A história de Gringo: como um argentino radicado no Rio criou a amizade entre Boca e Vasco

Omar Román foi torcedor do Boca Juniors desde o berço. Nos anos 1980 foi morar no Rio de Janeiro e se aproximou do Vasco porque conheceu Roberto Dinamite em um evento que o clube fizera na Argentina. Aos poucos, passou a frequentar São Januário, desenvolveu carinho pelo time e entrou para torcidas organizadas. Tinha dois clubes do coração.
O sentimento passou para a família. O filho Diego Roman é carioca, mas torce para Vasco e Boca Juniors. A semifinal da Copa Sul-Americana é o encontro dos dois mundos do filho de Omar, o responsável pela amizade entre as torcidas há décadas.
Diego e Omar (segundo e terceiro da esquerda para a direita, respectivamente) com torcedores de Vasco e Boca em São Januário — Foto: Arquivo pessoal
Diego é homenagem a Maradona; Román, apesar da coincidência com um dos nomes de Riquelme, maior jogador da história do Boca, é um sobrenome de família mesmo.
— Já tentei imaginar como vai ser (o jogo) várias vezes, mas eu empaco. Quando chego em São Januário e a torcida explode, o jogo começa, eu fico arrepiado. Eu sinto a mesma coisa pelo Boca. Estarei numa situação do tipo "o que está acontecendo?". Vai ser desesperador. Vai ser a primeira vez que não vou comemorar um gol. Não sei, estou muito na dúvida - afirmou em entrevista ao ge.

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Um dos orgulhos da La 12, uma das maiores torcidas organizadas do mundo, é não ter relações de parceria estabelecidas (algo comum no Brasil) com nenhuma organizada, mas os argentinos admitem que há uma forte ligação de proximidade e respeito com o Vasco por causa de Omar Román.
"Gringo", como Omar era conhecido, rapidamente ganhou moral entre torcedores do clube carioca nos anos 1980. Ele foi um dos criadores da música "o sentimento não pode parar", que embala as arquibancadas de São Januário até hoje, além de ter trabalhado como segurança na primeira gestão de Eurico Miranda.
Bandeira de Omar Román — Foto: Carol Galvão/ge
— Meu pai foi torcedor do Vasco e do Boca muito assíduo, tanto que fizemos uma bandeira em homenagem a ele. Só vou pensar nele do início ao final. Meu pai faleceu no início do ano passado por um AVC. Desde então estou de luto, e o Vasco e o Boca me ajudaram, as duas torcidas me abraçaram muito. Esse jogo vai fazer com que ele reviva um pouco. Acho que ele vai se projetar um pouco no gramado. Não sei se estou preparado para isso, falando emocionalmente. Muitos dizem que eu tenho que escolher um lado. Estarei com o Vasco porque é onde a gente passa perrengue todo ano, então é justo eu viver isso com eles agora, mas meu coração estará dividido - confessou.
Nos arredores de São Januário, Omar sempre andava com uma camisa do Vasco e gorro do Boca - e fazia o contrário quando ia para a Bombonera. O argentino tinha uma tatuagem do símbolo do escudo do Boca envolto pela cruz de malta no braço direito.
Tatuagem de Omar Román — Foto: Arquivo pessoal
Vai torcer para quem?
Diego começou a frequentar a Bombonera ainda criança, sempre levado pelo pai, mas a semifinal de terça-feira terá um novo elemento.
— Será minha primeira vez de visitante na Bombonera. Não sei nem como estou conseguindo dormir. Vou de visitante na casa do meu time do coração. Sou brasileiro e argentino, metade e metade. Sou Boca e Vasco, frequento a arquibancada sempre. Estarei na Argentina pelo lado do Vasco. Achei que isso nunca fosse acontecer.
Diego Román — Foto: Carol Galvão
Por ser carioca e acompanhar mais presencialmente o clube brasileiro, Diego optou por viajar com torcedores brasileiros e estar com setor visitante com amigos da torcida, mas admitiu que não sabe se vai vibrar com algum gol — seja de qual lado for.
— Como que vou comemorar? É muito difícil, são duas paixões. O Boca me ensinou a amar o Vasco. O Vasco é meu primeiro amigo. Um aumenta o sentimento que eu tenho pelo outro. Eu vivo o futebol no 200%, eu tenho dois times. Vou ver minha vida toda durante 180 minutos. Não vejo a hora disso passar (risos).
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