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Saturday, August 15, 2026

Quem é Victor Marx, candidato a governador nos EUA que diz exorcizar por telefone

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Misture o lado populista de Donald Trump e a estética coach-política do palestrante Pablo Marçal com pitadas de exotismo do ex-deputado Cabo Daciolo. O resultado extravagante talvez se aproxime do candidato republicano ao governo do Colorado, nos Estados Unidos, Victor Marx.

Sem experiência partidária e autodenominado outsider, o republicano venceu as primárias do partido contra um deputado e uma senadora estaduais da sigla. Os dois dizem que o companheiro de legenda é uma fraude e rejeitam apoiá-lo na disputa contra o democrata Phil Weiser, em novembro —o estado é governado por democratas desde 2007.

Filho de Karl Marx (o nome de seu pai biológico, ausente até que, já convertido, retomasse contato com o filho), Victor Marx, 61, passa muito longe do materialismo histórico dialético elaborado pelo primo distante. No debate em que participou das primárias republicanas, encerrou suas considerações finais orando.

Autodenominado missionário "de alto risco" por adentrar zonas de guerra para resgatar vítimas de abusos e tráfico de pessoas, Marx fundou o ministério cristão sem denominação All Things Possible (algo como "Tudo é Possível"), uma entidade juridicamente estabelecida como uma ONG sem fins lucrativos, isenta de impostos, com propósito religioso.

O candidato era amigo e mentor espiritual do influenciador trumpista Charlie Kirk, assassinado em setembro do ano passado, e publicou em 2024 um livro intitulado "The Dangerous Gentleman" (O Cavalheiro Perigoso), no qual desafia homens a rejeitarem o que chama de passividade e a abraçarem a fé, a disciplina e a coragem moral como forma de liderarem a reconstrução da sociedade nesses termos.

Kirk prefaciou a obra, que também dá nome a uma espécie de irmandade online de cavalheiros perigosos —ao custo mínimo de US$ 24 mensais. O plano mais caro da plataforma custa US$ 199 por mês e diz incluir cursos, convites a eventos VIP e trocas de mensagens diretas com Marx.

O livro é uma coleção de anedotas do próprio candidato e de como ele diz ter transformado sua história pessoal tenebrosa em uma vida dedicada a salvar indefesos, em particular crianças.

Um dos episódios mais explorados por adversários e em entrevistas se refere a quando, aos 7 anos, ele teria sido obrigado por um padrasto abusivo a matar um homem a tiros. Não há indícios do crime, que teria ocorrido há décadas no Mississippi.

O mesmo abusador teria torturado Marx com choques e o obrigado a decapitar um gato morto, entre outras violências difíceis até de imaginar. Tão difíceis que mesmo entrevistadores ideologicamente mais amigáveis insistem em perguntas duras questionando a veracidade dos relatos.

E aqui não se trata de duvidar da vítima, porque os episódios escabrosos, inicialmente compartilhados por Marx em podcasts e ambientes a salvo de críticas, juntam-se à ausência de evidências mínimas sobre o trabalho de sua organização e outras reivindicações que exigem de quem as analisa uma boa dose de fé.

Entre elas estão o fato de Marx se dizer um "exorcista relutante", ou seja, alguém que não é propriamente um exorcista, porque não os realiza sob o metiê católico, mas que "apenas reza" para pessoas como parte de seu objetivo de guerra espiritual contra demônios identificados no alvo do exorcismo. Inclusive pelo telefone.

Lá Fora

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Outra é a de que ele não informa o número total de pessoas resgatadas pela sua organização por supostas questões de segurança, após o site de sua campanha brevemente registrar mais de 45 mil, um erro depois corrigido e atribuído a um funcionário terceirizado; em um podcast acrítico, no entanto, respaldou o número.

Faixa preta de karatê e ex-fuzileiro naval, ele diz não saber quantas pessoas matou durante a vida desde aquele episódio na infância, questionando o jornalista que fez a pergunta: "Isso interessa?".

Marx usa sua narrativa redentora, irresistível para públicos menos céticos, para criar uma base de apoio que o vê como um elemento de disrupção vindo de fora de um sistema político —alvo de denúncias do republicano por supostamente acobertar redes de pedofilia e tráfico humano à la "Som da Liberdade", filme que ficcionaliza exatamente o tipo de trabalho da All Things Possible e é adorado pela ultradireita, inclusive no Brasil.

O agora candidato concorre ao governo de um estado com um PIB próximo ao de países como a Noruega e os Emirados Árabes Unidos, após vencer a primária republicana por apenas 2.500 votos, ou 0,5 ponto percentual.

Misturada às pautas puramente ideológicas de guerra espiritual, a campanha de Marx bate na tecla do alto custo de vida e de moradia para os habitantes do estado. Este tem sido um dos argumentos centrais da ala mais à esquerda do rival Partido Democrata, o que indica menos compatibilidade ideológica do que o reconhecimento da relevância da pauta para o eleitorado nacional.

Talvez pela controvérsia de seus relatos, ou por personificar um tipo outsider mais genuíno do que Trump dentro da legenda, ao menos aparentemente, Marx ainda não recebeu qualquer endosso ou mesmo menção pública do republicano mais importante do país.

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