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Sunday, September 13, 2026

Brasil bate recorde no turismo, mas segue fora do Top 10; o que falta?

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ARTIGO: Apesar do recorde de visitantes estrangeiros, o país ainda está fora das dez maiores economias turísticas do mundo e precisa transformar planos de governo em uma estratégia de longo prazo

Prefeitura do Rio analisa possibilidade de regulação do comércio na orla durante o verão (Getty Images/Getty Images)
Prefeitura do Rio analisa possibilidade de regulação do comércio na orla durante o verão (Getty Images/Getty Images)

Publicado em 13 de setembro de 2026 às 07:00.

O World Travel & Tourism Council (WTTC), principal entidade privada global do setor, divulgou no último dia 3 de setembro um novo ranking das maiores economias de turismo do mundo. Estados Unidos e China aparecem nas duas primeiras posições. Depois vêm Alemanha, México, França, Espanha, Itália, Reino Unido, Japão e Índia. Mais uma vez, o Brasil está fora do Top 10.

O dado que mais chama a atenção talvez seja outro. A quarta posição é do México, hoje a maior economia turística da América Latina no ranking, à frente de França, Espanha, Itália, Reino Unido e Japão.

O Brasil até avançou. O país recebeu mais de 9 milhões de turistas estrangeiros em 2025, um recorde. Mas é preciso olhar esses números com algum cuidado. Somente nos primeiros 11 meses do ano, mais de 3 milhões de argentinos vieram ao Brasil, crescimento de 82% em relação ao mesmo período de 2024. Parte relevante dessa aceleração veio, portanto, de um mercado específico e de condições cambiais momentaneamente favoráveis.

Alguns dos países que lideram o ranking oferecem referências importantes para o caminho que o Brasil precisa construir. A China trabalha com planos de cinco anos dentro de uma visão mais longa. Seu plano turístico 2021-2025 já estabelecia como horizonte transformar o país em uma potência mundial do turismo até 2035, combinando conectividade, infraestrutura, tecnologia e facilitação da entrada de visitantes.

A Espanha começou a desenhar em 2019 sua Estratégia de Turismo Sustentável 2030. O Japão institucionalizou sua política nacional de turismo por lei em 2006. O plano atual, válido de 2026 a 2030, é o quinto desde então e estabelece, entre outras metas, chegar a 60 milhões de visitantes internacionais e 15 trilhões de ienes em gastos desses turistas.

São países completamente diferentes e não existe um modelo único para copiar. Mas há elementos importantes em cada experiência que podem orientar uma estratégia brasileira: visão de longo prazo, metas mensuráveis, coordenação, continuidade e, principalmente, capacidade de execução.

Esses países também perceberam que turismo não é apenas lazer ou promoção de destinos. É uma atividade econômica com enorme capacidade de gerar emprego, renda, investimentos e desenvolvimento regional.

Um estudo recente da UFF para a Embratur ajuda a dimensionar esse efeito. Cada R$ 1 gasto por um turista internacional no Brasil movimenta R$ 3,31 na economia, considerando impactos diretos, indiretos e induzidos. Estudos apresentados pela IATA mostram ainda que essas divisas se espalham por 52 setores da economia. E cada R$ 1 milhão de receita gerada pelo turismo internacional sustenta 34 empregos no conjunto da economia brasileira.

Esse efeito é particularmente importante no Nordeste, onde o turismo representa cerca de 9,8% do PIB regional e responde por aproximadamente 433 mil empregos formais.

O Brasil também tem planejamento. O atual Plano Nacional de Turismo estabelece objetivos e metas para 2024-2027. Mas planejamento é apenas uma parte do sucesso. A diferença está na execução. E execução exige gestão profissional, continuidade, orçamento compatível e acompanhamento permanente dos resultados.

Desde a criação do Ministério do Turismo, em 2003, o Brasil contou com 22 ministros em 23 anos, incluindo interinidades. É difícil construir uma política de longo prazo com esse grau de descontinuidade.

Desenvolver o turismo de forma consistente e contínua exige tempo. Uma nova rota internacional não se consolida em seis meses. Um aeroporto não é planejado e ampliado em um mandato. Um destino não ganha infraestrutura, conectividade e reconhecimento internacional de uma hora para outra.

Os números mostram que temos problemas estruturais. O Brasil perdeu 85 rotas aéreas desde 2019, enquanto a Colômbia ganhou 49 no mesmo período.

A política de vistos é outro exemplo. O Brasil acertou ao retirar neste ano a exigência para visitantes chineses, um dos maiores mercados emissores do mundo. Mas ainda exige visto de turistas de mercados relevantes, como os Estados Unidos.

Reciprocidade diplomática pode ter sua lógica. Para o turismo, porém, visto também é uma barreira de entrada. Se queremos aumentar visitantes e gasto no Brasil, essa decisão precisa ser analisada também sob a ótica econômica e da competitividade.

Há ainda um problema mais imediato: viajar pelo Brasil está ficando mais caro. No início do mês, a Petrobras aumentou em 13,9% o preço médio do querosene de aviação. Desde dezembro, o QAV acumula alta de 53,3%, ou R$ 1,94 por litro. Segundo a Abear, cada R$ 1 acrescentado ao litro do QAV pode retirar 225 mil passageiros do mercado.

E outra pressão está chegando. Na Assembleia Geral da IATA, realizada no Rio de Janeiro em junho, o vice-presidente regional Peter Cerdá projetou que os efeitos da reforma tributária podem elevar em até 23% o preço médio das passagens domésticas e em 26,3% o das internacionais, com redução próxima de 30% na demanda.

Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil, colocou a questão em números ainda mais simples: segundo ele, a companhia paga hoje cerca de R$ 2 bilhões por ano em tributos e poderá chegar a aproximadamente R$ 6 bilhões com a implementação integral da reforma.

No final, essa conta chega ao consumidor. E passagem mais cara não é apenas um problema da aviação. Menos passageiros significam menos ocupação nos hotéis, menos consumo, menos visitantes em atrações e menos atividade econômica nos destinos.

Uma política de turismo também não pode depender apenas do governo federal. Precisa ser construída e executada em conjunto com estados, municípios e iniciativa privada, combinando investimentos públicos e privados e, quando fizer sentido, instrumentos como concessões e PPPs.

O Brasil precisa transformar seus sucessivos planos de governo em uma política de Estado para o turismo, com horizonte de pelo menos dez anos, executada por meio de planos de quatro ou cinco anos, com metas objetivas, orçamento previsível, responsáveis definidos e acompanhamento permanente.

Não se trata de um plano imutável. O mundo muda e as prioridades precisam ser ajustadas. Trata-se de preservar uma direção estratégica enquanto se atualizam os meios para chegar até ela.

Quantos turistas internacionais queremos receber em 2030 e 2035? Quanto queremos que gastem no país? Quantas novas rotas precisamos criar? Quanto investimento queremos atrair? Quantos empregos queremos gerar? Qual participação queremos que o turismo tenha no PIB? E, principalmente, quem será responsável por entregar cada uma dessas metas?

Não há contradição entre reconhecer os avanços recentes e admitir que ainda estamos muito abaixo do nosso potencial.

O turismo representa hoje cerca de 7,7% do PIB brasileiro. No mundo, essa participação está próxima de 10%. Proporcionalmente, portanto, o peso do turismo em nossa economia ainda está mais de 20% abaixo da média mundial.

O recorde de visitantes estrangeiros é uma excelente notícia, mas não deveria ser o ponto de chegada. O Brasil tem natureza, cultura, praias, cidades, eventos e um mercado doméstico gigantesco. Potencial nunca foi nosso problema. O desafio é transformar esse potencial em crescimento econômico, emprego e renda.

Por isso, o Brasil não precisa de mais um plano que termine junto com o próximo governo ou o próximo ministro. Precisa de uma política de Estado para o turismo, com direção de longo prazo, capacidade de execução e continuidade suficiente para transformar potencial em resultado real para o país.

Para quem decide. Por quem decide.

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Executivo com mais de 20 anos de experiência no setor de turismo. Foi presidente de companhia aérea, de redes de hotéis e de companhias de distribuição de produtos turísticos. Atualmente, atua como conselheiro

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