Arquitetos correm contra demolição e salvam galpão raro em madeira em São Paulo
Era uma tarde de setembro quando, em visita a um fornecedor, os arquitetos Márcio da Quinta e Silva e Mario Gaia passaram por uma esquina na Barra Funda, na zona oeste de Sâo Paulo. Detrás dos tapumes de um empreendimento imobiliário, reconheceram um galpão do engenheiro austríaco Erwin Hauff. Eles haviam visitado o local quando estudantes na Escola da Cidade, vinte anos atrás.
Formado em Viena, Hauff mudou-se para o Brasil, em 1922. Foi responsável por joias da engenharia em madeira, como os ginásios do Pacaembu, recentemente restaurados. Destino bem diferente teria o galpão, se a dupla não tivesse agido. Ele já estava nas mãos da demolidora, que ia "fatiar" a estrutura e vender.
"Em 24 horas, deixamos apalavrado, sem ter grana nem nada. Dissemos ‘vai batendo o contrato que na sexta a gente dá o sinal’", lembra Gaia. Na terça seguinte, o galpão estava comprado, por meio de uma vaquinha.
Começava, então, uma corrida para desmontar a estrutura e preservá-la a fim de ser remontada por um futuro proprietário.
A tarefa não era nada fácil. O galpão, com vãos livres nos dois sentidos, medindo 46 m x 56 m, é composto de treliças, por sua vez feitas de peças menores, encaixadas por cavilhas (pinos circulares de madeira). "Guardadas as proporções, é como a Torre Eiffel, feita de peças pequenas", diz Quinta.
"A questão não era só dar um dinheiro para evitar de a madeira virar tábua de queijo. Era o tempo. A demolidora tinha de entregar o terreno", recorda Gaia.
O próprio demolidor demorou a destelhar o prédio, o que deu ao grupo tempo para preparar a operação.
Poucas estruturas de Hauff sobreviveram na cidade. Além dos ginásios do Pacaembu, há um antigo hangar da Varig em Congonhas. Tombado, ele será usado como sala de embarque do aeroporto.
O galpão na Barra Funda é, na opinião de Ricardo Caruana, a obra "mais sensacional" de Hauff.
Um dos fundadores da Escola da Cidade, ele passou a dar aulas para os estudantes de primeiro ano na instituição. No currículo da disciplina em que ensinava técnicas construtivas incluía a visita ao prédio. Disfarçado por uma fachada de inspiração neoclássica, abrigava a sede administrativa das lojas Marisa.
Caruana estava na Índia quando os ex-alunos se depararam com a iminente destruição do galpão. De lá, debatia, em telefonemas de madrugada, soluções para a questão.
Ele defende a arquitetura em madeira como solução ambiental. Um prédio do mesmo tamanho do galpão, argumenta, se feito em concreto, consumiria só nas formas cinco vezes a madeira empregada ali.
O uso do material vem sendo reintroduzido na Europa. "Estou falando de alta tecnologia, não de chalezinho na montanha", diz Caruana, dando o exemplo do Messegelände, ou parque de exposições, de Hannover, na Alemanha.
Hoje a maior parte das estruturas do tipo usa o método "cross laminated timber", em que as lâminas de madeira são coladas. O Sistema Hauff dispensa a cola, que tem poucos fabricantes mundiais, apontando um caminho mais interessante para o futuro, defende.
O método foi desenvolvido e patenteado pelo austríaco em São Paulo, na época em que era sócio da E. Hauff & Cia., de 1929 a 1942. As datas são registradas na dissertação de mestrado de Sandro Fabio Cesar, principal trabalho de referência para a obra de Hauff.
Ele empregava a peroba-rosa, então abundante no país, mas hoje ameaçada de extinção. As estruturas atuais, porém, podem ser feitas com eucalipto, espécie de reflorestamento utilizada principalmente para fabricar papel.
Entender a técnica para preservar a estrutura exigiu montar um "conselho de notáveis", com nomes como Heloisa Maringoni, calculista do novo Masp, entre outras obras de grande porte, e Valdemir Rosa, que trabalhou com João da Gama Filgueiras Lima (1932-2014), o Lelé, em sua fábrica de elementos pré-fabricados.
As arquitetas Cláudia Bassichetto e Ana Ennes se somaram ao trio inicial no "núcleo duro" da desmontagem, ainda em processo.
Quinta diz que, se a demolidora fosse agir como pensava, a estrutura "iria colapsar". Ele ficou encarregado de, ao lado de Ennes, medir um dos módulos. Depois, foi feito um levantamento que permitiu criar um modelo 3D da estrutura, essencial para os cálculos de desmontagem e escoramento.
As peças estão sendo levadas para galpões em um sítio em Suzano. O local pertence à família de um carpinteiro espanhol que, no século passado, fez várias estruturas de madeira, de casas a terminais de ônibus. Hoje centenário, ele observa a chegada das peças e dá palpites.
A ideia é desmontar o mínimo possível, para facilitar a remontagem futura, sob orientação da equipe. As peças foram mapeadas e numeradas, e o processo todo está sendo documentado com drones. O vídeo servirá de registro, mas também como divulgação para achar interessados em dar novo destino ao galpão.
No boca a boca, já apareceram alguns. Mas ainda é difícil fechar o preço. A projeção de gastos e os custos efetivos estão sendo planilhados para, no final, serem repassados ao proprietário final.
O grupo sonha com os novos usos. A altura, diz Caruana, propiciaria boa acústica para uma casa de shows. "O máximo do máximo seria fazer uma praça coberta, onde tudo pudesse acontecer" – como a marquise do Ibirapuera, opina. "Se fosse público, seria o ‘must’."
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