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Wednesday, September 16, 2026

'Tigre-da-tasmânia' tinha mordida mais similar à do lobo-guará e caçava presas pequenas

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O animal já foi chamado de lobo-da-tasmânia ou tigre-da-tasmânia e acabou sendo dizimado pelo suposto risco que traria para os rebanhos de ovelhas. Mas, segundo um novo estudo, o estilo de caça do tilacino (Thylacinus cynocephalus) não tinha nada a ver com o dos superpredadores que inspiraram os apelidos: o mais provável é que ele se limitasse a capturar presas pequenas e ágeis.

Curiosamente, de acordo com a análise da estrutura craniana do bicho, conduzida por pesquisadores de quatro instituições australianas, o "tigre" ou "lobo" na verdade podia caçar de forma mais semelhante à do brasileiríssimo lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), que de lobo mesmo tem muito pouco, apesar do nome. Ainda assim, a analogia é bastante imperfeita, por causa da história evolutiva muito distinta do tilacino e do mosaico único de características em seu crânio.

A pesquisa foi publicada recentemente no periódico especializado Nature Communications. Coordenada por Vera Weisbecker, da Universidade Flinders, a equipe comparou detalhes da geometria do crânio dos tilacinos, cujos últimos exemplares morreram em 1936 na ilha australiana da Tasmânia, com uma série de outros mamíferos predadores.

A lista comparativa inclui tanto canídeos (membros da família dos lobos e raposas), aos quais o bicho se assemelhava de maneira superficial, quanto outras espécies de carnívoros e marsupiais ainda viventes e extintos. Inserir os marsupiais na lista é importante porque era a esse grupo muito particular de mamíferos, entre os quais estão cangurus, coalas e gambás, que os tilacinos pertenciam.

Em vida, os tilacinos tinham o porte de um cão doméstico de tamanho médio: 60 cm de altura nos ombros, até 1,3 m de comprimento (sem contar a cauda, que podia chegar a 60 cm) e um peso médio de 17 kg. Uma olhada rápida na estrutura de seu crânio dá a impressão de que ele lembra muito o de um lobo ou cachorro de focinho comprido, o que explica a segunda parte do nome científico do animal, cynocephalus, ou algo como "cabeça de cão" em grego latinizado.

Alguns estudos com o genoma da espécie, que foi recuperado, em grande parte, chegaram até a indicar que certos trechos do DNA dos tilacinos estavam por trás de um padrão de desenvolvimento embrionário do crânio que lembrava o dos lobos. Entretanto, o problema, dizem Weisbecker e seus colegas, é justamente essa visão geral, que ignora a relação entre detalhes anatômicos e função em cada parte do crânio, do maxilar e da mandíbula.

De modo geral, o crânio do bicho é bem grande – tão grande que, embora seu peso seja só a metade do de um lobo "verdadeiro", o tamanho da cabeça das duas espécies é similar. Só que essa cabeçorra se combina com outras características: um maxilar comprido e alto e um focinho alargado que se parece com uma clava ou maça.

A combinação de traços não bate com a de nenhum carnívoro atual de forma exata – mesmo a semelhança com o lobo-guará precisa ser relativizada porque o bicho brasileiro inclui uma grande quantidade de frutas nativas do cerrado em sua dieta, enquanto, pelo que sabemos com base na dentição e descrições até o começo do século 20, os tilacinos se alimentavam exclusivamente de carne.

Que tipo de carne? Provavelmente presas relativamente pequenas, como os bandicoots, marsupiais do tamanho de coelhos, com focinhos afilados, orelhas pontudas e de hábitos noturnos.

"Quando mais longa é a mandíbula, mais rápido a ponta dela se movimenta quando um animal dá uma mordida. É algo que aumenta o impacto do ataque do predador. Achamos que o enorme tamanho do crânio do tilacino permitia que ele suportasse a força dessas mordidas", explicou Weisbecker em comunicado oficial.

Não se trata de uma estratégia comum entre mamíferos, mas os pesquisadores lembram que é possível identificá-la em outros vertebrados.

"Muitos crocodilos e peixes predatórios têm maxilares e mandíbulas compridos e que se fecham com rapidez, usados para capturar presas ágeis, como peixes", completa a pesquisadora.

A última peça do quebra-cabeças envolve as diferenças de dentição, em especial nos caninos. Predadores placentários (o principal grupo de mamíferos atuais, aos quais nossa espécie também pertence) empregam sua dentição com diferentes estratégias.

O grupo dos canídeos de grande porte, como os lobos, combinam mordidas que rasgam os tecidos das vítimas e depois fazem um movimento de puxão. Já os felinos adotam um tipo de mordida que primeiro penetra a carne e depois segura.

Os tilacinos, porém, têm caninos que lembram o de seus parentes marsupiais bem menores, os quolls, cujas mordidas penetram e soltam, em vez de segurar. Dificilmente isso funcionaria para caçar animais domésticos de grande porte, como as ovelhas trazidas pelos colonizadores europeus à Austrália – foi supostamente para protegê-las que os "tigres-da-tasmânia" acabaram sendo exterminados.

"Os tilacinos foram caçados por causa do mito de que eram predadores ferozes do gado, sendo que há poucas evidências em favor disso. A extinção deles é uma história de ignorância e falta de respeito pela vida selvagem única da Austrália", lamenta Weisbecker.

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