A versão número seis foi um ponto de rutura, porque foi a primeira vez que colocaram nomes na lista, e o David Meidan disse-me para lhes dizer que se recusava a aceitar o documento; que se essa era a proposta deles, as negociações estavam canceladas. Após essa quase rutura, passei duas horas ao telefone uma noite com o Ghazi Hamad, onde lhe disse: “Estamos nisto há meses, a mudar uma palavra aqui e ali, precisamos de uma abordagem diferente”. Disse-lhe: “Tu sabes quais são as linhas vermelhas do Hamas, eu sei quais são as de Israel. Vamos escrever um documento juntos e colocar uma linha no meio: isto é o acordo que tem de ser feito; metade do que vocês querem, metade do que os israelitas querem, metade do que não podem aceitar de cada lado”. E foi o que fizemos.

Qual era a maior preocupação?
A preocupação do lado israelita era minimizar os riscos de segurança.

"Se me pagassem não aceitaria. Na primeira vez que me sentei com David Meidan no café, ele perguntou-me o que eu queria: "Quer dinheiro? O que quer?" Eu disse: "Tenho um pedido: quando o Gilad Shalit cruzar a fronteira de volta a Israel, quero estar lá. É a única coisa que quero". Na manhã em que Shalit voltou, Meidan ligou-me às 7h00 e disse: "Gershon, tentei, mas Netanyahu disse que não". Portanto, não estive lá.

Mas aceitaram a libertação de Yahya Sinwar, futuro líder do Hamas em Gaza a partir de 2017 e arquiteto dos ataques de 7 de outubro.
O Sinwar não era uma questão. Eu nunca tinha ouvido falar do Sinwar, nem sabia quem ele era. Mais tarde soube que o Sinwar não era um problema porque nunca tinha morto israelitas, tinha morto palestinianos; logo, a segurança israelita não estava preocupada com ele, não era considerado a pessoa mais perigosa. Embora mais tarde tenha sabido que a lista de prisioneiros passava por ele, ele aprovava todos os prisioneiros. Não sei se os israelitas sabiam disso na altura. Conrad tinha preparado listas de nomes de prisioneiros em diferentes categorias, o que facilitou o nosso trabalho. Uma das categorias — a categoria má — era o que Conrad chamava de VIPs, as pessoas muito importantes, e havia 50 nomes na lista. Se a posição israelita era zero e a do Hamas era 50, o nosso documento dizia que haveria 25 dessa lista. A outra grande questão eram os prisioneiros da Cisjordânia. Israel queria que todos os prisioneiros da Cisjordânia fossem enviados para Gaza. Foi um grande erro, mas na altura acharam que era o correto. Havia uma lista de cerca de 10 nomes que Israel recusou completamente libertar, como Marwan Barghouti [líder da Fatah], Hassan Salameh, Abdullah Barghouti — os homens que tinham morto o maior número de israelitas. O Hamas queria todas as mulheres prisioneiras, o que não foi problema para Israel, e todos os prisioneiros com menos de 18 anos, o que também não foi problema.

O documento que recebi de volta do Hamas, após a chamada de duas horas com Ghazi Hamad — no dia 14 de julho, aniversário da minha filha —, dizia não só 25 VIPs, mas acrescentava que Israel escolheria esses 25 da lista de 50 e que todos seriam deportados para sempre. Isso foi uma grande surpresa. Quando recebi esse documento por fax em árabe, enviei-o imediatamente a David Meidan, que disse: “Este é o avanço que esperávamos”. Porque o que Meidan queria que eu fizesse era garantir o fecho definitivo do dossier, para que o Hamas não pedisse mais no futuro. Nesse dia, Meidan levou o documento a Netanyahu para obter luz verde.

▲ Gershon Baskin com Gilad Shalit dias depois de ter sido libertado em troca de mais de mil prisioneiros

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Recebi uma carta de Netanyahu, muito curta, de três frases, a agradecer o que fiz”

Não estava com Netanyahu nessa altura?
Não. Netanyahu não sabia que era eu. Meidan disse que estava a gerir um canal secreto e não disse a Netanyahu que era um cidadão israelita, nem que era eu.

Acha possível que Netanyahu não soubesse?
Assumo que sabiam. O Shin Bet [agência de segurança interna de Israel] tinha de saber.

Investiu horas da sua vida nisto. Pagaram-lhe?
Não, se me pagassem não aceitaria. Na primeira vez que me sentei com David Meidan no café, ele perguntou-me o que eu queria. Eu não entendi a pergunta. Ele perguntou: “Quer dinheiro? O que quer?” Eu disse: “Tenho um pedido: quando o Gilad Shalit cruzar a fronteira de volta a Israel, quero estar lá. É a única coisa que quero”. Na manhã em que Shalit voltou, Meidan ligou-me às 7h00 e disse: “Gershon, tentei, mas Netanyahu disse que não”. Portanto, não estive lá. Na verdade, quando o cruzamento aconteceu, eu estava nos estúdios da Al Jazeera a dar uma entrevista e vi na televisão.

▲ Carta de Benjamin Netanyahu enviada a Gershon Baskin

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Isso deve ter-lhe custado muito.
Não, Netanyahu é um tipo difícil, eu já sabia disso. Mais tarde, Meidan disse que ia arranjar maneira de eu ser convidado pelo Netanyahu para ele me agradecer, mas isso também não aconteceu. Alguém no gabinete do primeiro-ministro bloqueou. Recebi uma carta de Netanyahu, muito curta, de três frases, a agradecer o que fiz. Depois de ter escrito o livro, fui ao Knesset [parlamento de Israel] com um exemplar para dar a Netanyahu. Estava na galeria especial a 20 metros dele e mandei uma mensagem ao chefe do gabinete dele. Disseram-me para ir para baixo ao encontro dele. Quando me aproximei, o porta-voz sussurrou ao ouvido do chefe de gabinete, Gil Sheffer, que por sua vez sussurrou ao ouvido de Netanyahu. Netanyahu olhou para mim, deu meia-volta e entrou no seu gabinete.

Por que acha que ele se recusou a recebê-lo?
Estamos em lados opostos do campo político em Israel. Ele não é o que chamamos em iídiche um mensch, não tem uma boa alma.

Nunca o conheceu pessoalmente?
Nunca lhe apertei a mão. Conheci vários primeiros-ministros anteriores, de Rabin a Olmert e Sharon.

Mas sabe como ele lidou com este caso. A questão é: por que fez ele o acordo ao fim de tantos meses? Houve pressão pública…
Acho que a pressão influenciou. Quando nomeou David Meidan durante o Pessach, a família Shalit estava a fazer a cerimónia do Seder [jantar ritual de Páscoa] na rua, em frente à residência oficial do primeiro-ministro. A história que Meidan me contou foi que Sara Netanyahu [esposa de Benjamin Netanyahu] olhou pela janela para a família Shalit, virou-se para Bibi [Netanyahu] e disse: “Está na altura de o trazer para casa”. Quando Meidan se reuniu com Netanyahu para aceitar o cargo, disse-lhe: “Aceito com uma condição: que tenha mandato para ter sucesso”. Netanyahu disse-lhe estas palavras: “Traz o rapaz para casa”. 26 membros do governo votaram a favor do acordo e três votaram contra. Quase 80% do público israelita apoiou o acordo.

"Gadi Eisenkot é um homem profundamente íntegro, uma pessoa com princípios morais elevados, que colocou a vida das pessoas e o país em primeiro lugar. Ele compreendia melhor do que ninguém as limitações militares e dizia abertamente que a "vitória total" de Netanyahu era uma ilusão vazia, pressionando para que os reféns fossem a prioridade número um. Netanyahu, por outro lado, não tem essa integridade. Para ele, a única prioridade é a sobrevivência política, a sua manutenção no poder e evitar os seus processos judiciais."

Embora tenha sido difícil aceitar as condições…
Foi difícil. Não foi um bom acordo, mas era o único acordo possível. A minha posição é que não havia escolha: Israel tem um exército popular e há a promessa a cada pai de que se fará tudo para trazer os seus filhos de volta. É um princípio fundador do exército israelita. Quatro dos prisioneiros libertados tinham morto o primo da minha mulher [em 2005, raptado e morto pelo Hamas]. Na manhã em que Shalit foi libertado, a viúva do primo da minha mulher gritou comigo ao telefone. Ela e o filho foram ao Supremo Tribunal protestar contra o acordo e nunca mais me falaram.

“Salvámos uma vida humana. O 7 de outubro não aconteceu por causa do acordo Shalit”

O que o fez investir tanto nisto se nem conhecia Shalit?
Trabalho com palestinianos há 48 anos. No funeral do primo da minha mulher, jurei a mim mesmo que se pudesse salvar uma vida humana, faria tudo ao meu alcance. Eu tinha contactos com o Hamas que nenhum outro israelita tinha. Estive em Gaza duas vezes e no Cairo duas vezes a negociar, além de centenas de chamadas e faxes.

Sabe-se se os prisioneiros libertados estiveram envolvidos nos ataques de 7 de outubro?
Assumo que sim; a maioria foi integrada na máquina do Hamas. Mas a minha posição é: salvámos uma vida humana. O 7 de outubro não aconteceu por causa do acordo Shalit; aconteceu porque os israelitas e os palestinianos não resolveram este conflito estúpido. Há sete milhões de judeus israelitas e sete milhões de árabes palestinianos entre o Rio e o Mar que não vão a lado nenhum. Ou partilham a terra ou a dividem. Se o primeiro-ministro recusa negociar e acha que pode apenas gerir o conflito, obtém-se o 7 de outubro. É uma ilusão pensar que é possível ter paz sem resolver a questão nacional palestiniana. A verdade fundamental de toda esta equação é simples e indiscutível: Israel não vai ter segurança enquanto a Palestina não tiver liberdade. A Palestina não vai ter liberdade enquanto Israel não tiver segurança.

▲ Momento em que Gilad Shalit se encontra com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, depois de ser libertado, numa base militar israelita

Handout

Como viveu o dia dos ataques do 7 de outubro de 2023?
Eu e a minha mulher estávamos em Copenhaga. Acordei, olhei para o telefone e vi que algo de terrível estava a acontecer. Voltei para Israel a 10 de outubro e, a 11 de outubro, já estava ao telefone com o Hamas a tentar um acordo para trazer de volta pelo menos as mulheres e as crianças.

Sem mandato do governo, novamente?
Nunca tive mandato, exceto no período com Meidan. Falei com oito líderes do Hamas fora de Gaza.

Qual foi o papel concreto de Gadi Eisenkot no Gabinete de Guerra e a sua diferença em relação a Netanyahu?
Quando Gantz e Eisenkot [membros do Gabinete de Guerra de Israel] entraram no governo, disseram que apoiariam um acordo de troca de mulheres e crianças. Gadi Eisenkot, que é um antigo chefe do Estado-Maior do Exército e que perdeu o seu próprio filho [e sobrinho] nesta guerra em Gaza, foi a voz mais sóbria e pragmática dentro daquele gabinete. Gadi Eisenkot é um homem profundamente íntegro, uma pessoa com princípios morais elevados, que colocou a vida das pessoas e o país em primeiro lugar. Ele compreendia melhor do que ninguém as limitações militares e dizia abertamente que a “vitória total” de Netanyahu era uma ilusão vazia, pressionando para que os reféns fossem a prioridade número um. Netanyahu, por outro lado, não tem essa integridade. Para ele, a única prioridade é a sobrevivência política, a sua manutenção no poder e evitar os seus processos judiciais. Essa é a grande diferença entre os dois: um age por dever e integridade moral, o outro age por puro cálculo e interesse pessoal. A saída de Eisenkot e Gantz deixou o governo sem essa voz de responsabilidade.

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▲ Nesta imagem extraída de um vídeo, disponibilizada pelo Hamas a 2 de outubro de 2009, Gilad Shalit aparece a segurar um jornal palestino datado de 14 de setembro de 2009

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E quem é que acha que deveria liderar o país no futuro?
Espero honestamente que Gadi Eisenkot venha a ganhar as próximas eleições e a liderar o país. Ele tem o caráter, a integridade, o respeito do exército e da sociedade, e a visão necessária para tirar Israel deste abismo e construir uma liderança responsável.

E em quem é que planeia votar nessas eleições?
Eu vou votar no Meretz [partido da esquerda progressista e sionista de paz em Israel] ou na nova aliança de esquerda/democrática que se formar desse lado do espectro político. É aí que estão os meus valores de paz, direitos humanos, igualdade e fim da ocupação.

E qual é o papel dos partidos árabes israelitas na construção dessa alternativa política?
Os cidadãos árabes de Israel representam 20% da população do país. Durante décadas foram empurrados para a margem e tratados como cidadãos de segunda classe ou como uma “quinta coluna” potencial pela direita israelita. Mas a única forma de mudar o mapa político em Israel é integrando plenamente os partidos árabes na equação política e em futuras coligações de governo. Yair Lapid e Naftali Bennett deram o primeiro passo histórico ao incluírem a lista de Mansour Abbas [Ra’am] na coligação governamental anterior. Sem uma parceria real entre judeus e árabes dentro de Israel, é numericamente e politicamente impossível derrotar o bloco da extrema-direita de Netanyahu. A liderança judaica de centro-esquerda precisa de parar de ter medo de fazer alianças com os partidos árabes.

“Trump tem de dizer claramente a Netanyahu: ‘Termina com isto'”

Acha que é possível alcançar um acordo e manter uma trégua?
Desta vez, existe um mecanismo. Chama-se Donald Trump. Toda a gente que quer que este acordo funcione está a depositar esperanças na autoridade de Washington.

O que é preciso para que o envolvimento dos Estados Unidos funcione?
Até agora, quem tem bloqueado a possibilidade de um acordo tem sido maioritariamente Netanyahu e o seu governo. O Presidente Trump precisa de dizer claramente a Netanyahu: “Eu disse durante meses que quero que esta guerra acabe. Termina com isto. Fá-lo.” Se a administração americana exercer essa pressão direta, as coisas mudam.

Chegou a ter contactos com elementos da equipa de Trump?
Cheguei a encontrar-me com Steve Witkoff [enviado especial de Donald Trump] em dezembro, um mês antes de ele começar a trabalhar. Conheci-o em Abu Dhabi. Voei para Abu Dhabi porque ouvi dizer que ele ia estar lá, mas nem sabia quem ele era. Ele estava numa conferência de Bitcoin. E não conseguíamos encontrá-lo na conferência porque ele estava a discursar numa zona reservada a pessoas que pagaram 10 mil dólares para lá estar.

Vocês não pagaram 10 mil dólares…
Claro que não! Paguei 300 dólares para ir à conferência de Bitcoin, mais a passagem aérea e o hotel. Mas, antes do discurso do Witkoff, ele foi à casa de banho. E nós seguimo-lo até à casa de banho e apanhámo-lo logo quando ele estava a sair da casa de banho. [Risos] Sim, foi um clássico! É um clássico! Mas funcionou! De alguma forma…

▲ Gershon Baskin foi quem liderou as negociações entre o Hamas e Israel

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Como é que ele reagiu a esse plano de emboscada?
Sabe, quando estávamos a trabalhar muito intensamente em agosto e a falar ao telefone todos os dias… Estávamos a trabalhar num acordo com o Hamas, num documento. E ele disse-me algo do género: “Isto é realmente incrível, estamos a trabalhar tão proximamente e nunca nos conhecemos pessoalmente”. E eu disse: “Steve, nós na verdade conhecemo-nos”. E lembrei-o da conferência de Bitcoin. Ele disse: “Sabe de uma coisa? Bem me parecia que era você!” [Risos] E depois diz-me: “Você tem Bitcoins?” Eu disse-lhe: “Não, não tenho nenhum Bitcoin”. Ele disse: “Então o que faz ao seu dinheiro?” Eu disse: “A minha reforma está investida em Wall Street”. Ele disse: “Mantenha-o lá”. Por isso também me deu conselhos de investimento!

O que acha que vai acontecer depois das eleições em Israel?
Se este governo for reeleito após tudo o que passámos, acho que um milhão de israelitas vai deixar o país, e eu e a minha família estaremos entre eles. Se o povo reeleger este governo, significa que não há esperança para este país. 250.000 israelitas já saíram nos últimos três anos — a elite, médicos, advogados, trabalhadores de tecnologia.

Para onde iria?
Não sei, talvez Portugal. Muitos israelitas vão para Portugal. Um dos meus livros até foi traduzido para português no Brasil. Mas ter de sair seria o acontecimento mais desastroso da minha vida.

Acredita que Netanyahu foi alertado sobre o 7 de outubro?
Seguramente. Ignorou os avisos por arrogância, achando que o Hamas não era uma ameaça e focando as tropas na Cisjordânia para proteger os colonos. Um líder do Hamas disse-me que esperavam que 1000 dos seus soldados fossem mortos ao cruzar a fronteira, mas não havia exército israelita lá. Netanyahu quer provocações para manter o poder. Ele precisa do conflito e das provocações para garantir a sua sobrevivência política. A estratégia dele sempre foi manter o Hamas fortalecido em Gaza e a Autoridade Palestiniana enfraquecida na Cisjordânia, para poder dizer ao mundo que não tem parceiro para a paz e, assim, evitar a criação de um Estado palestiniano.

Tem estado com Gilad Shalit?
Sim, tenho estado com ele. A seguir ao 7 de outubro, falava-se do Gilad Shalit a toda a hora… As pessoas diziam que o 7 de outubro aconteceu por causa do acordo Shalit, porque o Sinwar foi libertado no acordo Shalit. Eu disse-lhe: “Tu não tiveste nada a ver com o acordo do Shalit, foste uma vítima este tempo todo. Lembra-te disso.” Ele teve acompanhamento psicológico durante muito tempo e foi aconselhado a não falar com a imprensa, a não fazer vida pública e a tentar apenas viver a sua vida.

▲ A imagem à esquerda mostra prisioneiros palestinianos a serem levados para Gaza para serem libertados e à direita os familiares e amigos de Shalit a verem a sua libertação em direto na televisão

MAHMUD HAMS

[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

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