Extrema-esquerda

“tou em lisboa em fevereiro, quem quer ir pegar fogos a instituições comigo?” Este post tem um autor. Todavia, tendo em conta o contexto vivido atualmente na Europa, vários seriam os candidatos a ter em conta. Das tendas no Porto aos incêndios nas ruas parisienses, qual o ativista que não gostaria de ter no seu currículo a suspensão da conta no X à sua custa? Contudo, este utilizador jamais pretendeu permanecer anónimo, tendo tomado posições em várias aparições públicas. A última, a mais radical, a mais cobarde, ocorreu através de um expressivo cocktail Molotov, o qual por intervenção divina ou devido a simples fortuna, não desencadeou o efeito esperado sobre uma marcha pró-vida. Falo, obviamente, de Nelson Vassalo, inimigo inveterado de toda a reação contrarrevolucionária, de todos os inimigos do povo. Recorrendo ao pronunciamento do Ministério Público, Vassalo foi motivado unicamente pela convicção político-ideológica de extrema-esquerda, visando a luta política armada violenta, através do uso do fogo, deliberada e exclusivamente contra aqueles manifestantes que odiava e que considerava que defendiam ideias opostas às suas, enquadrando-os no espectro político do que considera ser direita conservadora, capitalismo, extrema-direita ou fascismo. Filiado no PS, ao qual, numa missiva dirigida às cúpulas do partido, aconselhava severamente que enveredasse por uma oposição mais clara em relação à propriedade privada.
Este ódio contundente às alternativas políticas e éticas da esquerda e, no caso, da extrema-esquerda, demonizando todo o outro lado do espectro político e moral, corresponde a um pensamento radical que se quer implantar em Portugal e na Europa. Fazendo crer na coincidência de objetivos de conservadores, liberais e aqueles que denominam de fascistas, desejam identificar num único inimigo todos os adjetivos que abominam. Esta visão, filha direta da Revolução Francesa jacobina, encara o adversário político como inimigo mortal, com o qual não pode haver qualquer entendimento, numa perspetiva onde o anuir é sinónimo de trair. A partir daqui, está aberta a porta para a luta armada e para o terrorismo – as urnas perdem significado, pois além de defenderem um sistema burguês, não comportam a verdadeira sensibilidade do povo. Este, uma vez desimpedido de representantes corruptos e usurpadores, pode oferecer a verdadeira face e fazer ouvir a sua verdadeira voz através de assembleias populares. Os sovietes apresentam uma horizontalidade teórica, um princípio de autogestão que, através de um processo eleitoral primitivo de mão no ar, são decididas todas as questões políticas. Este vínculo direto, sem intermediários, permitiria a deliberação popular – se esquecêssemos, por um lado, o poder da retórica sofística, e por outro, o papel dos organizadores que, não raras vezes, tomam sob reserva proto-decisões que condicionam o desenrolar do processo. Em última instância, qualquer assunto pode ser decidido nestes trâmites, quer os votantes possuam ou não perícia para a ação. Conforme afirmou recentemente Carlos Fiolhais, na apresentação de um livro de Simon Parkin sobre uma experiência de liberdade, de sobrevivência, de ciência e de guerra, Estaline seria o grande mestre botânico.
Assim, o conhecimento científico e a sabedoria proporcionada pela História e pelas tradições seriam tratados como obscurantismo, como reacionarismo, pois tomadas pela burguesia, isto é, e vertendo para a linguagem coeva, pelo capitalismo e pelo fascismo. No cerne da questão estaria, obviamente, a propriedade privada, origem de todo o mal. A propriedade privada é instrumento da classe dominante, imposta de forma artificial pelos poderosos da terra, unicamente visando a subjugação, outrora da plebe, hoje, do operariado.
O facto de a extrema-esquerda ter perdido a sua vocação histórica só a torna mais perigosa, disposta a atos mais desesperados e mais violentos do que nunca. Quebrada pelos temas fraturantes pelos quais se digladiou nas últimas décadas, perdeu o seu eleitorado tradicional para a outra bancada, tornando-a órfã de verdadeiras causas aglutinadoras. Encarando-se a Revolução como mero work in progress, os atos ganham valor em si mesmos, já sem nenhum objetivo final (vulgo utopia), senão a destruição e a pilhagem.
Estas manifestações e motins que se têm sucedido e alargado pelo espaço europeu são um sintoma da nova face do radicalismo. O pretexto substituiu a causa. Surfando o descontentamento, geral e compreensível, gerado por um cenário mundial adverso, contudo conjuntural, espalham a raiva e acicatam o ódio. Os pobres transeuntes, na outra radicalidade, a da inocência, confundem os dois polos, deixando-se ativar pelos destruidores. São bem conhecidos os atores e as instituições que comandam as hordas: La France Insoumise, radicais islâmicos, anarquistas, Bloco de Esquerda e PCP são apenas alguns dos agentes e das agências envolvidas na refrega. O primeiro passo decisivo deve, contudo, ser dado pela classe política democrática, eleita constitucionalmente – nunca ceder, jamais ceder à rua e aos arruaceiros, nunca permitindo que se misturem os dois campos opostos: a legalidade e a ilegalidade. A democracia e a ditadura.
O atentado de Vassalo serve de lição para todos, principalmente para aqueles que insistem em que a violência vem unicamente da extrema-direita. O desconhecimento da História, tal como o da Lei, não isenta o ignorante. A transferência do valor de uma manifestação pela vida, eminentemente apolítica e moral, para uma motivação ideológica, demonstra o totalitarismo desta visão marxista. Nesta perspetiva castradora tudo é absorvido pela política – até os afetos.
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