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Saturday, October 10, 2026

O que o boom das corridas de rua revela sobre o novo consumidor

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RESUMO +

As corridas de rua oficiais no Brasil cresceram 85% em 2025, segundo a Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor. A varejista esportiva Centauro e a marca Track&Field usam circuitos para aproximar clientes. Julio Monteiro, especialista em franquias, defende que essa relação comece na cultura de saúde das equipes.

Por Julio Monteiro, especialista em franquias, CEO do Grupo Rhodium, sócio da Megamatte e vice-presidente da Associação Brasileira de Franchising Seccional Rio de Janeiro (ABF Rio).*

Em 2024, o Brasil realizou 2.827 corridas de rua oficiais. Em 2025, foram 5.241.

O salto de 85%, registrado pela Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor, costuma aparecer nas páginas de esporte. Eu acredito que ele deveria estar também nas de negócios.

Poucos movimentos recentes dizem tanto sobre como o brasileiro quer viver, gastar o próprio tempo e escolher as marcas que leva para perto.

Os números da Ticket Sports, plataforma de inscrições esportivas, mostram a dimensão do fenômeno. O mercado de corridas já movimenta cerca de R$ 1,1 bilhão, e 45% das pessoas que participaram de uma prova em 2025 estavam estreando. Um ano antes, esse grupo era de 35%.

A corrida deixou de ser território de atletas e se tornou porta de entrada para quem nunca tinha prendido um número de peito na camiseta.

Quem é esse novo corredor

O perfil de quem chega ajuda a entender o que está em jogo. A Geração Z lidera o crescimento, e a motivação principal passa longe do cronômetro.

O relatório de tendências do Strava mostrou que, em 2025, a criação de novos clubes de corrida no Brasil cresceu cerca de 800% na plataforma, o que colocou o país como o mercado mais social do aplicativo no mundo.

Entre os atletas dessa geração, 55% apontam a conexão com outras pessoas como o principal motivo para entrar em um grupo de treino.

O tênis é o pretexto. O encontro é o produto. O sábado de manhã, que já foi dia de acordar tarde, virou compromisso marcado, com horário, roupa, foto e grupo esperando.

A corrida ocupou um espaço que antes era do bar, da balada e do shopping. Ela virou lugar de socialização, de pertencimento e, para muita gente, de construção de identidade.

Há também uma dimensão de saúde mental que não pode ser ignorada. Um estudo global conduzido pela ASICS, com 26 mil participantes em 22 países, reforçou a ligação direta entre a prática regular de exercícios e o equilíbrio emocional.

O corredor de hoje busca equilíbrio, rotina e sensação de controle sobre a própria vida em uma época que oferece pouco disso.

As marcas que entenderam o movimento

O mercado percebeu rápido, e os circuitos de corrida se tornaram uma das formas mais eficientes de uma marca estar presente na vida do consumidor.

Dois exemplos brasileiros ajudam a entender como isso acontece quando a iniciativa nasce da essência da empresa.

A Centauro criou o circuito Desbrava com a proposta declarada de ampliar o acesso ao esporte e ocupar os espaços públicos das cidades. Em 2025, mais de 40 mil corredores passaram pelas etapas.

Para 2026, o circuito incorporou atrações musicais regionais em todas as provas e transformou a arena em ponto de encontro da comunidade local.

A corrida continua sendo o centro, e a experiência ao redor dela passou a ter o mesmo peso.

É uma varejista esportiva levando para a rua aquilo que já vende dentro das lojas, que é a vontade de se movimentar.

A Track&Field seguiu por outro caminho, igualmente coerente com a própria história.

Com o Track&Field Experience Running, a marca leva provas de 5 e 10 km para shoppings de diferentes cidades, com o objetivo assumido de gerar proximidade e socialização por meio do movimento.

A expansão acontece em parceria com a rede de franquias. Nesse modelo, a loja é o ponto de partida de uma comunidade, e deixa de ser apenas o lugar onde o cliente compra uma camiseta.

Do patrocínio ao pertencimento

O ponto em comum entre esses casos é o que realmente importa. Patrocinar uma prova garante presença no pórtico, na camiseta e no post. É um movimento legítimo e com resultado, porém passageiro.

No dia seguinte, o corredor volta para a rotina e a marca sai de cena.

As empresas que mais se beneficiam do boom das corridas são aquelas que já tinham uma cultura interna voltada para a saudabilidade antes de a onda chegar. Para elas, levar isso ao cliente é consequência natural de algo que já acontece dentro de casa.

O consumidor que chega às corridas é justamente o mais atento à diferença entre quem está ali para aparecer e quem está ali porque acredita.

A cultura que começa dentro de casa

Existe também uma razão prática para as empresas olharem primeiro para dentro.

A mesma pesquisa acompanhou profissionais que passaram a incluir pausas de 15 minutos de movimento na jornada de trabalho. Em uma semana, a produtividade aumentou 33%, o foco melhorou 29% e o estresse caiu 15%.

Incentivar a atividade física das equipes é bom para as pessoas e também para o negócio.

Quando essa cultura é verdadeira, ela transborda. O colaborador que corre com os colegas se torna o melhor representante da marca, porque fala do que vive.

A empresa que cuida da saúde da equipe ganha legitimidade para conversar sobre saúde com o cliente. E o cliente percebe quando a mensagem nasce de dentro e quando é apenas um anúncio pendurado na grade da largada.

Incorporar práticas saudáveis ao dia a dia dos clientes é, portanto, outra forma de a marca validar sua presença na vida deles.

Um grupo de corrida que sai da porta da loja, um treino aberto no fim de semana, uma parceria com a assessoria do bairro ou um espaço para o grupo se reunir depois do treino são gestos que custam pouco perto de uma cota de patrocínio.

E eles criam algo que o patrocínio sozinho dificilmente entrega, que é a sensação de fazer parte.

Humanizar e trazer o cliente para perto

O varejo passou décadas concentrado no ponto de venda. A lógica era simples. O cliente entra, compra e vai embora, e a relação se resume àquele intervalo.

O consumidor que calça o tênis às seis da manhã está propondo outra lógica. Ele quer se relacionar com marcas que compartilham seus valores e que aparecem nos momentos que importam para ele, inclusive aqueles em que não há nada à venda.

Quando uma marca corre ao lado do cliente, ela ganha rosto, nome e voz. Deixa de ser uma logomarca e passa a ser o grupo de sábado, o treinador conhecido, o colega que incentivou a primeira prova de 5 km.

Essa humanização aproxima justamente o público que mais combina com a marca, aquele que compartilha os mesmos valores e que tende a permanecer por mais tempo.

Uma prova é um evento. Um clube de corrida é um hábito semanal. E a lealdade se constrói na repetição.

O risco da euforia

Vale um alerta para quem está chegando agora. Um crescimento de 85% em um ano dificilmente se repete indefinidamente, e já há quem pergunte se o calendário de provas não ficou saturado.

A tendência é que o mercado passe por uma fase de amadurecimento, em que organizadores e patrocinadores serão cobrados por qualidade e coerência.

As marcas que entraram na onda apenas para aparecer na foto da largada serão as primeiras a sentir essa mudança.

As que construíram relação genuína com as comunidades, a partir de uma cultura que já existia dentro de casa, tendem a atravessar esse ciclo com mais solidez. O corredor sabe distinguir uma coisa da outra.

O boom das corridas de rua revela um consumidor que valoriza saúde, companhia, rotina e lugares onde se sinta parte de algo.

Para quem trabalha com marca, a pergunta que importa passa a ser como estar presente na vida dessas pessoas, antes, durante e depois de cada quilômetro. E a resposta mais consistente costuma começar pelas próprias equipes.

'Perguntas frequentes'

Quanto cresceram as corridas de rua no Brasil em 2025? +

As corridas de rua oficiais passaram de 2.827, em 2024, para 5.241, em 2025, alta de 85%, segundo a Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor.

Quanto movimenta o mercado de corridas no Brasil? +

O mercado de corridas movimenta cerca de R$ 1,1 bilhão, segundo a Ticket Sports, plataforma de inscrições esportivas. Os dados da Ticket Sports também mostram que 45% dos participantes de provas em 2025 eram estreantes, ante 35% em 2024.

Por que a Geração Z procura clubes de corrida? +

A conexão com outras pessoas é o principal motivo para 55% dos atletas da Geração Z entrarem em grupos de treino, segundo o relatório de tendências do Strava. Em 2025, a criação de novos clubes de corrida no Brasil cresceu cerca de 800% na plataforma.

Como Centauro e Track&Field aproximam marcas e corredores? +

A Centauro usa o circuito Desbrava para ampliar o acesso ao esporte e reunir comunidades, enquanto a Track&Field promove provas de 5 e 10 km em shoppings com o Track&Field Experience Running. Em 2025, o Desbrava recebeu mais de 40 mil corredores; a expansão do Track&Field Experience Running ocorre em parceria com a rede de franquias.

Como a atividade física das equipes pode beneficiar as empresas? +

Pausas de 15 minutos de movimento no trabalho foram associadas a aumento de 33% na produtividade, melhora de 29% no foco e queda de 15% no estresse em uma semana, segundo a pesquisa da ASICS citada por Julio Monteiro. Para Julio Monteiro, cuidar da saúde das equipes também dá legitimidade à comunicação das marcas com os clientes.

Por que patrocinar uma corrida não basta para fidelizar clientes? +

O patrocínio oferece presença passageira, enquanto a lealdade depende da repetição, na avaliação de Julio Monteiro, especialista em franquias. Grupos de corrida, treinos abertos e encontros frequentes são exemplos apresentados por Julio Monteiro para criar pertencimento, desde que a iniciativa reflita uma cultura interna de saúde.

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