Calor excessivo torna mares mais salgados, e oceano global, mais ácido
Ondas de calor e o derretimento do gelo estão provocando "mudanças profundas" no oceano global em consequência da mudança climática. A conclusão é de mais de 120 cientistas em um relatório publicado na quarta-feira (30). Entre os efeitos estão o aumento da salinidade dos mares já salgados e a acidificação do oceano.
O oceano absorveu cerca de 90% do excesso de calor retido no planeta em decorrência das emissões de gases de efeito estufa causadas pela atividade humana. Somente em 2025, estima-se que tenha acumulado 23 zetajoules de calor —cerca de 40 vezes a energia consumida pelo mundo inteiro no ano passado.
Entre as consequências drásticas desse fenômeno está a aceleração da elevação do nível do mar observada desde 2012, informou o Mercator Ocean International, serviço marinho da União Europeia, no relatório que reúne o trabalho de cientistas de diversos países.
"O aquecimento, a elevação do nível do mar e a degradação dos ecossistemas são sinais interligados de mudanças significativas e duradouras", afirmou Pierre Bahurel, diretor-geral da entidade. "O oceano está mudando rapidamente."
A pesquisa destacou ondas de calor recordes que, em alguns casos, duraram mais de 30 dias. Nos mares Mediterrâneo e Negro as temperaturas chegaram a ficar mais de 4,6°C acima da média em 2024.
"[O estudo mostrou] a dimensão e a urgência dos desafios enfrentados pelo nosso oceano, à medida que as mudanças climáticas transformam os ecossistemas marinhos e a circulação oceânica", afirmou Andrius Kubilius, comissário da União Europeia para Defesa e Espaço.
A pesquisa do Mercator estimou que o nível médio do mar subiu cerca de 3,8 mm por ano entre 1999 e 2025, mas esse número chegou a 4,2 mm no período de 2012 a 2025.
Segundo o estudo, os efeitos das marés de tempestade e dos episódios de ondas extremas devem se intensificar devido à aceleração da elevação do nível do mar.
Nos pequenos Estados insulares, que estão entre os mais expostos às mudanças climáticas, cerca de dois terços de suas zonas econômicas foram afetadas pela elevação do nível do mar desde 1999, constataram os cientistas.
O oceano também ficou cerca de 17% mais ácido entre 1985 e 2025, devido à absorção do dióxido de carbono.
As áreas salgadas vêm ficando ainda mais salgadas nos últimos anos, afirmou Ana Claudia Parracho, uma das autoras. As conclusões abrangem o período desde 2011 e resultam da comparação entre dados de satélite antes indisponíveis e tendências de longo prazo.
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As temperaturas da água do mar e da superfície do gelo marinho aumentaram cerca de 4,2°C no Ártico nas últimas quatro décadas, enquanto a extensão do gelo marinho diminuiu, em média, aproximadamente 4% por década. Em comparação, estima-se que a temperatura do ar na região tenha subido cerca de 2,8°C no mesmo período.
Em todas as áreas do Ártico onde há gelo marinho sazonal, houve redução desde o início da década de 1980. As perdas mais acentuadas ocorreram na baía de Hudson, no Canadá, onde a queda foi de 16% por década; no mar de Barents, ao norte da Noruega, com perda equivalente a 12%; e na plataforma continental da Groenlândia Oriental, com 8%.
Na Antártida, a redução da extensão do gelo marinho já estava afetando as populações de pinguins e remodelando a biodiversidade da região, disseram os cientistas.
O relatório foi divulgado durante um episódio de El Niño que já está batendo recordes, segundo alguns indicadores, e deve atingir o pico até o fim do ano. Esse ciclo natural de aquecimento eleva ainda mais as temperaturas do mar, somando-se ao aquecimento já provocado pelas mudanças climáticas.
Karina von Schuckmann, diretora do Relatório Copernicus sobre o Estado do Oceano, afirmou que temperaturas marítimas recordes foram registradas em 2023 e 2024, durante o ciclo anterior do El Niño, e que a expectativa é que 2026 supere esses recordes.
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