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Friday, September 11, 2026

Seinfeld: cultura do cancelamento ou cancelamento da cultura

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A polémica em torno da participação de Jerry Seinfeld em Portugal ultrapassou há muito a discussão sobre o humorista norte-americano. O que está verdadeiramente em causa não é apenas um artista, nem sequer as suas posições públicas sobre o conflito israelo-palestiniano. O que está em causa é algo mais profundo: a capacidade de uma sociedade democrática separar a obra do autor, tolerar a divergência e preservar a liberdade no espaço cultural.

Qualquer cidadão tem o direito de discordar das opiniões de Seinfeld. Tem o direito de o criticar, de se manifestar contra a sua presença ou até de decidir não assistir ou participar no espetáculo, como é o caso de alguns artistas. É assim que funciona uma democracia. O problema começa quando a crítica deixa de procurar o debate e passa a procurar o silenciamento.

A história da cultura está repleta de artistas, escritores, músicos e humoristas com posições políticas controversas, discutíveis ou até moralmente questionáveis. Ainda assim, o valor da democracia nunca residiu na exigência de concordância. Reside precisamente na capacidade de conviver com a diferença, e a cultura sempre foi o espaço onde isso deve continuar a ser possível.

O que torna este episódio particularmente paradoxal é o facto de parte da contestação partir do próprio meio artístico e humorístico. Durante décadas, os humoristas posicionaram-se como defensores da liberdade de expressão, da irreverência e da capacidade de dizer o que muitos não queriam ouvir. Foram frequentemente alvo de campanhas de censura por ofenderem sensibilidades políticas, religiosas ou sociais. Nos EUA, o cancelamento de humoristas não alinhados com Trump é uma realidade. Por cá, o humor chegou a estar nas barras dos tribunais.

Alguns dos que ontem defendiam o direito a incomodar parecem hoje defender que um colega não deve ter espaço para exercer a sua arte devido às suas opiniões políticas. É uma inversão curiosa e inquietante.

Porque se aceitarmos que a legitimidade de um artista depende do alinhamento das suas convicções com as nossas, a consequência lógica é simples: qualquer criador poderá ser excluído amanhã por pensar de forma diferente. O critério deixa de ser a qualidade da obra e passa a ser a conformidade ideológica e política. A cultura transforma-se, assim, num espaço cada vez menos plural. Ela morre, e com ela morre a democracia.

Uma democracia saudável não é aquela onde todos pensam o mesmo. É aquela que consegue acomodar opiniões profundamente divergentes sem recorrer à exclusão sistemática de quem as expressa.

O cancelamento tornou-se uma ferramenta tentadora porque oferece uma ilusão de vitória rápida, mas raramente resolve os conflitos que lhe dão origem. Pelo contrário, aprofunda a polarização, reduz os espaços de diálogo e alimenta a ideia de que só existe lugar para uma visão legítima da realidade. Foi isto que os humoristas e artistas que cancelaram fizeram.

Seinfeld não precisa de ser transformado em herói, nem as suas posições precisam de ser adotadas ou defendidas. Mas parece-me que a defesa do seu direito a subir a um palco é mais importante que ele próprio e as suas convicções.

No final, a questão não é saber se gostamos de Jerry Seinfeld. É saber que tipo de sociedade queremos construir. Uma sociedade onde os artistas só têm espaço quando pensam como nós ou uma sociedade suficientemente confiante nos seus valores democráticos para aceitar que a liberdade inclui, inevitavelmente, a liberdade de discordar.

Hoje o alvo é Jerry Seinfeld, mas amanhã poderá ser qualquer outro artista, escritor, músico ou humorista. O precedente é sempre mais importante do que o protagonista, é sobre isto que os humoristas deveriam preocupar-se.

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