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Saturday, October 24, 2026

Acampada

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Há boas razões para protestar em Lisboa. E desta vez não são razões atmosféricas, nem dependem de nenhuma crença acerca do que poderá acontecer daqui a sabe-se lá quantos anos. As questões da habitação são problemas daqui e de agora, à vista nas rendas, nas prestações, nos filhos adultos que não conseguem sair de casa dos pais, nas famílias empurradas para longe da cidade que um dia foi a sua.

Não é, por isso, difícil reconhecer a legitimidade das manifestações dos últimos dias. Mas há um problema quando na primeira fila do Rossio se encontram partidos políticos que se comportam como se tivessem aterrado ontem em Lisboa.

Porque, na sua maioria, não estamos a falar de pessoas que pintaram uns cartazes por sua iniciativa. Existe uma infraestrutura de protesto organizada em rede, uma plataforma sofisticada com capacidade financeira, logística e jurídica para garantir estas acções. A plataforma Casa Para Viver, por exemplo, agrega dezenas de associações, colectivos e sindicatos. Uma investigação recente do Observador encontrou entre protagonistas dos principais movimentos gente do BE e do PCP, embora os movimentos afirmem independência partidária e financeira. Na recente “acampada” do Rossio houve, por exemplo, advogados a acompanhar as detenções. O que está a acontecer em Lisboa (e noutros pontos do país) pode ser muita coisa, mas está longe de ser a pura expressão espontânea da indignação popular.

Talvez a próxima manifestação devesse, por isso, deixar o Rossio e mudar-se para Entrecampos. Mais precisamente para o estaleiro dos antigos terrenos da Feira Popular. Seria pedagogicamente útil.

Voltemos a Abril de 2018, quando António Costa prometeu acabar com as carências habitacionais até ao 50.º aniversário do 25 de Abril, em 2024. Lembram-se? Pois, poucos meses depois, sob a presidência de Fernando Medina, Lisboa avançava com uma das maiores operações urbanísticas das últimas décadas nos antigos terrenos da Feira Popular; o correspondente a três ou quatro quarteirões no coração da cidade. No desenho aprovado, registe-se para não cair outra vez no esquecimento, 68,21% da área edificável destinou-se a serviços e 23,72% a habitação. A Câmara anunciou um centro de serviços com cerca de 140 mil metros quadrados e capacidade para 15 mil postos de trabalho. Apesar de o CDS defender, na voz da sua líder e vereadora de então, Assunção Cristas, a construção de cerca de mil fogos com rendas entre os 500 e os 1350 euros, a escolha estava feita: naquele extraordinário pedaço de cidade, quem mandava decidiu construir escritórios.

Convém também recordar quem estava onde. O Bloco de Esquerda tinha então um acordo de governação da cidade com o PS. Ricardo Robles, afamado vereador bloquista de então, descreveu a operação como uma tentativa de responder ao problema da habitação. Descrição essa reiterada pelo inclassificável Manuel Grilo, professor aposentado com impulsos okupas, que lhe sucedeu. É notável. Quando se votou a alienação dos terrenos, BE e PCP abstiveram-se; o CDS votou contra. Conclusão: os partidos hoje mais empenhados em transformar a crise da habitação numa acusação contra o presente tiveram oportunidade de a travar no passado em vez disso baixaram os braços. Não se podia adivinhar, em 2018, a pandemia nem a transformação posterior do trabalho. Essa atenuante deve ser concedida. Contudo, torna as posições políticas actuais ainda mais esdrúxula: num tempo em que uma parte considerável do trabalho de escritório se tornou híbrida, ofereceu-se o centro da cidade para escritórios onde se passa cada vez menos tempo, em vez de casas onde se passa uma vida inteira.

Mas o mais importante é que já então se sabia que Lisboa tinha um problema de habitação. Sabia-se tão bem que o Primeiro-Ministro lhe punha uma data de resolução. A crise não apareceu depois de o PS perder a Câmara. Estava diante de todos quando se decidiu o destino daqueles terrenos.

Há qualquer coisa de infame no entusiasmo com que uma parte da esquerda procura agora apropriar-se da indignação de quem não consegue pagar uma casa.

Isto não absolve o actual executivo. É preciso construir mais, recuperar património e acelerar licenciamentos. Mas a política começa pela verdade. Ou pelo menos devia. Se esta esquerda fosse séria não era no Rossio que se estaria a manifestar, mas em Entrecampos.

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