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Thursday, October 29, 2026

Com o Mao não se brinca

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Para quem tem andado distraído nas últimas décadas e não sabe quem foi Mao Tsé-tung, deixo duas breves citações. A primeira é retirada do livro 101 Monstros, do historiador Simon Sebag Montefiore: “Em 1931, Mao assumiu o cargo de Presidente da República Chinesa Soviética de Jiangxi. Satisfeito por poder assassinar, chantagear e envenenar os seus rivais – matou 700 mil numa vaga de terror entre 1931 e 1935 –, tinha os mesmos talentos políticos que Estaline: ambição de poder, crueldade, um vício pela desordem e uma extraordinária capacidade de manipulação. Também à semelhança de Estaline, destruiu mulheres e amantes, ignorou os filhos e envenenou a vida de toda a gente que com a dele se cruzava: muitas pessoas chegaram a mesmo a ficar loucas [as que sobreviveram, claro].” A biografia de Mao escrita por Jung Chang e Jon Halliday abre assim: “Mao Tsé-tung, que durante décadas deteve o poder absoluto sobre as vidas de um quarto da população mundial, foi responsável por bem mais de 70 milhões de mortes em tempo de paz, mais do que qualquer outro líder do século XX.”

Estou a resumir o currículo do senhor, talvez não lhe fazendo a devida justiça, mas creio que, perante esta amostra, o mínimo que lhe poderíamos chamar é “ditador”. Acontece que, em 2026, na República Popular da China, chamar ditador a Mao Tsé-tung é uma enorme ofensa aos sentimentos nacionais, é a humilhação de todo um povo e de uma cultura milenar (as culturas milenares são entidades muito sensíveis). E o culpado da heresia foi o distraído jogador francês de futebol Kylian Mbappé. Num vídeo publicado nas redes sociais, surgia a comentar uma montagem que tinham feito da sua cara sobreposta a uma imagem de Mao, que ele identificou de forma canhestra como “um tipo que acho que é um ditador chinês.” Acrescentou que era a montagem mais engraçada que tinha visto de si mesmo.

É o que dá quando jogadores de futebol milionários são deixados por conta própria nas redes sociais, sem a vigilância e o aconselhamento de uma ama, de um tutor ou de um especialista em Relações Internacionais. Qualquer assistente pessoal minimamente competente teria alertado Mbappé para que a melhor maneira de se referir ao antigo presidente chinês seria começar por dizer respeitosamente o nome e depois partir para as antonomásias como “o Grande Timoneiro”, “o Sol Vermelho” ou “o Grande Professor”, todas elas devidamente hiperbólicas, diplomaticamente sensatas e economicamente vantajosas. Porque assim que o vídeo da blasfémia chegou ao conhecimento das autoridades chinesas as represálias foram imediatas: os contratos de publicidade de várias marcas chinesas com o jogador foram cancelados, a televisão estatal decidiu suspender as transmissões dos jogos da liga espanhola e os perfis de Mbappé nas redes sociais daquele país foram “congelados”.

Mas não foram apenas empresas chinesas a castigar Mbappé. Marcas ocidentais, como a Dior e a Hublot, retiraram conteúdos publicitários com o jogador da plataforma Sina Weibo, para não ferir ainda mais os sentimentos dos cidadãos chineses. Como era de esperar, o jogador, o clube que representa, o Real Madrid, e a liga espanhola foram céleres nos pedidos de desculpas. “O meu comentário foi infeliz e agora compreendo que feriu muitas pessoas na China”, escreveu Mbappé. O Real Madrid também capitulou alegremente: “O Real Madrid deseja expressar as suas desculpas ao povo chinês pelo desconforto que as recentes palavras do nosso jogador Kylian Mbappé possam ter causado.” E quanto à liga espanhola? Basta ler o início do comunicado: “A LALIGA lamenta profundamente a ofensa que os recentes comentários de Kylian Mbappé causaram entre os adeptos chineses. Estes comentários foram feitos a título pessoal e não representam a LALIGA. Na medida da nossa responsabilidade institucional, pedimos desculpa em nome da LALIGA e de todos os seus clubes.” A esta rápida e conspícua flagelação coletiva dos espanhóis, a televisão estatal chinesa respondeu com ares cómicos de madre superiora: “Registamos o pedido de desculpas público e esperamos que a La Liga, o Real Madrid e Mbappé aprendam a lição, estejam sinceramente arrependidos e corrijam os seus hábitos.”

Na ânsia de denunciarmos os pecados das nossas democracias, nós, ocidentais, tendemos a esquecer-nos da verdadeira natureza de regimes como o chinês. Uma natureza que se revela quer na supressão das liberdades dos seus cidadãos (para as quais, verdade seja dita, nos estamos positivamente nas tintas), quer nestas reações histéricas, diria mesmo norte-coreanas, a supostas ofensas ao seu povo, à sua cultura e aos seus “heróis”. E assim vai o mundo, entre o histrionismo das ditaduras e a pusilanimidade de instituições de sociedades livres que não se importam de perder a dignidade desde que não percam contratos.

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