O abacate é verde, a vaca é culpada e a hipocrisia

Instalou-se nas grandes cidades europeias uma espécie de nova liturgia climática onde o pecado original tem quatro patas, rumina no campo e dá leite ou carne. Nos últimos anos, entre gabinetes em Bruxelas e ementas plant-based nos bairros da moda, a vaca foi promovida a inimiga pública número um do planeta. A tese é simples, vende bem e cabe num autocolante: a pecuária polui, logo, acabar com a produção animal salva o mundo. O problema é que esta conta de somar, feita por quem raramente trocou o alcatrão pela terra batida, esbarra na biologia, ignora o território e atinge o ridículo na engenharia de subsídios da União Europeia.
Custa a engolir a ligeireza com que se mete no mesmo saco a chaminé de um petroleiro e o estômago de um herbívoro. Confunde-se, por desconhecimento ou por jeito político, o carbono fóssil, que estava enterrado há milhões de anos e é queimado sem retorno para a atmosfera, com o ciclo biogénico do metano nos ruminantes. Um ciclo natural, fechado, onde o carbono que o animal liberta é o mesmo que a pastagem acabou de absorver por fotossíntese e que o estrume devolve como vida ao solo.
Mas é no corredor do supermercado que este cinismo bate todos os recordes. O consumidor urbano dito «consciente» torce o nariz ao leite, ao queijo ou à carne produzidos a cem quilómetros de casa por causa da «pegada ecológica». Cinco minutos depois, põe no cesto abacates vindos do Peru e bebidas de amêndoa da Califórnia, regadas à custa de aquíferos secos e transportadas durante semanas em cargueiros a queimar fuelóleo pesado. Deita-se fora um alimento completo, criado sob as regras sanitárias, de bem-estar animal e de rastreabilidade mais apertadas do mundo, para comprar pastas vegetais ultraprocessadas feitas de soja importada. Desde que a embalagem tenha uma folha verde e diga vegan, a consciência fica em paz.
O pior é que esta cegueira já não vive só nas redes sociais; tomou conta de quem desenha a Política Agrícola Comum. Montámos um sistema perverso que castiga quem trabalha e premeia quem cruza os braços. Hoje, no labirinto de eco-regimes e portarias de Bruxelas, dá menos dor de cabeça (e por vezes mais dinheiro) deixar a terra em pousio, manter mato estéril ou contratar um consultor para preencher folhas de Excel do que manter uma exploração com animais.
É o triunfo da agricultura de secretária e do subsídio à desistência. Quem se levanta às cinco da manhã para tratar do efetivo, cumprir planos de erradicação sanitária, pagar rações a peso de ouro e vender ao preço que a grande distribuição dita é olhado pelo Estado como um infrator em potência. Já o proprietário ausente, que fecha a cancela, não produz um quilo de comida, não emprega ninguém na aldeia e deixa a propriedade ao abandono, recebe o cheque e o diploma de benfeitor da natureza.
Em Portugal, esta receita não é apenas um erro económico; é suicídio territorial. Mais de metade do nosso país é feito de montado, serras e solos magros onde não nascem cereais nem soja para abastecer fábricas de proteína sintética. Nessas terras, a vaca, a ovelha e a cabra fazem o que nenhuma máquina consegue: transformam erva espontânea e mato fibroso (que nós não digerimos) em proteína nobre, ao mesmo tempo que adubam a terra e mantêm o solo vivo.
Quando a burocracia empurra o criador para fora do campo, o que fica para trás não é um jardim do Éden intocado. São silvas, giestas e barris de pólvora. O gado em extensivo é o único corpo de sapadores florestais que trabalha 365 dias por ano a custo zero para o Orçamento do Estado. Tirar os animais da serra para financiar o vazio administrativo tem um resultado que conhecemos de cor todos os verões: incêndios incontroláveis que, em quarenta e oito horas, atiram para a atmosfera mais carbono do que toda a pecuária da região emitiria em décadas.
O mundo rural português dispensa bem os sermões morais de quem nunca calçou umas botas de borracha, tal como dispensa uma Europa que paga para não produzir cá dentro aquilo que depois vai comprar lá fora. O que o setor exige é ciência em vez de slogans e o mínimo de respeito por quem ainda segura o território.
Porque há uma verdade simples que nenhum relatório de Bruxelas consegue apagar: em Portugal, terra sem gado e sem gente não é ecologia. É só mato à espera de arder.
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