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Sunday, September 20, 2026

Vão-se os anéis, fica o Cáriclo

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Sistemas de anéis, como o de Saturno, são uma das formações mais belas e intrigantes a adornar planetas e outros corpos celestes. Ao observá-los de longe, parecem ser estruturas fixas; chegando mais perto, com sondas, constatamos que são compostos por fragmentos muito menores, de grãos de poeira a pedregulhos de gelo e rocha. E observações constantes, de perto ou de longe, permitem identificar que são estruturas dinâmicas, que surgem e se dissipam conforme as circunstâncias. É o que parece ser o caso dos anéis de Cáriclo, província de um grupo internacional de astrônomos com relevante participação brasileira.

Cáriclo é um objeto classificado como centauro, um astro menor composto por gelo e rocha que habita a região entre as órbitas dos planetas gigantes. Ele é um dos quatro objetos de menor porte do Sistema Solar exterior em que se sabe haver anéis e, dentre eles, guarda lugar especial, pois foi o primeiro corpo celeste de pequeno porte de que se tem notícia a apresentar não só um anel, mas um sistema deles. São dois, finos, orbitando a 390 e 405 km do centro do astro.

A descoberta foi anunciada em 2014 por um grupo que teve como primeiro autor Felipe Braga-Ribas, hoje na UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), e iniciou um esforço de intensa observação do astro —embora apenas em momentos muito específicos. Isso porque é extremamente difícil detectar esses anéis.

A técnica para sondá-los é a ocultação, em que o astro, em sua trajetória ao redor do Sol, passa momentaneamente à frente de uma estrela distante, bloqueando sua luz. Isso permite estudar qualquer coisa que esteja em seu entorno e bloqueie momentaneamente a luz que vem de longe —ou seja, os anéis.

Para o novo estudo, liderado por Pablo Santos-Sanz, do Instituto de Astrofísica da Andaluzia, Espanha, com participação de Braga-Ribas e outros brasileiros, os pesquisadores contaram com o poderoso Telescópio Espacial James Webb. Em artigo publicado na Science Advances, eles reportam os resultados da observação da ocultação estelar feita pelo Cáriclo em 18 de outubro de 2022. Ou melhor, feita pelos anéis do Cáriclo, porque o astro central, em si, nunca chegou a bloquear a luz estelar. Como esperado, os anéis apareceram com clareza nos dados do Webb.

A surpresa foi que pareceram estar bem diferentes, se comparados a ocultações anteriores, corroborando conclusões de um estudo de outubro de 2025 de que os anéis são mesmo estruturas dinâmicas. O mais interno se mostrou significativamente mais opaco. O mais externo, em compensação, apresentou uma assinatura de ocultação mais sutil. Ou seja, em ambos os casos, estamos vendo em tempo real uma transformação dinâmica dos anéis.

O mais interno, ao que tudo indica, pode estar sendo reabastecido com material. Ou, em outra possível explicação, está sofrendo algum tipo de reestruturação. Já o anel mais externo parece estar perdendo material, talvez indicando que sua existência seja apenas transitória. Isso pode explicar por que Cáriclo parece tão especial —talvez o tenhamos visto na hora certa, numa fase que terá duração não muito longa.

A resposta sobre isso, contudo, dependerá de mais observações. O resultado, além de revelar mais uma faceta do intrigante sistema de anéis de Cáriclo, demonstra o potencial do James Webb para observar ocultações e enriquecer nosso conhecimento sobre os corpos mais distantes e discretos do Sistema Solar.

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