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Saturday, October 31, 2026

Em 1976, a revolução das crianças passou na televisão

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FOTOILUSTRAÇÃO INÊS CORREIA / OBSERVADOR

FOTOILUSTRAÇÃO INÊS CORREIA / OBSERVADOR

Há 50 anos, estreou a primeira “Rua Sésamo” na RTP. Foi o culminar de um processo que começou no 25 de Abril e que marcou o início da mudança no entretenimento infantil em Portugal.

O conselheiro da missão diplomática está numa encruzilhada. Há uma decisão a tomar, rapidamente. Em cima da mesa, dois cenários. Primeiro: continuar a fazer história na delegação portuguesa das Nações Unidas. Estamos em 1976, Portugal prepara-se para anunciar que é o novo Estado-membro do Conselho da Europa, uma vitória diplomática que põe fim a décadas de ostracismo. E não esqueçamos, evidentemente, o salário em dólares e o escritório em Nova Iorque, regalias impensáveis para um ex-jornalista português. Segundo: uma oferta de emprego precária, de carácter urgente, para não dizer desesperado, a de Diretor de Programas da Radiotelevisão Portuguesa.

O último a desempenhar o cargo, Mário Dionísio, saiu em estilo, a disparar em todas as direções: acusou os colegas de “ausência de responsabilidade”, denunciou uma “campanha de boatos” e “dissídios de toda espécie”. Os administradores da RTP apelaram ao sentido patriótico do conselheiro das Nações Unidas, pelouro da imprensa, de nome Carlos Cruz, conhecido de qualquer português com televisão ou rádio em casa. Esta missão era igualmente urgente, argumentaram; desenhar a programação do canal público, a primeira em democracia plena, logo após as eleições legislativas.

Uma série imperdível, com reviravoltas garantidas a cada episódio, era o estado da própria administração e direção da RTP. Entre militares, intelectuais, e membros de células partidárias, sucediam-se contratações, demissões, comissões, saneamentos, e, ainda, depois dos créditos, notícia de última hora, mais um saneamentozito. “A tarefa assusta-me, as circunstâncias não são totalmente claras e admito, eu próprio, ter atingido o meu limite de competência”, confessou Carlos Cruz, que lá aceitou o cargo, e apresentou a sua programação, em outubro de 1976.

Os programas infantis estrangeiros exibidos em Portugal eram maioritariamente legendados, o que excluía à partida o público pré-escolar e, já agora, 30% da população adulta, ainda analfabeta. Abre-te Sésamo alterou este paradigma: sob a batuta de Maria Alberta Menéres, Diretora do Departamento de Programas Infantis e Juvenis, os atores João Lourenço, João Perry, José Gomes e Irene Cruz gravaram todos os diálogos e canções no estúdio Nacional Filmes, à Calçada de Santana.

Durante a apresentação, Carlos Cruz sublinhou uma minúcia que, bem vistas as coisas, talvez não deva ser uma minúcia, como tentou justificar: “Será dar particular atenção à criança, porque a televisão tem, em relação ao público infantil, não só uma enorme responsabilidade como uma incalculável dívida”. É necessário, defende, “a participação efetiva” do público infantil na RTP, isto é, programas de crianças para crianças, em vez da condescendência habitual. Foi precisamente neste ponto que começou a nova grelha, segunda-feira de manhã, em português de Portugal: Abre-te Sésamo.

Histórias de Nova Iorque: Egas, Poupas e o Monstro das Bolachas

Há 50 anos, estreou-se o primeiro programa da Rua Sésamo em Portugal, a série de fantochada que captou o imaginário de uma geração e representou o culminar de uma rutura no entretenimento infantil, desde Vickie, o viking, a Heidi, a órfã dos Alpes suíços. Durante um dos períodos mais politizados da nossa história, na sombra de um processo revolucionário, afirmou-se uma indústria infantojuvenil. E os miúdos que cresceram em liberdade após o 25 de Abril, alimentados a desenhos-animados, fantoches e cantigas, imaginaram o seu próprio país, a brincar.

Abre-te, Sésamo é apenas o primeiro passo seguro, firme, de longa caminhada que será a de os adultos construírem uma televisão que contribua decisivamente para que os nossos filhos sejam mais esclarecidos, mais confiantes e mais felizes que as gerações precedentes.” (Revista Tele Semana, 1976)

A Rua Sésamo, que se estreia inicialmente na RTP com a versão reduzida Abre-te Sésamo, apresentou às crianças portuguesas os fantoches de Jim Henson, o criador de Os Marretas, um excêntrico artista norte-americano que dedicou corpo e alma à manipulação de personagens infantis. O programa ainda passava desenhos animados e breves documentários educacionais, como se alguém quisesse saber de outra coisa além das extraordinárias criaturas, os vizinhos da dita Rua Sésamo, que seria em Nova Iorque — os colegas de casa sempre às turras, “Egas” e “Becas”; um pássaro raro chamado “Poupas”; ou o compulsivo alimentar, não diagnosticado, “Monstro Comilão”, mais tarde conhecido como “Monstro das Bolachas”.

▲ “Os americanos e os ingleses chamam-lhes The Muppets e têm a vocação de autênticas vedetas”, apresenta a Tele Semana, que aconselha o programa para “crianças de idade pré-escolar”

“Os americanos e os ingleses chamam-lhes The Muppets e têm a vocação de autênticas vedetas”, apresenta a Tele Semana, que aconselha o programa para “crianças de idade pré-escolar”. Era aqui que estava o público recomendado pelos criadores do programa, a Children’s Television Workshop (CTW), uma produtora televisiva sem fins lucrativos que, durante dois anos, com financiamento público e privado, reuniu uma equipa de executivos, produtores, marketeers, escritores, professores e psicólogos, para criar em laboratório um programa infantil completamente diferente, de igual medida cativante e educativo. Os testes confirmaram que acertaram na receita quando os fantoches entram em cena, que progressivamente ocuparam mais espaço após a estreia em 1969, na Public Broadcasting Service (PBS), o canal público norte-americano.

O conceito pedagógico resume-se numa máxima simples: antes de começar a lição, era necessário cativar os miúdos. As personagens exuberantes, as cenas curtas, as técnicas de montagem velozes, as músicas de Joe Raposo, o luso-descendente filho de açorianos, não davam descanso às crianças (as experiências em laboratório contabilizam cada desvio de atenção dos grupos de teste). “O êxito ou a falência de uma tentativa deste género passa obrigatoriamente por uma primeira vitória, autenticamente preliminar: a captação da atenção infantil”, continua a Tele Semana. E para o jovem público português havia um entrave adicional que, até aquele momento, nunca tinha sido devidamente equacionado: a língua portuguesa.

Os programas infantis estrangeiros exibidos em Portugal eram maioritariamente legendados, o que excluía à partida o público pré-escolar e, já agora, 30% da população adulta, ainda analfabeta. Abre-te Sésamo alterou este paradigma: sob a batuta de Maria Alberta Menéres, Diretora do Departamento de Programas Infantis e Juvenis, os atores João Lourenço, João Perry, José Gomes e Irene Cruz gravaram todos os diálogos e canções no estúdio Nacional Filmes, à Calçada de Santana. “Abre-te, Sésamo é o maior, e talvez o mais complexo trabalho de dobragem até hoje realizado no nosso país (…) Foi um trabalho que, diga-se, não se mostrou fácil, mas que a RTP chamou a si com a consciência de se tratar de uma tarefa perfeitamente indispensável”.

Quem trouxe Wickie para Portugal — mais tarde com a grafia Vicky, o viking nanico, de chapelinho cornudo e cota de malha — foi um mestre da literatura infantil, António Torrado, o primeiro Diretor do Departamento de Programas Infantis e Juvenis da RTP, cargo criado no início de 1975.

A adaptação e tradução deveu-se, provavelmente, a Maria Alberta Menéres, reconhecida poeta e escritora, que tinha o hábito de escrever em casa, à máquina, pela noite fora, os argumentos, traduções e letras de canções dos programas da RTP, sem qualquer referência à autoria nos créditos. Segundo a filha, a compositora e atriz Eugénia Melo e Castro, Alberta Menéres acreditava piamente que creditar o seu trabalho de escrita seria um conflito de interesses entre a autora e a diretora, optando pelo anonimato.

A invasão dos bárbaros

O fenómeno intergeracional de Abre-te Sésamo não foi um caso isolado, mas o resultado de um processo de transformação na televisão portuguesa que começou, como tudo o resto, após uma certa madrugada, no dia 25 de Abril de 1974. Nas primeiras semanas em liberdade, a rúbrica “TV Infantil” — abertura da televisão, às 12h45, e ao final da tarde, antes de jantar — permaneceu inalterada — Lassie, Skippy, Zorro, Woody Woodpecker, Flintstones, Popeye ou Top Cat — a programação do costume, devidamente legendada e desatualizada.

Um mês depois, a novidade digna de nota: o Capitão Manuel Ferreira, que passou de escritor perseguido pelo Estado Novo a responsável pelos programas infantis e culturais da RTP, convidou Vasco Granja, devoto da animação e do comunismo, a apresentar o programa Cinema de Animação. Os episódios que introduziram os portugueses à vanguarda do género pretendiam, como Vasco Granja explicou, nas páginas da Tele Semana, um “esclarecimento ideológico”, alinhado com a política revolucionária em voga, em total rejeição da animação norte-americana. E não julguem que, por outro lado, as novidades do grande capital, da Disney à Warner Brothers, estivessem a estrear no cinema; a explosão do cinema erótico, violento e político abafou a oferta infantil — entre abril e outubro de 1974, apenas 9% dos filmes foram de acesso livre a crianças.

▲ “Em pleno período eleitoral, quase que valia a pena pensar na candidatura do Wickie. Que acham a ideia?”, sugere o jornalista António Amaral Pais

O entretenimento infantil não era uma prioridade dos governos provisórios. Antes disso, a democratização do ensino, novos programas escolares, campanhas de alfabetização, construções de escolas, trinta por uma linha, mais as iniciativas populares, entre cooperativas e comissões de moradores. No início de 1975, o Ministério da Educação do IV Governo Provisório aprovou uma “estratégia revolucionária” que pretendia incutir “uma sociedade socialista” aos jovens portugueses, através de uma “ampla participação e organização das massas populares”, como revelou o pedagogo António Teodoro. No entanto, debaixo das barbas dos revolucionários, dentro das nossas casas, desembarcou um navegador bárbaro, com planos diferentes, ao saque e pilhagem:

Eis um mapa antigo da Escandinávia. A aldeia de Flake é apenas um pequeno ponto na costa. É desta pequena aldeia que os nossos Vikings partem à vela para saquear e pilhar todos os povoados costeiros da Europa. Andavam sempre à procura de aventura e de tesouros.”

Assim começou o episódio inaugural de Wickie, mais tarde com a grafia Vicky, o viking nanico, de chapelinho cornudo e cota de malha. Quem trouxe a série a Portugal foi um mestre da literatura infantil, António Torrado, o primeiro Diretor do Departamento de Programas Infantis e Juvenis da RTP, cargo criado no início de 1975. Depois da febre Pippi, a das meias altas, um herói escandinavo voltava a ser uma obsessão nacional, em pleno Verão Quente do PREC. “Vem de longe, da Europa nórdica e fria (…) viaja em barcos bizarros, faz amizade com bichos e gentes, viaja em terras estranhas, defende os bons e vence os maus”, resume a Tele Semana. A bordo do navio de guerra, o “herói-menino”, filho do “resmungão” Halvar, é acompanhado pela amiga Ylvi, possível namorada — “um bocadinho precoce” — à conquista das televisões de Portugal.

O programa japonês, inspirado num livro sueco, pós-produzido na Alemanha Ocidental, apanhou os pais desprevenidos, testemunhas do “poder de fascinação sobre as crianças” desta animação criada pelo estúdio Zuiyo, em Tóquio. Os autores coproduzem uma versão em alemão que foi um sucesso transversal na Europa, Portugal incluído, onde a RTP transmitiu na língua germânica. Wickie sequer mereceu o habitual anúncio de lançamento da RTP, cresceu de semana a semana, até tornar-se no primeiro êxito da televisão infantil após o 25 de Abril: a miudagem desenha vikings compulsivamente; trocam cromos no recreio; e acompanham o relato dos ralis, pela simples razão do piloto António Onofre correr com um autocolante do Wickie, no capô do Datsun.

Fungagá da Bicharada foi um programa musical apresentado pelo “Tio” Júlio Isidro e José Barata-Moura, este último, convém lembrar, cantava canções infantis bem antes da revolução, desde Olha A Bola, Manel a Joana Come A Papa. O programa rendeu singles, álbuns e até uma revista, servindo de prova final, como se ainda fosse necessário, do impacto de António Torrado no canal público.

A omnipresença de Wickie não pareceu incomodar os poderes instituídos, afinal, cumpria os serviços mínimos: não era norte-americano. O crítico de televisão Paulo Norberto Correia da Fonseca, por sinal, militante comunista, recorda que persistem “cartoons norte-americanos”, que deveriam ser imediatamente saneados. Em relação ao viking que todos falam, concede a qualidade, mas discorda do “tom excessivamente escandinavo”:

Porque deliberadamente se alheia de um sentido de intervenção de que muito precisa, sobretudo agora, o jovem telespectador português (…) O nosso público precisa de ser informado e (re)educado. Também os desenhos animados deveriam contribuir para isso. E Vickie, produto de uma sociedade que não está mobilizada para uma tarefa dessas, passa ao lado da nossa necessidade principal.”

Por outras palavras, este viking navega em águas traiçoeiras, também conhecidas como a social-democracia.

A bicharada do 25 de Novembro

Os saneamentos na televisão não foram brincadeira, inclusive para os responsáveis dos programas de brincadeira. A rutura política do 25 de Novembro de 1975 passou a limpo a RTP: segundo as comissões responsáveis pela vaga de despedimentos, a justa causa devia-se a uma insondável “colaboração” com as “forças sublevadas do 25 de Novembro”. António Torrado foi um dos visados, tudo indica, pela sua militância no MDP-CDE, partido indissociável do PCP. O vazio foi preenchido, inevitavelmente, por Maria Alberta Menéres, braço-direito de António Torrado, uma das autoras mais célebres de literatura infantojuvenil, e, sublinhe-se, nenhuma filiação política conhecida.

Esta amizade estava a salvo de qualquer saneamento. Quando assumiu a pasta, António Torrado pediu logo ao major Ramalho Eanes, Presidente do Conselho de Administração da RTP, para transferir em definitivo Maria Alberta Menéres para o departamento de entretenimento infantil. A autora de Ulisses, o livro que abriu as portas da mitologia helénica a gerações de portugueses, estava em linha com o pensamento de Torrado para entreter os garotos: promover programas de qualidade, sem paternalismo nem enfado, sejam importados ou originais, com orçamentos que também exigiam originalidade — se não há cachê para um músico interpretar o genérico, abram alas à própria filha adolescente de Maria Alberta, Eugénia Melo e Castro, que canta de graça e assim se estreia nas cantigas.

▲ "Vamos todos aprender como vive a bicharada / O que é um cardume e uma manada / Vamos ver não tarda nada / Quem é que afinal tem a voz bem afinada / É o fungágá, fungágá da bicharada”

Dois meses antes do 25 de Novembro, a dupla Torrado/Menéres apresentou a última proposta original, um improvável cruzamento entre um barbudo revolucionário, cantor de protesto comunista, e a criançada à solta, entregue aos bichos:

Vamos todos aprender como vive a bicharada
O que é um cardume e uma manada
Vamos ver não tarda nada
Quem é que afinal tem a voz bem afinada
É o fungágá, fungágá da bicharada”

Fungagá da Bicharada foi um programa musical apresentado pelo “Tio” Júlio Isidro e José Barata-Moura, este último, convém lembrar, cantava canções infantis bem antes da revolução, desde Olha A Bola, Manel a Joana Come A Papa. O programa rendeu singles, álbuns e até uma revista, servindo de prova final, como se ainda fosse necessário, do impacto de António Torrado no canal público. Misteriosos eram os caminhos dos saneamentos que pouparam José Barata Moura e Vasco Granja, entre tantos outros militantes comunistas, e foram implacáveis com António Torrado. O súbito despedimento foi uma mágoa que carregou até ao regresso à RTP, no final dos anos 80, coincidentemente, na versão portuguesa de Rua Sésamo, a convite da amiga Maria Alberta:

O sol nasceu
Como está
Lindo céu
Lá vou eu, vem tu daí também
Aprender como se vai até à Rua Sésamo”

Uma órfã que fala japonês e canta tirolês

Uma estreia absoluta: pela primeira vez, a televisão portuguesa iria transmitir um desenho animado inteiramente de “animação japonesa”, segundo o Diário de Lisboa. A primeira grande aposta de Maria Alberta Menéres foi introduzir na RTP este género de animação que hoje todos conhecemos como anime, omnipresente na cultura ocidental. Uma aposta de risco, certo, mas calculado: comprou os direitos ao estúdio Zuiyo, os criadores de Wickie, que, por qualquer mistério infindável, continuavam obcecados com a literatura sueca. No dia 22 de fevereiro de 1976, surgiu no pequeno ecrã, a saltitar, uma garota que vive nos Alpes Suíços, a Heidi.

Heidi não eram propriamente um viking à conquista do mundo, mas havia uma certa melancolia hipnotizante, retratada em meticulosa animação naturalista; entre os animadores, mestres como Isao Takahata e Hayao Miyazaki, mais tarde cofundadores do Studio Ghibli, de "A Viagem de Chihiro" e "O Castelo Andante".

Deve ter sido bonito: as crianças em casa, expectantes para esta nova bonecada, e assoma-se uma montanha e um vilarejo, em pinceladas suaves, numa sublime paisagem impressionista, como nunca se tinha visto em televisão, e dispara o genérico, numa língua estranhíssima, o tal japonês, com refrão tirolês, ióóóleró, leró, leró, iúiú, leró, iúiú. E mais, este desenho de animado tem muito pouco: Heidi é órfã, entregue a um avô ermita, e os melhores amigos são um pastor de cabras e uma filha de um vinicultor de cadeira de rodas. Não eram propriamente vikings à conquista do mundo, mas havia uma certa melancolia hipnotizante, retratada em meticulosa animação naturalista; entre os animadores, mestres como Isao Takahata e Hayao Miyazaki, mais tarde cofundadores do Studio Ghibli, de A Viagem de Chihiro e O Castelo Andante.

Quase de imediato, surge outra novidade neste período de profundas transformações na cultura popular: as versões portuguesas dos genéricos de programas infantis. A miudagem pedincha e leva para casa o single Heidi, um disco que verdadeiramente podiam chamar de seu, um fenómeno inédito na sua dimensão massiva que atirou uma boia de salvação para a incipiente indústria musical portuguesa. A Tele Semana revelou que, entre janeiro e outubro de 1976, Heidi Versão Portuguesa de Maria João e Coro, editado pela EMI-Valentim de Carvalho, foi o single mais vendido em Portugal — “Avôzinho diz-me tu/ Quais são os sons que ouço eu/ Avôzinho diz-me tu/ Porque que na nuvem vou”.

A revista Música & Som apresentou uma tabela alternativa dos singles mais vendidos, liderada pelo intrépido marinheiro:

Hei Hei Wickie,
Hei Wickie hei,
Levanta bem a vela
Hei Hei Wickie,
Hei Wickie hei,
No alto mar navega”

A competidora Philips-Phonogram responde ao êxito de Heidi Versão Portuguesa com Hei, Hei, Wickie, uma guitarrada krautrock que soou particularmente triunfante nas mãos do escocês Mike Sergeant, compincha de Tozé Brito, o responsável pela adaptação dos versos, com as vozes do próprio e de Nuno Dias. “Nos três primeiros lugares, e para que não restem dúvidas, as crianças deram de vencida”: Hei Hei Wickie, Heidi Versão Portuguesa e Pippi das meias altas — esta última, também adaptada pela dream team Tozé Brito/Mike Sergeant. Tele Semana: “Este disco, distribuído em Portugal pela Phonogram, tem sido um grande êxito junto da miudagem (e não só), como não podia deixar de ser. Trata-se, aliás, de uma versão muito cuidada das canções originais, mas cantadas em português, e por sinal muito bem cantadas”.

▲ Heidi dispara o genérico, numa língua estranhíssima, o tal japonês, com refrão tirolês, ióóóleró, leró, leró, iúiú, leró, iúiú

O sucesso destas canções ao longo de 1976 coincidiu com a estreia de Abre-te Sésamo, motivo mais que suficiente para a RTP decidir também gravar dobragens para Wickie e Heidi, uma prática que seria brevemente vulgarizada. “Em pleno período eleitoral, quase que valia a pena pensar na candidatura do Wickie. Que acham a ideia?”, sugere o jornalista António Amaral Pais, quando a canção lidera as tabelas de vendas, no pano de fundo de eleições em catadupa, legislativas, autárquicas e presidenciais.

O primeiro dia de aulas é sempre desconcertante. Há-de ter sido o que ocorreu na cabeça dos deputados portugueses que estrearam a Assembleia da República, distribuídos pelas bancadas, com lugares marcados, quase a castigo, convocados para improvisarem esta excentricidade que nunca testaram, o debate parlamentar. Maria Alberta Menéres apercebeu-se deste paralelo entre o mundo adulto e infantil, e convocou o ator Mário Viegas, de bigodinho e peruca branca, para presidir uma assembleia paralela, no Teatro Villarett. Em cada episódio do programa Peço a Palavra era introduzido uma questão aos deputados, que devemos esclarecer, eram crianças da primária. Ora por exemplo, pergunta Mário Viegas, na tribuna, dirigindo-se aos representantes do povo, quem acredita na existência de discos voadores?

Deputado Canadas: “Acredito. No Algarve já foram vistos por pessoas que andavam a passear de barco à noite, viram umas luzes, numa espécie de círculo redondo, de repente apagaram-se e desapareceu”.

Deputado Morais replica, em protesto: “Há até a possibilidade dessas pessoas mentirem, podem não ter visto nada, pode ser uma ilusão”.

Contraprotesto, deputado Canadas: “Peço a Palavra! Então era possível que, mais de 50 pessoas que viram discos voadores, será possível que todos se enganassem?”

No final do programa, a assembleia vota na opinião vencedora, que nem sempre é a mais conveniente ao povo, por exemplo, quando é decidido que as crianças têm direito a fumar — sim, isto aconteceu. O resultado era irrelevante, os miúdos estavam na televisão em pé de igualdade, venceram mal abriram a boca. Neste ano zero da democracia portuguesa em pleno, a RTP lembrou que o público infantil pode não votar, mas também é gente. Viveu o mesmo país em ebulição — as greves dos professores, os novos currículos, o conceito de tempo-livre, as férias de verão — e a televisão foi um espaço de recreio que reconfigurou o que era ser uma criança neste país democrático.

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