Atravessar os EUA à boleia

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Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio. Hoje eu vou trazer de volta uma pessoa que já se sentou aqui há dois anos. Não sei se se lembram, mas por acaso até foi no início da "Amiga, Faz Parte" que sentou aqui comigo o Manuel Paiva Brandão, que é uma pessoa que na altura tinha acabado de fazer uma viagem ao Alasca, uma viagem mega louca, e que nos sentamos aqui para falar um bocadinho dessa experiência. E na altura ele estava um bocadinho perdido. Estava a trabalhar numa consultora, estava a precisar de redefinir algumas coisas na sua vida. Fast forward, dois anos depois, ele vai sentar aqui comigo, porque acabou de fazer outra viagem maluca. Desta vez, ele foi à boleia dos Estados Unidos, da fronteira do México ao Canadá. Acho que foram 69 boleias, se não me engano. Fez uma viagem louquíssima, mas ao mesmo tempo vamos falar dos últimos dois anos, porque ele entretanto despediu-se, criou o próprio negócio, a própria empresa, e continua a ser o atleta que era quando sentou aqui comigo. Portanto, ele é um atleta de endurance, faz Ironmans, faz bué cenas. E eu quero perceber com ele se a fome também, este desconforto que ele procura nestas viagens, é o mesmo daquele desconforto que procura nestas aventuras todas, no lançamento do negócio dele. Vamos abordar vários temas diferentes, ao mesmo tempo que também vem aqui contar um bocadinho desta última viagem, desta última aventura, e planos futuros, se vai ter de continuar a fazer sempre viagens loucas a sua vida toda para procurar este desconforto forever. Vamos ver o que o Manuel tem para nos dizer. Espero muito que gostem desta conversa. Não é fácil, eu sei, mas, amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume. É que passaram mesmo dois anos, está mesmo agora a fazer.
Setembro, outubro.
Eu estava a lançar o podcast na altura, foste dos primeiros convidados.
Foi buéda louco.
Há dois anos atrás mudou muita coisa.
Tanta coisa. É incrível, eu ver aquele vídeo, eu lembro perfeitamente como é que era a minha cabeça na altura. Chegar do Alasca buéda baralhado com tudo. E agora é tipo: "Realmente nós esquecemos a evolução que há em dois anos, é buéda louca."
Eu lembro que na altura também estava a partilhar contigo que estava super nervosa para fazer a minha primeira corrida de 8 km, que é uma prova. Entretanto, já corri duas meias maratonas.
Brutal, já viste.
Em dois anos.
Esquece. Vai alcançando os pequenos milestones e esquece.
E eu lembro que estavas um bocadinho perdido. Estavas na consultora ainda, não tinhas te despedido.
Trabalhava ainda na Deloitte. Muito na dúvida se era aquilo, se não era. Isto já está a gravar?
Estamos.
Ok, não sabia. Normalmente, não sei se há um corte.
Não.
Ação. Mas sim, acho que há uma grande diferença de uma viagem para outra. A outra, efetivamente, acho que partiu-me um bocado a cabeça toda, ou seja, tinha a minha vida muito bem organizadinha, era consultor, sabia que não ia ser para sempre, porque não era uma vida sustentável que eu quisesse, não tinha assim um propósito brutal, mas tinha a minha vida organizada, fazia Ironman, triatlo, consultora. As coisas estavam mais ou menos organizadas e de repente, não trabalho durante três meses, enfio-me no norte com ursos e com árvores e de repente abre-se tudo na minha cabeça e é tipo: "Ok, eu nem sei quem é que eu sou." Eu fui com o objetivo de tentar perceber quem é que eu queria ser e cheguei com-
Com mais perguntas.
Um milhão de mais dúvidas, eu nem sei onde é que estou. Então foi giro fazer esse processo de dois anos, de tentar encontrar-me, voltar a trabalhar. Eu não me despedi mesmo, foi só uma licença. Voltei a trabalhar, percebi que claramente não era aquilo. Acho que foi uma escola brutal. Acho que toda a gente devia passar, se calar é um bocadinho demais, mas acho que há imenso valor a retirar de entrarmos nalguma fase da vida, numa profissão mais exigente, que exigem muito de nós, como uma consultora ou uma firma de advogados, qualquer coisa assim, onde a exigência é muito alta, onde é um sistema de up or out. Ou evoluímos na carreira a um, dois anos, por todos os anos há uma escada que é suposto seguir. Se não a seguirmos, é sinal que é para sair. E eu acho que essa exigência, essa pressão, não é algo propriamente saudável, de maneira alguma. Gera uma ansiedade brutal, horas de trabalho que também não são muito saudáveis, etc. Mas depois quando saímos, percebemos as ferramentas que aquilo nos dá pela pressão e a exigência do próprio trabalho.
Mas não precisas propriamente levar ao limite para sentires isso. Podes ter outro trabalho que não seja tão exigente em termos de horários e de pressão, não?
Acho que em um, dois anos é muito difícil ter uma evolução de carreira e de método de trabalho tão grande como tens, por exemplo, numa consultora.
Mas tu conseguiste sempre manter esse equilíbrio de mesmo estando na consultora, estavas, por exemplo, a fazer desporto, há pessoas que se deixam mesmo descambar ao limite, em que de repente acabas esses dois, três anos e nem sabes quem tu és, estás completamente mal de saúde.
E é um ciclo vicioso que tu não sais dele, que é estas empresas muito bem organizadas estruturalmente estão feitas para todos os anos haver algum tipo de progressão. Isto é um clássico numa consultora, por exemplo, em que todos os anos dizes: "Não, para o ano é que saio. Não, para o ano é que saio. Para o ano é que saio. Mas para o ano chego àquele patamar, para o ano chego a senior consultant."
É, eles dão-te mais um docinho e tu vais atrás.
Sim, e depois sobes um bocadinho o teu ordenado, o teu pacote anual sobe. "Agora vou ganhar muito melhor, mas se eu ficar aqui mais um ano, vou chegar a senior consultant dois e já vou ter outro tipo de notoriedade nos projetos, já vou ter outra coisa, já vou ter outro bónus." Entramos um bocadinho nessa, não digo ratoeira, porque é uma ratoeira deliberada, as pessoas vão porque querem, mas efetivamente, às vezes ficam presas nesse loop e dão por si, têm 40 anos e se calhar não era bem aquela carreira que queriam. É uma carreira muito exigente, tem os seus desafios a nível pessoal, não é fácil conciliar tudo, mas tudo se faz Três Ironmans a trabalhar na Deloitte. Tudo se faz, é preciso alguma organização e ter um bocadinho os pés assentes na terra de quando for para sair, é mesmo para sair e ter um bocadinho também essa coragem. E honestamente, eu acho que não podia ter saído num timing melhor.
Tu voltaste do Alasca e voltaste para a Deloitte e ficaste três meses?
Três meses, mais ou menos.
Três meses. E depois despediste-te.
E depois despedi-me em janeiro.
Com confiança ou foste com todo um plano?
Fiz, obviamente, um plano minimamente delineado de: "Ok, o que eu quero fazer?"
Mas tu já tinhas claro na tua cabeça o que querias?
Sim, quando eu me despedi já estava com um plano. Por isso é que essa fase de transição foi muito dura, foi quando eu estava a sair, já estava com outro projeto a acontecer, que é o que eu tenho agora, que é o Grind Endurance Team, que é a minha equipa de corrida e triatlo, que montei. Tive certificações, estudei, voltei a estudar. Para mim foi um processo humilde voltar a sentar o rabo numa sala de aula, numa cadeira e aprender, não digo coisas do zero, porque não são do zero, já tinha uma base grande de estudo autodidata, mas aprender coisas, tirar aquilo que é preciso tirar, etc. Acho que há ali um voltar atrás. É brutal.
É um tema que tu gostas, então tu estás muito mais aberto a estar ali, a querer absorver tudo.
Claro, sabes que agora estou num livro que se chama "Mastery," de Robert Greene. Basicamente, é um livro um bocado denso, não digo para toda a gente ler, porque é um livro muito grande, tem umas 700 páginas. No Cobo tem umas 2 mil.
Jesus!
Não, mas o Cobo é o mínimo. É todo um plano estratégico de como é que nós conseguimos identificar onde é que podemos vir a ser muito bons, onde é que podemos atingir este mastery, que é como ele fala. E uma das formas de identificar quais é que são os campos ou as áreas da nossa vida onde nós vamos conseguir, de facto, performar muito bem, é onde é que em criança nós conseguíamos passar, criança, adolescente, numa fase prematura da vida, onde é que nós conseguimos passar horas e horas a fio sem olhar para o tempo, sem ser uma seca, sem ser uma chatice. Eu adorá este livro e não podia concordar mais. Eu acho que voltar a estudar, mas quando se estuda algo que, de facto, estamos completamente alinhados e pensamos: "Ok, é isto." Não digo que as horas não passam e que não é duro, porque é bastante duro, e o caminho empreendedor é solitário e difícil, independentemente se gostamos do que fazemos ou não, mas torna as coisas muito mais fáceis trabalhar com propósito e construir o nosso projeto, as nossas coisas, os nossos negócios. Porque no fim do dia, também tem que ser um negócio financeiro e não só um projeto de vida.
Mas há muita gente, por exemplo, que até descobre aquilo que gosta e tem muitos hobbies, mas depois tem dificuldade em monetizar isso ou tornar isso um trabalho, porque tem sempre aquela ideia de que se eu tornar os meus hobbies o meu trabalho, eles vão perder o entusiasmo. Sentes que perdeu um bocadinho ou consegues manter o equilíbrio?
Consigo, mas eu acho que 2025 foi toda uma reaprendizagem de voltar a gostar de treinar, por exemplo. Era o meu escape. Eu gostava do que fazia quando trabalhava para uma empresa, para a Deloitte. Gostava muito do que fazia, era giro, era desafiante, mas era o meu escape ir treinar, era tipo: "Ok, agora não preciso de pensar em trabalho, em absolutamente nada." Depois, de repente, isso tornou-se a minha vida, deixei de ter hobbies. De alguma forma, deixei de ter hobbies. Portanto, o meu hobby tornou-se a minha profissão. E eu acho que só agora em 2026 é que me apercebi disto. Espera lá, eu já não tenho hobbies. Os meus hobbies são ou treinar, ou dar treinos, ou estudar coisas relacionadas.
Ler, escrever.
Ler, escrever, sim.
É um escape de outra forma.
É. O ler, sem dúvida. Mas não sei, algum hobby que me faça, de facto, aprender uma língua, um novo desporto, começar a gostar de arte, não sei, qualquer coisa diferente que eu nunca tinha feito. E eu percebi isto, eu acho que não aprendo nada de novo há imenso tempo e já não tenho hobbies, porque um hobby pronto, não seria.
E já descobriste entretanto?
Não, por exemplo, agora em maio, fiquei viciado em golfe, comecei a jogar golfe.
É isso, eu acho que descobrires coisinhas novas, não é só o desporto. Eu olho para a corrida como treino e objetivos e coisas assim. Agora estou a tentar jogar ténis e paddle, e para mim é uma brincadeira.
É um escape.
Não tem objetivos nenhuns, é só para me divertir e aprender.
E eu acho que tentar encontrar um hobby vai me também ajudar a que eu consiga distanciar muito bem quando estou a treinar ou quando estou a dar treino, ou quando estou a pensar em algum negócio relacionado com o fitness ou com esta indústria do desporto, porque são os meus dois momentos diferentes, mas ainda assim tenho um terceiro escape que me obriga a pensar noutra coisa completamente diferente, que não treinos ou no meu próprio projeto. Portanto, tem giro.
E quando começaste a criar este projeto, estavas-me a dizer que fizeste um plano para te despedir, tinhas aquela segurança que criaste para tentares controlar mais ou menos o damage de estares a deixar o trabalho, mas correu bem?
Correu.
Foi assustador no início, mas conseguiste dar a volta.
Acho que foi a etapa mais dura da minha vida, ter me despedido. A minha família não percebia. "Tu tens uma carreira estável. Ok, não estás a gostar da consultoria, muda, mas tua carreira está boa, estás a progredir, tens oportunidades." Eu tinha recebido uma proposta interessante para outra empresa, a ganhar bem, onde eu estava, ou seja, comparado com os meus pares, ou seja, as pessoas da minha idade. Era uma boa posição, era uma coisa gira, era uma coisa desafiante, que eu disse que não, obviamente, mas a minha família não percebia. "Mas o que é que estás a fazer? O que é que vais fazer? Desporto do nada?" E obviamente que eu para fora estava muito seguro de que era isto, mas para dentro foi um processo muito duro de eu próprio aceitar de: "Ok, estamos a voltar à estaca zero." Foi premeditada, foi deliberada, foi pensada, mas estamos a voltar à estaca zero.
E é numa idade que não é assim tão normal. Não é normal, é mais assustador.
É mais assustador. Não estou velho para fazer career shift. Não sei se existe esse conceito de velho ou novo.
Tanta gente faz career shift aos 40 anos. O que é isso de estar velho?
Sim, velho ou novo, isso é um conceito que não existe bem. Mas efetivamente existem timings que Timings genéricos e eu acho que já não estava no meu timing normal de fazer essa mudança. Mas ainda bem que a fiz, porque correu muito bem. De repente, antes do verão eu estava com 70 atletas e as coisas estavam a correr maravilhosamente bem, felizmente ainda estão, e portanto, correu bem. Se agora tivesse que voltar a dizer ao Manel do final de 2024, início de 2025, quando me despedi, foi tipo: "Calma, vai correr bem. Confia."
Mas quando estás a tomar essa decisão, há sempre muitos medos.
São as páginas em branco. Acho que um grande gerador de ansiedade, são não saber o próximo dia, o próximo passo, não haver um guião, não haver uma ementa em que se escolhe muito bem o caminho que queremos. Uma ementa, não, um livro de receitas, era o que eu queria dizer.
É, por isso é que nós somos a geração ansiosa, que vivemos constantemente aqui sem saber qual é o futuro e a ansiar, tentar descobrir pequenas coisas que nos digam qual é o caminho.
Acho que não é fácil. E acho que as redes sociais também tornam isso um bocadinho difícil. Gera muita ansiedade, a comparação, olharmos para os outros, estão melhores, estão piores, ou estão iguais, mas seguiram outro caminho. Acho que gera sempre ansiedade. E tem coisas muito boas. Eu não gosto de acreditar que as redes sociais só trazem coisas más, acho que não é verdade. Para mim, trouxeram coisas maravilhosas, trouxeram visibilidade, e eu poder partilhar com o mundo um bocadinho da minha cabeça, minhas escolhas, mais ou menos aceites por toda a gente. Foram escolhas diferentes, efetivamente. Ir para o Alasca é uma escolha diferente. Fazer esta viagem de Estados Unidos também é uma escolha que muita gente não consegue bem perceber, tipo: "Mas por quê? Por que queres viajar às boleias? Por que escolher este modo tão primal ou básico de viajar quando se calhar já estou numa idade onde poderia não o fazer." E poderia não o fazer.
Mas tu buscas constantemente o desconforto, não é? É muito por aí que tu sentes que precisas de procurar estas viagens.
Claro que a busca pelo desconforto é uma constante minha, mas estas viagens exigem uma espécie de um peregrinismo básico, que obviamente que é desconfortável. Peregrinismo não existe, essa palavra não existe. Peregrinismo significa estrangeirismo, mas é preciso tornar-nos peregrinos no sentido de rejeitar o conforto, rejeitar as comodidades, rejeitar um hotel bom, um restaurante bom, ou seja, assumirmos que vamos voltar ao básico. Com o que conseguimos viver durante um mês? Com quão pouco conseguimos viver durante um mês? Porque eu acho que é aí que estão muitas das respostas também da nossa vida. Eu acho que há verdades sobre nós que nós vamos conseguir buscar quando somos este peregrino. Um peregrino também não vai para um hotel de cinco estrelas quando faz a viagem. Por exemplo, os caminhos de Santiago é uma vida básica. Básica no sentido de basilar, básica no sentido de falta de condições de luxo.
Tu não achas que o desporto te traz um bocadinho disso, de rejeitar o conformismo?
Não, acho que traz a busca pelo desconforto. Acho que é completamente diferente e igual. Ou seja, tem muitas coisas diferentes e iguais. Acho que a parte do quem é que eu sou no meu absoluto desconforto, numa posição extremamente desconfortável, numa posição vulnerável, numa posição onde eu não precisava de estar, porque é um desconforto autoimposto, que é estranho. Um alien vinha à Terra e ia dizer: "Estes caras são malucos, estes caras são marados."
Metes tudo à tua disposição e vais escolher.
Tem gajos a escolher correr maratonas e pessoas a escolher viver numa tenda durante um mês. Era o alien dizia: "Esses gajos são marados da pinha, vamos já embora." Mas eu acho que é essa base que depois, quando voltamos para os confortos da nossa vida, e eu aqui vivo com todo o conforto, vivo numa cama normal, não vivo no chão, tenho um carro normal, ligo o ar-condicionado quando estou desconfortável.
Ia te perguntar essa.
Eu gosto do conforto. Eu acho que não há problema nenhum em aceitá-lo. Tem é de ser nas fases certas, nas proporções certas e, acima de tudo, não pode ser num estado onde a rejeição pelo desconforto é total. Ou seja, eu não posso ir constantemente à procura do conforto, rejeitando totalmente o desconforto, porque aí vai ser muito difícil eu ter algum tipo de transformação na nossa vida.
E por que é nesta fase da tua vida que te fez sentir esta viagem?
Porque é a fase onde eu estou, não sei.
Mas tu já tinhas pensado nela?
Acho que, sem dúvida. Eu penso nisto desde os meus 18 anos. Acho que era muito novo. O sonho de Alasca, Canadá, apareceu muito cedo na minha vida, desde que comecei a adorar a natureza. Quando comecei a montar a viagem do Canadá e do Alasca, sabia que queria fazer desde a fronteira do México ao Alasca, atravessar os Estados Unidos. Eu sempre tive um grande fascínio pela América do Norte como um todo, desde os Estados Unidos, ou seja, Lower 48, que são os estados dos Estados Unidos. E todo o Canadá, Alasca, tudo aquilo fascina-me bastante. Mas depois percebi que era muito caro, não podia ficar muito tempo sem trabalhar, ou seja, isto ia envolver cinco meses de viagem, acho que ia ser muito tempo, muito dinheiro, e não fazia muito sentido. Por acaso, acho que com dois meses eu conseguiria chegar lá cima, mas não era a mesma viagem. Muito rápida, coisas sem grande valor acrescentado. Também é preciso ter tempo nos sítios para deixar as ideias absorverem. E eu tive que ficar com a ideia a meio. Não consegui começar no México, tive que começar em Vancouver, na fronteira do Canadá, chegar ao Alasca. Mas fiquei sempre um bocadinho com essa atravessada de isso ainda não acabou, há aqui alguma coisa que ainda preciso fechar, há aqui um projeto que ainda preciso fechar. E enchi-me de coragem e pensei: "Ok, por que não este ano?" Respondendo se é o timing certo ou timing errado, eu acho que se me focar demasiado nisso, muitas vezes não saímos do lugar, porque eu não sei se este é o timing certo. Se calhar não era. Se calhar o timing certo era ficar aqui focado em estudar mais, projeto, trabalho. Por muito que adore o que faço, se calhar esse era o caminho certo pro timing onde estou. Só daqui a 20 ou 30 anos é que eu vou conseguir responder isso.
Ou não vais saber.
Ou nunca vou saber. Eu nunca vou conseguir perceber qual que era o outro cenário que não o que eu tomei. Agora, o que eu posso dizer é que isto foi o melhor outcome que eu podia ter pro cenário que eu construí. Ou seja, voltei, minha equipa está focada, estou a adorar o que faço. Tenho uma visibilidade que também me orgulho, que me permite mostrar um bocadinho ao mundo como é a minha vida. Brincar, isso é uma arma hoje em dia.
Sentiste muito impacto com esta viagem também, não?
Senti imenso. Fiquei completamente baralhado outra vez. Cada vez que eu falo, penso: "Será que estou a dizer disparates?" E digo muitos disparates. Depois às tantas desisti só de pensar nisso. Não deixei que esse loophole me consumisse e pensei: "Vou falar como se tivéssemos amigos chegados." E hoje em dia não me estressa ter mais ou menos seguidores, mais ou menos visibilidade, não me dá ansiedade nenhuma. Tenho a visibilidade que tenho e isso construiu-se com estas decisões de vida que acabei por ter. E no limite, vou continuar a ter decisões de vida que vão dar mais ou menos visibilidade, mas vou esperar sempre que isso não seja um driver de ansiedade e seja só um driver que me catapulte a novos projetos, novas coisas.
Mostrar mais de ti, né, e novas oportunidades.
Sem dúvida. Marca pessoal hoje em dia, quer queiramos, quer não, é uma coisa importante.
Superimportante.
Quer trabalhemos ou não. Tu que digas, tens um podcast, tens uma rede e uma legião de seguidores enorme, percebes o impacto e a importância que isso tem.
Abre-te portas pra tu depois fazeres tudo aquilo que tu quiseres. E tu decidiste na mesma fazer esta viagem sozinho ou pensaste em levar alguém?
Não. Enquanto na outra ainda falei com um, dois amigos se queria fazer esta viagem com eles, nesta foi mesmo: "Não, this is my time."
A tua cena.
Porque eu percebi o impacto que tem uma viagem a solo. E foi giro porque eu cheguei desta viagem dos Estados Unidos, e depois podemos falar sobre momentos giros da viagem, etc.
Sim.
Mas ainda sobre o impacto que tem uma viagem sozinho ou solitário, ou o que lhe queiramos chamar. Acho que quando viajamos em amigos, que eu fiz uma viagem com amigos, literalmente passado duas semanas, portanto, foi uma transição gira perceber o que é uma viagem e o que é que é outra. E eu acho que quando se viaja sozinho ou quando se viaja com amigos, começando com a viagem que é o mais convencional, nós estamos a viajar para os amigos, nós estamos a viajar pra dentro.
A criar memórias com eles.
Sim, e não está certo nem está errado. É o que é, é ótimo, é incrível. Adoro viajar em amigos, com o grupo certo, obviamente. São sempre viagens onde há muitas decisões, pode haver muito atrito, mas são sempre viagens ótimas, muito giras. Não sei se são transformadoras, mas nem todas as viagens precisam ser transformadoras, porque é uma viagem que está muito virada pra dentro. Eu estive na Albânia uma semana com os meus amigos. Portanto, o que eu vi, de fato, da Albânia? Pouca coisa. Tive mais tempo à conversa com os meus amigos, ir almoçar fora, jantar fora.
Também é superimportante, que os dias que temos é aquele momento em que estás ali pra eles.
É excelente, e não tens responsabilidade nem de trabalho, nem de estresse. Estás só com o teu grupo, fazer coisas giras, divertidas, criar planos divertidos. Portanto, viajar com amigos é brutal, mas efetivamente viajas pra dentro do grupo. E viajar em solitário ou viajar sozinho, olhas pra fora, estás sempre a olhar pra fora. E se conseguires fazer este exercício com força suficiente, estás tão a olhar pra fora que começas a olhar de fora e ver-te a ti próprio naquele ambiente. E se calhar em um, dois dias não chega, porque ir ao porto almoçar não me chega pra ter esta perspectiva de outside spectator. Não sei como é que lhe poderemos chamar. Mas quando estamos há dias suficientes numa viagem destas e absorvidos completamente na viagem, não só estamos a olhar pra fora, como estamos a olhar de fora também pra nós naquele envolvimento. E é como se, eu já disse algumas vezes, inclusive, a se calhar, aqui na última conversa que tivemos há dois anos, mas é como se nos tornássemos, de alguma forma, parte da mobília, da sala, da paisagem. Nós somos aquilo, nós somos o café, nós somos a montanha, nós somos a natureza, porque a distinção ou o gap entre a natureza e o homem não existe, somos nós que o colocamos. Nós sempre fizemos parte da natureza e sempre vamos fazer, quer vivemos numa cidade, quer vivemos numa aldeia, quer vivemos no meio de uma gruta, no meio de uma montanha. Nós fazemos parte da natureza. E estar sozinho, nós somos a montanha, nós somos o rio, nós somos o café, e é giro, é muito giro.
Percebes o quão pequenino tu és também.
Sem dúvida.
Ficaste muito sozinho nesta viagem?
Não. Na outra senti-me imenso e batalhei imenso com a solidão.
Eu não te conheço muito bem, mas daquilo que passaste, senti-te muito mais leve.
Muito mais.
Muito mais.
Por várias razões.
Não sei.
Acho que trabalhei muito mais, muito mais eu, muito mais leve.
Sem amarras.
Leve é a palavra certa. A outra foi muito dura. Foi muito transformadora, foi ótima nesse aspecto, aprendi muito sobre mim próprio, mas eu acho que se calhar não tinha a maturidade, nem a idade certa pra fazer a viagem que fiz. Aquilo mandou-me ao chão, aquilo rebentou-me. E eu não sabia disso. Eu achava que isso ia ser uma viagem gira, ver paisagens e natureza, e o Alasca, e ursos, e cabanas. E a verdade é que batalhei constantemente com a minha própria cabeça e com a solidão. Nesta eu já sabia com o que contar, já estou mais maduro, já sei o que esse tipo de viagens obriga e, acima de tudo, acho que fiz uma coisa muito melhor do que na última, que foi trabalhar o regresso. Enquanto que na última, o meu crash foi quando cheguei Em que estava completamente desamparado, baralhado, não sabia para onde me virar. Do nada, a minha viagem do Alasca ficou midiática e fui a podcasts, incluindo o teu, e artigos, e jornais, e televisão. E uma semana antes estava sozinho numa cabana no Alasca. Acho que tudo isto foi tão confuso que fiquei completamente desamparado. Portanto, eu acho que não trabalhei o regresso com muita força. Eu acho que quando se faz uma viagem destas, e este é o melhor conselho que eu consigo dar para uma pessoa que queira fazer uma viagem longa, transformadora, peregrina, neste sentido de quem é que eu sou, quem é que eu quero ser, o que eu quero da vida, é mais do que trabalhar a viagem, mais saber qual é o caminho que quero seguir, quais são os templos que quero ir, se for para o Sudeste Asiático, que paisagens, que praias. Mais que isso tudo, é trabalhar o regresso, porque o regresso existe e o regresso é inevitável. A não ser que queiramos sempre fugir, o regresso é completamente inevitável. E se não trabalharmos bem o nosso regresso, esta viagem pode ser não só inútil, como pior ainda. Ainda nos pode mandar mais ao charco, ainda nos pode mandar mais para baixo, ainda nos pode fazer querer fugir ainda mais. Eu sou tremendo, eu adoro clichês. Sou uma pessoa de clichês. Os meus amigos gozam comigo, eu sou uma pessoa de clichês. Mas eu gosto de ver a vida como um jardim, que nós temos de cuidar. E a viagem tem de ter uma característica e tem de ter um propósito muito específico para o nosso jardim. Portanto, a nossa vida é o nosso jardim. Tenho de o podar todos os dias, tenho de o regar, tenho de semear, tenho de fazer uma data de coisas. É uma horta, é um jardim, uma analogia semelhante. E as viagens devem ser, na minha perspetiva, numa lógica de: "Ok, deixa-me ir ver o jardim dos outros, deixa-me ir aprender com eles, deixa-me ir ver que ferramentas usam, deixa-me ir olhar para novas perspetivas, sem lentes, sem julgar, sem as minhas perspetivas. Deixa-me ir olhar, deixa-me ficar cinco horas a olhar e perceber o que eu consigo trazer na minha mochila, mais do que uma tenda suja e uma camisa para lavar. O que eu consigo trazer na minha mochila para o meu jardim, para a minha vida?" E eu acho que é isto. Trazemos novas ferramentas, trazemos novas sementes, novas formas de podar.
Mas tu não achas que, se calhar, a primeira viagem que fizeste um bocadinho a fugir mais da tua vida, porque não estavas assim tão satisfeito e tão alinhado com o que estavas a fazer profissionalmente, que agora, como já te encontraste, já vais de uma forma mais leve, porque já sabes que quando chegares, já tens a vida estruturada e a vida que tu idealizaste.
Sim, completamente. E eu não tinha noção disso. Eu achava que quando estava a viajar, na última viagem que fiz, foi: "Não, eu estou completamente alinhado com a vida que tenho, e o meu propósito fui eu que montei, é exatamente isto." E não, depois de muito trabalho aqui em Lisboa, nestes últimos 24 meses, foi acima de tudo perceber que eu claramente estava perdido e a tentar encontrar alguma coisa no outro lado. Mas ainda na analogia do jardim ou da horta, nós não estarmos com uma vida satisfeita aqui em Lisboa, neste caso, que é o meu caso, é como se olharmos para uma horta que odiamos, nós vamos viajar, vamos voltar, o que vai acontecer? A horta ainda vai estar pior. Vai estar com mais ervas daninhas.
Está ali na mesma. O problema está lá.
Está pior ainda. Os problemas estão lá, os ratos estão lá, as ervas daninhas estão lá, as sementes estão podres. E eu acho que é a forma errada de viajar. Tem de haver ou um push ou um pull.
Mas tu não achas que precisavas de ter feito essa viagem para também dar esse passo, passar três meses. Se calhar, se não tivesses feito essa viagem, não tinhas tido coragem de te despedir e passar três meses.
Se calhar ia demorar mais, mas acho que eventualmente ia perceber que o meu caminho não era aquele. Se calhar ia demorar um bocadinho mais. Aquilo foi só um acelerador de carreira, de alguma forma. Estranho, mas foi. Como é que uma viagem pode ser um acelerador de carreira? Mas claramente que foi. E acho que chegaria lá na mesma, se calhar um bocadinho mais tarde, se calhar noutros moldes, noutros formatos, mas chegaria lá na mesma, acho eu.
E o que esta te trouxe?
Trouxe-me 70 boleias e centenas de pessoas com quem conversei.
Tanta boleia, meu Deus!
Uma loucura. Enquanto que no Alasca tu apanhas uma boleia...
Foi quanto tempo, um mês?
Foi um mês. Foi metade do tempo e o dobro das boleias.
Jesus, era duas, três por dia?
Eram sete por dia, às vezes. E o desgaste emocional, e atenção, eu adorei, sou muito grato por todas as pessoas que me deram boleia, mas é estupidamente desgastante repetir a mesma história sete vezes. Ainda por cima, com entusiasmo. Repara, quando nós recebemos uma boleia, nós temos que perceber que a pessoa que nos está a dar boleia, o driver, como é que se diz driver em português?
Condutor.
Condutor, que estupidez. Isto é o estresse das câmaras. O condutor está a abdicar da sua segurança e do seu conforto. Eu posso ser maluco, eu posso querer matá-lo. Ele está a abdicar disso e está a abdicar do conforto de ter uma viagem tranquila, não precisa de ir falar com ninguém. Portanto, o mínimo que eu tenho de entregar àquela viagem é entregar valor, é garantir que aquela viagem vai ser melhor do que se fosse sozinho. É a minha forma de retribuir. A tua viagem tem de ser melhor comigo que sem mim, porque senão, não é justo. Pronto. E é uma espécie de moeda que eu consigo pagar. Mas isso é muito desgastante. Ser simpático, educado, contar histórias, perguntar sobre a outra pessoa, acrescentar valor à conversa que a pessoa nos está a trazer. Quando é uma pessoa mais calada e nós estamos calados há uns minutos, ou 20 minutos, é tipo: "Já não sei o que dizer, não tenho nada a dizer." Porque há pessoas que não dá para estar aí conversa.
E depois é muito tempo de viagem, não é?
E às vezes era uma hora, duas horas. É tipo: "Fogo, já não tenho nada para dizer." Mas às vezes também há que perceber e ler um bocadinho a sala. Se calhar, às vezes é só para ouvir silêncio. E pronto, acho que é importante ler a sala. Se a pessoa está Puxar conversa, pedir conversa, dar tudo aquilo que conseguimos. Se a pessoa está a pedir só espaço, ouvir música, ter uma viagem tranquila, mas comigo, ok, também vamos dar isso, não vamos tornar aquilo também chato. Lá está, a regra número um é: como é que eu consigo acrescentar valor àquela viagem? Como é que eu consigo gerar valor? E 70 boleias é muito desgastante.
E achas que eles estão habituados a isso?
Não.
Não?
Muito poucos. Só houve um que me disse.
Como é que reagiam? A primeira interação, como é que era?
Primeiro, demorava imenso a receber boleias.
Eu vi que ficaste horas e horas.
Houve um dia que cheguei ao meio-dia a uma vila no meio do Wyoming, sem absolutamente ninguém. É uma vila de oil and gas, aquilo tem petróleo, tem gás natural, etc. Mas é uma vila com 50 habitantes e todos eles ou são caminhonistas ou trabalham na petrolífera. Não é uma vila comercial, não é uma vila turística. E são pessoas mais suspeitas, não são tão abertas para fora. E portanto, azarado dou por mim, é meio-dia, estou na aldeia de Bags, Wyoming. Passou uma hora, duas horas, três horas, quatro horas.
Mas tu ficavas com o quê? Com o cartaz ali?
Passaram sete horas, eu ainda não tinha cartaz, era só dedo na estrada. E passaram sete horas, e eu não consegui boleia. Acho que foi o dia mais desgastante da minha vida, da minha viagem, desculpa. Esse foi muito duro, esse foi o meu low. Saber que estou há oito horas na estrada.
Mas não passavam carros ou não paravam?
Passavam, passavam caminhões, passavam alguns carros e ninguém parava. Achavam que eu era sem-abrigo ou eram pessoas um bocadinho mais suspeitas hoje em dia, ou um bocadinho mais desconfiadas do que há uns anos, do que nos anos 80, nos anos 70, nos anos 90, onde isto era uma coisa mais convencional. Hoje em dia não é, as pessoas têm mais medo. E esse medo não há nada plausível que traga esse medo. É só a informação corre muito mais depressa, os media estão muito mais eficientes. Há uma morte em Trás-os-Montes, tu daqui a cinco minutos consegues ler isso no teu telefone. Portanto, o sentido de urgência que nós temos é enorme. Nós estamos constantemente a achar que o mundo está em falência, e não é verdade, de todo. Não é mesmo verdade, é preciso dissecar as más notícias.
O livro "Factfulness"?
Sim, por exemplo, eu não li esse livro, mas já o folheei e é um bom exemplo disso. Se tu quiseres montar um gráfico catastrófico, tu vais montar um gráfico catastrófico focando nas coisas erradas ou focando nas coisas que dão mais jeito para o mediatismo. Portanto, acho que os media trouxeram muito medo, de forma geral, as pessoas têm medo.
Mas tu não tiveste medo?
Tive, imenso, no New Mexico. Tive bastante medo no New Mexico.
Mais das boleias?
Sim. Ou seja, não foi de forma generalizada, foi numa ou duas boleias. Eu acho que eu tinha esta missão de fazer border to border, portanto fronteira do México à fronteira do Canadá.
E tu tinhas os sítios definidos que querias passar?
Tinha uma linha condutora, mas aberta, genérica. Sabia exatamente o que é que queria nalguns sítios. Eu queria ir a Yellowstone, queria ir a Grand Teton National Park, queria acabar em Montana, em Glacier National Park, que é no norte de Montana. Eu tinha assim uns highlights que eram non-negotiables, mas tirando isso, estou um bocadinho à deriva e a perceber por onde é que a viagem me leva.
Sim, se havia pessoas que queriam ir para outros sítios, que eram próximos, tu...
Eu dizia: "Ok, deixa-me onde for, no limite deixas-me no meio da estrada e depois eu arranjo maneira de ir para outros sítios que tu não precisas." Aliás, era assim que funcionava, por isso é que eu precisei de tantas boleias, é porque há muito mais pessoas nos Estados Unidos do que no Alasca. No Alasca, uma boleia, são cinco horas. Ali era: "Olha, eu vou até à próxima vila, que é 25 minutos. Queres?" "Eu quero." É uma chatice, mas quero. Agora, 25 minutos depois, uma hora na estrada à espera. Lá param. "Olha, vou para a aldeia que é daqui a 50 km. Queres?" "Epá, 50 km é imenso, claro que quero, bora, vai." Portanto, andava sempre ali aos S, por isso é que às vezes eram sete boleias por dia. Mas estávamos a falar sobre se tive medo ou se não tive. Acho que houve coisas que faria diferentes nesta viagem. A regra número um desta viagem é: eu não posso morrer. Eu não posso dar isso à minha família. Eu prometi-lhes, isto já é estressante o suficiente, por exemplo, para a minha mãe, que não merece este estresse, não merece que eu lhe dê isto. Deu-me tudo o que eu sempre quis. Nunca tive falta de nada em casa, felizmente. E agora, de repente, aos 28 anos, ou aos 26, como há dois anos, dou-lhe estas viagens estressantes. Há um lado egoísta nisto. E é uma coisa que a minha mãe está inteirada, eu também, já foi falado em família.
É um tema. Eu vi que tu fizeste uma apresentação para a tua família.
Claro!
Épica.
Partindo do pressuposto que isto é uma viagem egoísta.
Estás consciente disso.
Estou consciente disso, tenho de reduzir ao máximo o estresse.
O desconforto deles.
Tenho que estar sempre comunicável. Tenho que lhes mostrar que estou num sítio seguro, mesmo quando não estou. Tenho de dizer-lhes por onde vou passar no dia seguinte. Tenho que dizer se me vou afastar e se vou para as montanhas durante dois ou três dias, para eles não estarem estressados. Acho que é o mínimo que eu consigo fazer. Lá está, são os non-negotiables. Mas voltando atrás, fazendo esta viagem border to border, eu decidi começar em El Paso, que é no Texas. Portanto, eu não comecei no New Mexico, eu comecei no Texas, que era a 50 milhas ou 70 km de New Mexico. E voltando atrás, não começaria. Isto é uma cidade bastante perigosa, é colada à cidade de Juárez, que é uma cidade no México, portanto, isto é uma zona muito tensa, onde temos literalmente uma fronteira física, feita por Trump, uma fronteira física em que do lado temos cidade Juárez, muito criminosa, taxas de criminalidades altíssimas. Nem os mexicanos que vivem do lado de El Paso, que é Estados Unidos, hoje em dia vão à cidade de Juárez, muito menos depois do sol se pôr. Eu recebi boleias e conversei com alguns mexicanos, tanto no New Mexico como ainda no Texas, que me disseram que desde há cinco Cinco, 10 anos, as coisas estão muito perigosas daquele lado e há muita tensão, tanto nas duas cidades, tanto em El Paso como na cidade de Juárez, há muita tensão no ar e é uma zona perigosa. E eu, na minha ingenuidade, li um bocadinho sobre as coisas, mas não achei que fosse um sítio assim tão perigoso quanto isso. Eu fiz as coisas bem, fui para a estrada, mostrasse que era uma pessoa educada, minimamente apresentável, para não me confundirem com um imigrante ilegal, por exemplo. E para além de ter demorado muito tempo a receber uma boleia, porque as pessoas são, de facto, muito-
Fechadas.
Sim, e desconfiadas. Muito desconfiadas, porque há imigrantes ilegais, o ICE está lá em força. O ICE está lá a ir buscar mexicanos que são legais. Não está ideal nesta fase da vida, principalmente nos Estados Unidos, estas zonas um bocadinho mais tensas, estes hotspots.
Estão em superalerta.
E acima de tudo, que é o pior problema que há, é o cartel está lá em massa, o cartel mexicano, tanta droga que passa da cidade de Juárez para El Paso, está em peso em El Paso. E a meio da minha viagem, por acaso li uma notícia e um que me deu boleia disse: "Tu começaste em El Paso. Isso foi bastante mais perigoso do que tu estás a imaginar. Há dois anos o cartel enforcou um branco," porque o cartel é mexicano. "O cartel enforcou um branco só para mostrar à polícia quem é que manda ali, numa ponte no meio de El Paso." Sim. É tenso. Era uma cidade tensa. Eu adorei sair daquela cidade.
Mas essas boleias como é que correram?
A primeira boleia que recebi, não sei se viste, mas foi aquela boleia de um mexicano que me começou a elogiar os olhos.
Que estava a fazer a ti.
Sim, foi um assédio, e para onde é que isto está a caminhar. Claramente assédio. Não assédio grave, não aconteceu nada, porque pedi-lhe, de uma forma um bocadinho nada mais insistente, que me deixasse no meio da estrada.
Não fizeste a boleia até ao fim?
Não. Assim que me começou a fazer perguntas esquisitas sobre partes do meu corpo e a tentar tocar-me na perna e a dizer que as minhas pernas são lindas e os meus olhos são lindos e a insistir que eu dormisse em casa dele, que já estava a ficar tarde, que eram 10:00 p.m. De repente, eu não consegui boleias. Só consegui boleia tardíssimos, o sol tinha-se posto. E de repente, dou por mim subúrbios de El Paso, com um mexicano a fazer perguntas estranhas e a perguntar se eu não quero dormir em casa dele e eu a ficar no meio da estrada. Ele deixou-me no meio da estrada e dou por mim, estou nos subúrbios de El Paso às 10:00 p.m., sem sítio marcado para dormir. Isto foi literalmente a primeira noite. Portanto, o início foi tenso, foi muito tenso. Estava com muito medo de acampar no meio do deserto ao lado de El Paso, porque as rotas da droga não são no meio da cidade, são no deserto próximo. No deserto ali nas redondezas de El Paso. Portanto, foi muito perigoso. Quer dizer, sim, acho que foi bastante perigoso e honestamente, não repetiria.
Se calhar é um bocado inconsciente. Não tinhas bem noção.
Não, inconsciente, certo, porque não tinha a consciência que ia ser tão perigoso e sketchy. Assim que cheguei ao New Mexico, foi impecável, foi ótimo. Tive de rejeitar uma ou duas boleias um bocadinho mais sketchy também. Lá está, eu obviamente que quero respeitar toda a gente e quero ser educado com toda a gente e quero ser inclusivo ao ponto de ninguém se sentir desconfortável ao meu lado e ao pé de mim, mas mais importante que a inclusão é garantir a minha sobrevivência.
Claro.
A minha regra número um é: a minha mãe não me vai enterrar um filho. Não vai enterrar um filho, porque eu quis dizer que todas as pessoas são iguais e todas as pessoas merecem uma oportunidade. E apanhei uma boleia de um mexicano, dois mexicanos, na verdade, em que um deles sai do lugar do pendura e vai para o lugar de trás do pendura, para eu ir para a frente, com uma cara muito dura os dois, tatuagens de gangues na cara, os dois todos tatuados da cabeça aos pés. Não é as tatuagens, mas é todo aquele ar, a conversa, não houve um sorriso.
Os olhares, às vezes tu consegues ver a forma como eles te olham.
O olhar para mim com olhar de: "bora, entra no carro, depois já falamos." E era uma viagem de três horas. Portanto, eu aí rejeitei.
Tu já pensaste que se fosses uma mulher nunca na vida podias fazer uma viagem destas?
Era bastante mais perigoso.
Mesmo em Portugal, vocês se calhar não têm noção, mas nós temos pequenas coisas. Imagina, apanho um Uber.
Tu pensas nisso?
Eu penso nisso. Eu não me vou sentar no lugar, eu sento-me no lugar atrás do condutor.
De costas para o carro?
É.
A sério?
Há pequenas coisas que nós fazemos que vocês não têm noção.
Há coisas que nos escapam completamente. E acho que agora respeito ainda mais. Sempre respeitei, obviamente, mas acho que agora ainda respeito mais isso. Por exemplo, este mexicano, eu mandei-lhe um berro um bocadinho nada mais forte, ele deixou-me no meio da estrada, por muito inseguro que seja aquele subúrbio de El Paso, pelo menos ele abandonou-me. Se fosse uma mulher, se calhar não era assim.
Se calhar não tinham sido só duas boleias desconfortáveis. É isso que eu estou a dizer.
Sim, sem dúvida.
Porque uma mulher passa desconforto só a andar na rua.
Sim.
Só com piropos aleatórios, percebes?
Eu consigo perfeitamente ver isso, não sinto na pele.
Claro.
E quando recebo um piropo, até gosto, tipo, nice, estou num bom dia. Mas é porque são piropos easy e sei que nunca me vão trazer nada de mal.
Não, é que tu estás a comentar a tua viagem, eu fico ansiosa de me imaginar nisso. Impossível.
Não, eu próprio pensei nisso. Se isso fosse uma mulher, de facto, era muito tenso.
Mas como é que era o teu dia a dia?
Existem mulheres que fazem viagens de boleia.
Mas se calhar são muito mais preparadasPrecavidas, não vão fazer esse erro que tu fizeste de começarem em sítios mais perigosos.
Sim, no New Mexico, eu, por exemplo, falei por Facebook com uma miúda do New Mexico, que vive lá, num grupo de Facebook que há de um trilho que se chama Continental Divide Trail, e ela também está neste grupo e eu fiz perguntas para este grupo de: "Olha, como é o trilho? Está muito calor no New Mexico, vai haver água ou não vai? Vocês fizeram isto agora?" E ela disse: "Olha, estás a andar às boleias", mandou-me por chat. "Eu também ando sempre às boleias, eu sou aqui do New Mexico, vais adorar", etc. E ela nunca teve uma má experiência. Agora, há várias coisas, que é: ela é da casa, já sabe o que fazer. Por outro lado, eles são sempre armados, portanto, eu não tenho dúvida, ou pelo menos não me chocava nada que ela também andasse armada. Portanto, torna a coisa mais segura, não é? Se tu és uma mulher, mas apontas um revólver à cara de um mexicano ou de alguém.
Se o mexicano também tem um para te apontar, de repente.
Sim, eu não deixaria uma filha minha fazer isto. Quer isto seja uma frase inclusiva ou exclusiva, ou seja machista, eu não deixaria uma filha fazer isto, acho eu. Pelo menos ainda não. Se calhar daqui a 20 ou 30 anos, porque acho que, de facto, pode ser perigoso.
E não tens consciência de nem metade daquilo que as mulheres passam, mesmo estando em Portugal.
Pois, não tenho, passo um bocadinho ao lado. O máximo que posso fazer é: ao pé de mim, pelo menos, vão sentir sempre seguras. Nunca fiz, nem espero nunca fazer algo que deixe uma mulher desconfortável.
E também apontar o dedo quando vêes coisas a acontecer. Isso também é superimportante do lado dos homens. Muitas vezes não acontece.
Talvez. Teria de pensar, teria de estar um bocadinho cérebro a pensar.
Mas voltando às tuas boleias.
Mas sem dúvida que esse é o tema.
Queria te perguntar como é que era o teu dia a dia, tipo era acordar, pensar logo que boleia que vou apanhar, como é que era?
Isso, ou seja, eu tinha um plano, tipo um master plan, que sei exatamente o que é que tenho de fazer nos próximos dias.
Tinhas de andar X quilómetros por dia, mais ou menos?
Sim. Ou seja, no dia anterior eu já sabia exatamente onde é que queria chegar no dia seguinte. E se não conseguisse, pronto, não conseguia, é a vida, no dia a seguir há um novo dia, mas sabia exatamente qual é que era o meu plano do dia seguinte, para não acordar e pensar: "O que eu vou fazer agora?"
Tinhas voo de regresso comprado?
Tinha. Portanto, essas eram as minhas duas únicas máximas da vida, que é: eu vou voar no dia 6 de julho e vou voar no dia 6 de agosto, 3 mil quilómetros acima.
E no meio, não vou morrer.
E depois há aqui uma mancha de uma incógnita grande durante o mês, que tenho que chegar lá acima de alguma forma. Portanto, era as minhas duas únicas máximas, de alguma forma eu tenho que chegar ali, que o dia 6 de agosto eu tenho um voo de Billings. E isto foi tão ao detalhe, que a minha última boleia foi deixar-me no aeroporto uma hora e meia antes do voo. Portanto, isto foi o mais perfeito ao detalhe.
Mas se calhar até foi bom teres esse voo para teres essa guideline.
Tinha de ser.
Para teres esse: "Ok, tenho de andar, tenho de andar à perna."
É isso. Ou seja, acho que sempre que eu fizer este tipo de viagens, eu honestamente acho que vou querer fazer mais vezes estas viagens, porque são ótimas, são giras, conheces tanta gente nova. Há uma magia muito grande em andar às boleias, mas podemos já explorar essa parte. Mas eu quero sempre fazer, vou de ida e vou de regresso. Porque senão fico um bocado baralhado, tipo, posso ficar aqui mais dias, não posso, não sei.
Às vezes até é um plano. Dentro daquilo que não consegues controlar, tu controlas.
Eu preciso de números, estás a perceber? Sou engenheiro mecânico de formação, trabalhei numa consultora que é só números e agora a minha vida também hoje em dia é muito números.
Os treinos também é planos, é números.
Ou seja, eu preciso de um plano. Eu preciso de dia de ida e dia de regresso. E um plano mais ou menos, por mais genérico, alto nível ou ao detalhe, preciso ter um plano mais ou menos definido. E pronto, até essa era a minha máxima. Dia 6 de agosto eu tenho que estar a voar de Billings para Lisboa.
Então com base nisso, eu tenho que andar X quilómetros.
Sim, e depois é fazer aqui uma regressão, um backward inaction, que é tipo, ok, dia 6 de agosto. Então no dia 4 de agosto tenho que estar a sair de Glacier National Park. Ok, dia 4 de agosto quero estar três ou quatro dias, portanto, tenho de entrar em Glacier National Park três dias antes. Ok, três dias antes, então tenho de chegar a Montana um dia antes, porque eu não quero fazer nada em Montana sem ser o Glacier National Park. Portanto, começas a fazer aqui uma regressão e pronto, até o dia de hoje, o que torna mais fácil o plano de hoje. Ok, portanto, com base nisto, o meu plano de hoje é chegar àquele destino. E isto foi feito mais ou menos em Lisboa, este plano geral, mas pronto, lá está, depois a vida acontece.
Claro.
Bags, Wyoming, fiquei dois dias no mesmo sítio. Tentei boleia um dia inteiro, não consegui, só no dia seguinte é que consegui boleia. Se isto estava nos planos? Obviamente que não. Se isto foi um momento baixo da minha viagem? Claramente que sim, porque não há nenhum estímulo, não há nada a girar ali.
E o que é que estavas a fazer nesse tempo? Era tipo escrever?
Música, podcasts. Há que entrar nestas viagens com muito estoicismo, no sentido de aceitar que eu consigo controlar a minha aparência, onde é que eu consigo estar na estrada, a simpatia com que eu mostro-me para os carros, a simpatia com que eu falo com as pessoas ao pé da estrada, que possam estar, etc. Portanto, eu consigo controlar isso. Eu não consigo controlar se as pessoas param ou não. Está fora do meu controle. E aceitar isso, que é uma base do estoicismo, é uma das coisas que se trabalha numa viagem destas, é um dos porquês desta viagem. É aceitar a frustração de eu não conseguir controlar tudo e estar completamente confortável com isso e controlar muito bem a minha cabeça para: "Ok, estou a começar a ter pensamentos negativos. Bora aceitar que estou a começar a ter pensamentos negativos e intrusivos e por que eu estou aqui e estou a odiar isto." E havia muitos momentos que eu estava a odiar esta viagem. Só queria vir para Lisboa e perguntar o que eu estou aqui a fazer. Apanhei um hotel, que foi o hotel mais nojento da minha vida.
Aquele hostel, não é?
Um hostel que era...
Eu vi que tu acabaste por dormir dentro do teu saco-cama.
Eu dormi no meu saco-cama, nem dormi na cama. Uma cama nojenta com manchas amarelas, pelos por todo lado. Eu queria vomitar. Eu, como podes calcular, numa viagem destas, os meus standards são zero. E eu tive quase vontade de ir para a rua. "Eu não consigo estar aqui."
Estavas mal disposto a ver estas stories.
Horrível. Eu sei. Mas as gente dizem assim: "Eu não quero ver isto, para, tirem isto!" E eu: "Não, desculpa, vocês estão aqui nos momentos grandes, também estão de estar aqui nos momentos baixos." Estamos juntos.
Mas tu arranjavas sítio para dormir ou acampavas? Como é que era essa gestão?
Uma mistura dos dois. Também isso fazia parte do meu plano. Por exemplo, quando cheguei a Santa Fé, uma cidade brutal, é a capital do New Mexico. Não é a maior cidade, a maior cidade é Albuquerque, mas no New Mexico tem uma cidade pequenina a norte de Albuquerque, que é Santa Fé. Foi brutal, foi incrível. E aí não havia propriamente um sítio para montar a tenda, porque uma das minhas regras, partindo da regra base, a minha mãe não vai enterrar um filho, eu não vou acampar em cidades. Não vou. Porque há sem-abrigos, há drogados, há crime, que não há na natureza. Na natureza não há crime. Portanto, eu nunca na vida vou acampar numa cidade, se sentir que a cidade é grande o suficiente ou se tem o acesso esquete o suficiente para eu não me sentir confortável.
Aí procuravas hostels.
Procurava um motel, hostels, o que fosse, que era muito caro, mas faz parte do budget da viagem. Foi pensado, foi ponderado no meu budget, portanto está tudo bem.
Pronto, então o teu dia a dia era procurar as boleias e ias visitar os sítios que querias visitar também?
Sim, os national parks que eu queria visitar. Por exemplo, o Grand Teton em Wyoming, era um dos meus spots mais desejados desde o início da viagem, desde Lisboa. Grand Teton é magnífico. Todos os national parks que eu conheci são magníficos, mas o Grand Teton tem uma característica que é flatlands o tempo todo e de repente tens uma massa de montanhas que saem do chão. Já estava aqui a partir o teu estúdio todo. E isso dá um aspeto visual que é uma coisa louca. Portanto, adorei Grand Teton, mas ainda assim acho que o que mais gostei foi Glacier National Park em Montana. Tu imaginas de um filme.
De um filme, é mesmo isso.
É a Montana, aquilo não é um filme, aquilo é a Montana. Tu vais lá e tipo: "Estou num filme. Confere. Estou num filme na Montana, claro." A única coisa que eu não consegui fazer o check da minha checklist, que eu não consegui fazer a cruz, foi ou andar de cavalo ou ir a um rodeo.
A sério?
Ya, rodeo. Fiquei com pena. Eu queria ir a um rodeo no meu último dia, mas em Billings havia, que é a cidade de regresso. O meu objetivo era chegar no dia antes a Billings para conseguir ir a um rodeo.
Desgastes mais em cima.
Mas não consegui chegar literalmente em cima do voo. Foi o que eu disse na minha última boleia que me deu boleia até o aeroporto: "Tive uma chatice, vou ter que cá voltar." Eu tenho um problema grave, que é eu saio muitas vezes da minha última viagem a dizer: "Isso foi a melhor viagem da minha vida."
Sentes que esta foi melhor que a outra?
No sentido de controlar os controláveis e controlar a minha cabeça, controlar o regresso que falámos no início, sem dúvida. Do ponto de vista de magnitude, nem pensar.
Magnitude em que sentido?
Magnitude da viagem, de quão grande ela é, quão grandiosa ela é, quão difícil ela é.
Exigência.
Exigente ela é.
Desafio.
Sim, quão desafiante, grandiosa, tudo isso. A viagem do Alasca será sempre a mais ou das mais difíceis que vou fazer em toda a minha vida. Do ponto de vista de quão incrível foi, de quão transformadora foi, de quanto eu consegui controlar muito bem todos os cenários, a minha cabeça.
De quanto aproveitaste, se calhar, não?
Sim, eu aproveitei quase sempre. Tive muitos momentos de: "Pá, tirem-me daqui, só quero ir para casa, quero estar no meu varão com os meus amigos, é julho, estar na praia, correr com a minha equipa, estar tão bem. Estou num motel nojento, com pelos e só quero fugir." Muitos momentos desses, mas mesmo esses era parar. "Ok, estou em um destes momentos." Identificá-lo, tipo, "ok, estou claramente num momento de low, estou ok com isso, faz parte, todas as viagens vão ter, vou fazer aquilo que me dá prazer neste momento. Não vou pôr grandes expectativas sobre o que tenho para fazer, vou ou ouvir música ou dar uma volta a pé ou pôr um podcast ou escrever. Não vou pôr expectativas, porque sei que estou num momento low e não é tentar passar a todo o custo, mas é deixar que ele saia naturalmente, como se isso fosse um rio. Às vezes tem lama, outras vezes tem água, outras vezes tem lama, outras vezes tem água. E tu tens deixar que a lama passe, não tentar forçar isso, mas tentar perceber que ok, mas a lama vai acabar, todos os projetos maus acabam." Uma das minhas frases de eleição. Uma frase que o meu irmão me disse na minha última viagem, ou melhor, foi uma frase que o meu irmão me disse quando eu entrei em consultoria, tipo: "Olha, Manel, vais começar, isto é uma indústria dura, mas lembra, todos os projetos maus acabam." E curiosamente, eu tenho levado isso para a minha vida. Todos os projetos maus acabam. Quando eu estou numa fase difícil, uma semana dura, uma semana onde eu odeio o que faço, o que quero é voltar para a estabilidade do emprego normal e a ansiedade do próximo dia. Paro e digo: "Não, calma, todos os projetos maus acabam, isto também vai acabar." E nesta viagem, repeti isto muitas vezes. Calma, como o rio que às vezes tem sujidade, outras vezes tem água, todos os projetos maus acabam e está de voltar.
Eu acredito que também podes pôr-te muito como uma ferramenta para também estares bem contigo, em termos mentais. Não sentes falta numa viagem assim?
Sabes que eu achava que ia sentir mais, não senti falta nenhuma.
Tu corres duas vezes.
Corri uma vez e não sei, como estava sempre a andar, como tinha sempre alguma coisa para fazer, não senti falta nenhuma, nem de ir ao ginásio, nem de correr, nem de pedalar. Ou seja, tinha muitas saudades da minha rotina, sem dúvida, de treino, de tudo. Portanto, tinha saudades, mas não tinha vontade de vir correr lá. Estava na minha, estava a curtir, aquilo era a minha viagem, aquilo era o meu documentário Netflix para mim. E até me fez bem, voltei cheio de vontade de começar a treinar. Muitas fases, tu agora corres, que eres uma corredora nata, profissional. Sabes tão bem como eu que há fases que é tipo Igual a estar num motel em Montana, é: "Tirem-me daqui." Correr, às vezes, é tirem-me daqui, isto é horrível, isto é o pior desporto do mundo. Muitas vezes não, felizmente, senão vai fazer outro desporto. Mas como já não estava a correr há tanto tempo, voltei cheio de vontade de treinar, de voltar a ir ao ginásio, comer bem, comer saudável. Lá na América.
Mas como é que foi a alimentação?
À base de breakfast burritos.
Hoje já foste de primeiro.
Não me arrependo absolutamente de nada. Hoje, mal cheguei a Lisboa-
Foste matar a saudade?
...fui comer um e hoje fui comer outro. Breakfast burritos acho que vão ficar para o resto da minha vida, aquilo agora faz parte um bocadinho da minha personalidade. E não me arrependo nada. Se aquilo é saudável? Diria que não muito, mas who's counting?
É um mês, é um mês numa vida.
Para quem é que está a contar? Fogo, tenho 28 anos, está tudo bem, não vou morrer, amanhã não vai cair um braço. Tenho muito tempo para estar saudável.
Mas então viste a fazer outras viagens no futuro, tens assim ideia daquilo que estavas a fazer?
Tenho, tenho muitas ideias, algumas um bocadinho nada mais exigente, algumas numa vertente mais expedicional, de expedição dura, exigente, física, fazer uma grande travessia do Ártico, fazer uma grande travessia de caiaque ou de canoa.
Mais desafios físicos.
Sim, há todo um espectro de viagens que eu quero ir a todas, mas não dá, infelizmente, não há tempo para isso.
E vais fazer um gap de dois anos entre elas?
Ya, e de repente, não sei. Uma vez por ano, era o ideal, mas, por outro lado, não era nada ideal para o que fica cá. Eu preciso de horas aqui em Lisboa. Mas, por outro lado, se eu conseguir, idealmente, arranjar tempo para conseguir fazer uma viagem de um mês por ano, era perfeito. Era uma sweet spot.
E agora, tu consegues manipular a tua vida para que isso aconteça?
Consigo. Ou seja, é muito mais fácil do que trabalhar para uma empresa convencional, nine to five, que todos os anos se eu disser: "Malta, em julho, não precisam de contar comigo." Acho que é mais difícil receber um sim. E é normal, quer dizer, eu estou numa empresa, tenho de colaborar, tenho de acrescentar valor à empresa, é como uma bolha. Eu estou aqui, estou para gerar valor. É uma permuta. Recebo dinheiro, entrego valor à empresa, é assim que funciona. E trabalhando para mim é um bocadinho diferente. Eu posso organizar a minha vida, como tu disseste, para conseguir fazer isto uma vez por ano. Não te consigo dizer se vou conseguir ou não fazer este ano. Adorava, este ano, no próximo ano. Mas adorava e tenho muitas ideias. Lá está, umas um bocadinho nada mais agressivas, de fazer travessias no Ártico, com uma tenda ou com caiaque, etc. Outras, não tanto agressivas do ponto de vista físico e de imersão nos elementos e exposição aos elementos, à montanha, etc. Mas igualmente brutais. E eu estou muito inclinado para o ano, ou daqui a dois, mas idealmente para o ano, fazer uma viagem à Mongólia.
Sério?
Eu tenho um sonho, desde que cheguei do Alasca, foi: eu tenho que fazer esta viagem dos Estados Unidos, tenho que acabar o que está para fazer, mas eu tenho que ir à Mongólia. E o meu plano, logo se vê, se é realizado ou não, mas shoot for the stars, é voar para a Mongólia, ficar lá um mês e comprar dois cavalos numa aldeia a Este e fazer uma travessia de Este até Oeste, portanto, atravessar a Mongólia toda e vender ou dar-
Uma travessia em cavalos?
Sim, atravessar a cavalo.
Já andaste a cavalo?
Não. Se calhar. Não, mentira, desculpa. No sexto ano-
Se calhar quando fores para aí, vai ali àquela porta.
No sexto ano, eu fui um cavaleiro durante uma semana, que a minha mãe pôs-me num ATL, e eu acho que tive jeito.
Fui um cavaleiro. Muito bom.
Eu fui. Acho que correu-me muito bem no sexto ano. Eu acho que tinha ali um potencial que depois não foi explorado. Tenho de dar na cabeça à minha mãe. Se calhar, hoje em dia, podia ser um cavaleiro brutal. Mas agora na Mongólia, se calhar, vou voltar a trazer as minhas raízes de cavaleiro.
Vais descobrir aí uma paixão.
Se eu alguma vez montei sem ser no sexto ano, who's counting? Vai dar certo, tenho de aprender, tenho de manifestar.
Muito bom.
E no YouTube tem um monte de coisas.
E em termos de, só para fecharmos aqui, em termos de objetivos que tenhas agora antes de fazeres outras viagens, vais focar em projeto, tens objetivos desportivos?
Pessoais?
Sim.
Tinha agora para novembro, mas continuo lesionado, eu estou lesionado do pé, portanto, está a ser difícil meter algum volume de corrida. Quero voltar a sentar-me e perceber o que eu quero fazer no calendário de 2027, de provas. Por exemplo, este ano não fiz nenhuma prova de Ironman. Foi o primeiro ano. Já fiz quatro Ironmans e foram quatro Ironmans em quatro anos. Este seria o quinto ano, quinto Ironman. Não fiz. Não quis. Em janeiro disse: "Este ano é um ano de aprendizagem, estou a estudar imenso, estou a tirar o curso do TEF, que é o Técnico Especialista de Exercício Físico." Portanto, respondendo aos objetivos para este ano, terminar todas as formações que estou a terminar, começar outras, porque isto não para, como eu não paro. Coisa boa ou má de ter começado aos 28 anos esta carreira diferente, é que tenho de ir apanhar o barco, que está lá à frente, mas ninguém está com mais pique que eu para ir buscá-lo. Portanto, estudar muito, fechar o que tenho para fechar, abrir o que tenho para abrir, montar, continuar a investir na Grind. Estou a adorar o projeto e tenho outro projeto, não sei se vai sair em 2027 ou se 2027 vai ser uma fase de aprendizagem para 2028 arrancar com este projeto. Dentro da área de fitness, dentro da indústria de fitness, tenho ideias muito giras que quero arrancar, que não têm nada a ver com triatlo ou com corrida, sim, atividade física e desporto, nada com corrida, mas preciso perceber o timing certo para as fazer. Portanto, tenho muitos objetivos para agora, para a primeira metade do ano de 2027. Depois, eventualmente, se a vida se alinhar nesse sentido, tirar esse mês de julho para ir atravessar a Mongólia a cavalo.
Andar a cavalo.
E se sobreviver, voltar e continuar a fazer mais do mesmo. Às vezes a rotina monótona de não é preciso estar sempre a mudar, é só preciso continuar a fazer exatamente o que estamos a fazer durante imenso tempo. Esse é o compound effect e a magia do sucesso, acho eu, pelo menos.
E é bom ires agora nestas viagens e percebes que está tudo alinhado. É só continuar.
Não, foi ótimo também. Esta viagem eu estava tão bem, porque está tudo on track.
E sentiu-se.
Estou leve, as coisas estão muito bem encaminhadas. Estou a adorar o curso que estou a tirar, estou a adorar o projeto que estou a fazer. Portanto, fui mesmo sem peso aos ombros. E voltei cheio de pica para continuar onde larguei em julho.
E se as pessoas que estiverem aqui a ouvir, correrem e fizerem essas brincadeiras, dá para correr no Grind? Como é que isso funciona?
Claro.
Faz run club semanal também?
Fiz run club durante dois anos.
Fizeste.
Exatamente, que acabávamos no Do Beco, até junho, julho, e agora tenho que perceber timings, quando é que faz sentido arrancar, se faz sentido sequer arrancar com o run club ou não, ou se começo a fazer coisas um pouquinho nada mais pontuais, tipo 9 de outubro, uma corrida que começa aqui, acaba ali, com direito a café no fim, etc. Tenho que perceber o formato, se quero fazer coisas um pouquinho nada mais pontuais, se quero manter a rotina de quartas-feiras de manhã ou mudar a rotina.
Mas o foco então é a preparação para-
O foco é a equipa.
Triatlo?
Sim, corrida, triatlo e trail. Agora abrimos equipa de trail. Portanto, meu foco é continuar a montar uma equipa, investir na equipa e garantir que as pessoas vão saudáveis, felizes e preparadas para uma prova. É esse o foco da Grind, é esse o meu foco, é essa a minha visão. Estes três pilares são os mais importantes. Tem que ser divertido, tem que ser saudável e tem que ter uma vertente performativa de performance, onde tens de superar os teus objetivos ou pelo menos alcançá-los.
Mesmo que estejas de forma amadora, pode ser os teus objetivos e fazer de forma-
Claro, eu sou amador, tu também. Se queres baixar de 1h50, podes nem dizer valores, números, mas queres sentir que estás a evoluir, é da minha responsabilidade garantir que estás a evoluir, que estás saudável e que estás feliz. São esses os meus pilares, são esses os valores que eu quero trazer para a minha equipa e espero estar a conseguir passá-los. E é só continuar. Tanto quem quiser, obviamente, fazer parte da equipa, é uma questão de mandar mensagem, tenho o maior dos gostos em responder.
Boa. Sentamo-nos daqui a dois anos.
Bora. Ou um ano.
Para falar da Mongólia. Ou para o ano?
De repente, eu e o meu cavalo.
Setembro do próximo ano.
É que eu já sei.
Não vendas os dois.
Não, trago um dos cavalos, tipo mãe, na coisa.
André, estou-te aqui. Obrigada, foi muito giro.
Vamos fazer disso rotina, todas as viagens.
Diria que sim. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo ao habitual horário?
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