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Wednesday, September 23, 2026

Ações que somam R$ 14,3 bi estão na raiz da influência de Vorcaro no Judiciário

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Brasília O dono do Master, Daniel Vorcaro, tem pelo menos R$ 14,3 bilhões investidos em ações judiciais que dependiam de decisões de tribunais para renderem lucros exorbitantes ao ex-banqueiro. São 16 casos nos quais o banco comprava a participação em uma possível indenização que seria paga pela União às usinas de álcool e açúcar.

O mapa dos investimentos consta em relatório elaborado pelo escritório Galdino Advogados em 2024 e depois entregue ao Banco Central para embasar a fiscalização do Master. O relatório, obtido pela Folha, foi pago pelo ex-banqueiro.

Chamados tecnicamente de direitos creditórios, mas conhecidos no mercado como pré-precatórios, esses ativos comprados por Vorcaro eram um dos principais negócios do Master e estão na raiz da rede de amigos que o ex-banqueiro montou no Judiciário. O objetivo era ganhar apoio às teses jurídicas por trás dessas ações, que depois se transformam em precatórios —sentenças definitivas.

Homem de cabelos escuros penteados para trás, vestido com terno preto, camisa branca e gravata cinza, segura microfone com a mão direita enquanto fala sentado em cadeira branca. Ao lado direito, há uma garrafa de água e um copo sobre uma mesa pequena. Fundo azul com logotipos da empresa 'esfera' visíveis.
O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro - Rubens Cavallari - 22.abr.2024/Folhapress

O principal caso no qual Vorcaro apostava envolve a fixação de preços pelo Instituto do Açúcar e do Álcool na década de 1980. Usinas recorreram ao judiciário afirmando que essa fixação gerou prejuízo para as empresas, que eram obrigadas a vender seus produtos por um preço menor do que o de produção. Elas exigiram pagamento de indenizações pela União, o que gerou precatórios.

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A AGU (Advocacia Geral da União) estima que há 178 casos envolvendo a fixação de preços pelo instituto nos anos 80 e 90. Muitos desses precatórios foram vendidos por essas usinas no mercado e tiveram como compradores investidores como Vorcaro.

Segundo dados do Conselho da Justiça Federal, só os títulos já expedidos no setor sucroalcooleiro somam aproximadamente R$ 47,8 bilhões. Na LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) de 2025, o impacto fiscal estimado para os casos é de R$ 79,6 bilhões.

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Quando essas teses favoráveis ao pagamento de indenizações são encampadas pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça) e pelo STF (Supremo Tribunal Federal), elas levam a lucros bilionários para os detentores dos direitos de recebimento das indenizações, adquiridos por montantes na faixa de 20% do valor estimado para a ação. Quem paga os valores é a União.

A teia de amigos, que vem sendo revelada pelas mensagens de Vorcaro no seu celular, envolve diversos membros do Judiciário e parentes de ministros do STF.

Em conversas reveladas pela investigação, Vorcaro discute com seu diretor jurídico, Luiz Rennó, o pagamento de R$ 500 mil mensais para o advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques. Como revelou a Folha, Kevin já acumulou uma fortuna de quase R$ 28 milhões em pouco mais de dois anos de advocacia.

Entenda os precatórios e sua relação com Vorcaro

Em nota, o ministro afirmou que "nunca votou a favor de Daniel Vorcaro, nunca trocou mensagens com ele e nem pediu nada ao banqueiro". "O ministro também nunca autorizou ninguém a falar em nome dele. São irresponsáveis quaisquer tentativas de relacionar a atuação do Ministro com os serviços prestados pelo filho ou quaisquer terceiros", acrescentou.

Em mensagens reveladas pelo Portal Metrópoles, Vorcaro é avisado de uma decisão de Kassio em uma ação envolvendo usinas de álcool e açúcar que poderia beneficiá-lo indiretamente.

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"Embora na mensagem eles estivessem comemorando o resultado, não se tratava de ação sobre o Master. A análise técnica demonstra que o entendimento não teve alcance geral nem serviu de precedente para outros processos do setor", disse, em nota, o ministro Kassio.

"Na prática, tratava-se de um caso específico e delimitado, que analisava uma situação processual já consolidada, envolvendo sentença, ação rescisória e reclamação, todas com trânsito em julgado. Assim, o alcance do julgamento ficou restrito àquela causa em particular, sem produzir efeitos jurídicos aplicáveis ao mercado sucroalcooleiro de forma ampla", acrescentou.

O Banco Master também tinha um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Procurado por meio da assessoria de imprensa do STF, o ministro não respondeu.

No STJ, Vorcaro conversava com o ministro Benedito Gonçalves, que disse estar "sempre à disposição" do ex-banqueiro. O magistrado não respondeu aos questionamentos da Folha quando as conversas foram reveladas.

Os três casos exemplificam por que Vorcaro está sendo chamado por parte dos investigadores do caso Master de "concierge do Judiciário".

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O escritório Galdino foi contratado pelo ex-banqueiro para fazer o parecer a ser enviado ao BC sobre a chance de esses direitos creditórios contra a União serem efetivados, além da previsão de prazo para o recebimento do dinheiro. Não foi feita uma análise sobre se o preço desses ativos estava justo no balanço do banco, o que é motivo de críticas do trabalho entre os investigadores.

O parecer foi uma exigência do BC, que analisava inconsistências no balanço da instituição financeira. Esses ativos, de difícil precificação, serviam para engordar os ativos do banco de Vorcaro de maneira artificial, o que permitia que o Master seguisse operando e captando recursos de investidores no mercado, inclusive de fundos de previdência estatais.

Procurado, o escritório Galdino afirma que os valores indicados nos pareceres correspondem àqueles que constam nas perícias realizadas nos respectivos processos e juntadas aos autos. "O escritório não realizou a precificação dos casos, apenas reporta as avaliações constantes dos autos", informou em nota encaminhada à Folha.

"Nos pareceres em que não há indicação de valor, provavelmente a perícia para apuração das condenações ainda não havia sido concluída no momento em que o parecer foi emitido", acrescentou.

Segundo o escritório, as análises foram realizadas sob demanda e exclusivamente em relação aos casos que foram encaminhados ao escritório para avaliação. No relatório da Galdino, dos 16 casos de usinas, oito não têm valores estimados no relatório.

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A defesa de Vorcaro não respondeu ao pedido de informações. "Em função do excesso de demanda, pedimos sua compreensão caso não haja resposta em tempo hábil", diz nota encaminhada por email.

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Vorcaro utilizou parte desses pré-precatórios para tentar evitar a liquidação do Banco Master. Entre 13 de outubro e 18 de novembro de 2025, o banco vendeu direitos creditórios avaliados em R$ 2,9 bilhões, de acordo com escrituras consultadas pela Folha. Não é possível saber por quanto o Master vendeu esses papéis.

Em todos os casos, as vendas foram feitas para instituições ligadas ao banco de Vorcaro: fundos de investimento da teia do Master e a Entre, instituição de pagamento que segundo a PF (Polícia Federal) operacionalizava pagamentos para o banco.

Em uma dessas operações, o pré-precatório valorizou mais de R$ 100 milhões em menos de 24 horas.

Um direito creditório relativo à possível indenização para a usina São João B. Lyzandro vendido pelo Master ao fundo GSR, que faz parte do ecossistema do banco de Vorcaro, foi estimado em R$ 962 milhões. Logo em seguida, o GSR vendeu o ativo para outro fundo, o Krispy, também ligado ao banco, e reavaliou o mesmo ativo em quase R$ 1,1 bilhão.

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A operação exemplifica como esses pré-precatórios podiam ser utilizados para inflar balanços, já que o valor é uma estimativa e pode variar muito a depender da metodologia utilizada.

Com o avanço das investigações do Master, foi descoberto que o Master não tinha apenas R$ 8 bilhões de precatórios e pré-precatórios, como constava no balanço do banco, mas R$ 21 bilhões, ou seja, R$ 13 bilhões estavam escondidos na estrutura opaca de fundos de investimentos.

Nesta terça-feira (22), o ministro Gilmar Mendes apresentou um pedido para levar ao plenário o julgamento bilionário que envolve o pagamento de precatórios do setor sucroalcooleiro. A iniciativa expõe a divisão no STF e a ala de ministros que se aproximou de Vorcaro, como Kassio Nunes Marques, que votou favoravelmente à tese de indenização a uma usina.

ENTENDA OS PRECATÓRIOS E SUA RELAÇÃO COM VORCARO

O que são estes processos?

Usinas e produtores de cana-de-açúcar entraram na Justiça contra a União devido à fixação de preços no setor sucroalcooleiro, nos anos 1980. As empresas alegam que a medida levou a perdas econômicas, já que elas eram obrigadas a vender sua produção abaixo do valor de custo. A Justiça já reconheceu, em muitos casos, o direito de essas empresas em serem indenizadas, gerando o pagamento de precatórios pela União.

Quantas ações existem sobre o tema?


Tramitam atualmente cerca de 178 casos relativos a pedidos de indenização de usinas e produtores de cana-de-açúcar, segundo a Advocacia-Geral da União, responsável por defender a União nos processos.
Segundo dados do Conselho da Justiça Federal, os precatórios expedidos no setor sucroalcooleiro somam aproximadamente R$ 47,8 bilhões, dos quais cerca de um terço ainda não foi levantado, por ter sido expedido antes do encerramento definitivo da causa.

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O que significa a expedição antes do encerramento definitivo?


Isso acontece quando o precatório é expedido sem a comprovação do trânsito em julgado e sem o exame final dos recursos interpostos pela União.

A União já efetuou pagamentos?


Sim, mas esses pagamentos dizem respeito a processos mais antigos, julgados antes da consolidação do entendimento no STF de que era necessária uma perícia individual de cada caso para determinar o prejuízo causado às usinas. Os casos eram baseados em uma perícia geral e, com a decisão, foram enviados para a corte de origem para a realização da perícia individual.

Em que fase estão os processos?


Segundo a AGU, em parte dos casos ainda se discute se há direito à indenização. Em outra parte, o direito já foi reconhecido em tese, e se discute a necessidade de perícia para apurar se houve efetivo prejuízo das usinas e, sendo o caso, o seu valor.

Como parte dos direitos a indenizações foi parar com o Banco Master?


Precatórios e pré-precatórios são negociados no mercado. Geralmente, são vendidos com um deságio (a diferença entre o valor negociado e a expectativa de quanto ele renderá quando for pago) para compensar o risco de quem comprou o ativo. Para quem vende, a vantagem é ter o dinheiro imediatamente.

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