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Friday, October 2, 2026

A modernidade da grafonola de Paris na “Parisette” de Viseu

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Olá, seja muito bem-vindo. Esta é a História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura, aguardando que Jorge Adolfo Marques, historiador e professor que está em Viseu, continue a falar nesta semana, como tem vindo a falar de modernidades. Hoje vamos falar da grafonola, estes ecos de Paris passados em Viseu. A grafonola na Parisette. Vamos saber tudo sobre isto. Olá, Jorge. Vamos a isso então.

Olá, João. De facto, nós continuamos aqui a perseguir as modernidades de há 100 anos, 140 anos. Aquelas modernidades que surgem no final do século XIX ou pelo menos se difundem e se massificam por essa altura, durante aquilo que é chamado a segunda revolução industrial e que também chegam a Viseu, uma pequena cidade do interior, distante na ponta mais ocidental da Europa, distante dos grandes centros de modernidade e de industrialização, mas que cá chegaram. É interessante esses ecos de modernidade, sobretudo vinda de Paris. Nós sabemos que em novembro de 1897, Delfim Correia, que era um comerciante estabelecido aqui na cidade, publicitava num jornal local, o Comércio de Viseu, que já recebera e tinha à disposição dos clientes na sua Loja do Povo, nome da sua loja, situada na Rua Dona Maria Pia, aqui bem no centro da cidade, embora hoje tenha outro nome, que é a Rua Formosa, desde a implantação da República. O que este senhor tinha na sua loja? Todas as fazendas que compõem o seu sortido para a presente estação. E onde é que ele fora buscá-las pessoalmente a Lisboa e ao Porto, vindo algumas peças, publicitava ele, diretamente de Paris para Viseu, de Paris para a Loja do Povo.

Extraordinário.

Extraordinário.

Era um homem muito à frente do seu tempo.

É um homem que sabe onde é que está aquilo que é a vanguarda do vestuário, da moda.

Tinha olho pro negócio.

Exatamente. Eram muitas as fazendas que Delfim Correia tinha para vender às senhoras, com padrões novos e cores lindíssimas para vestidos de lã, seda ou flanela, para capas e casacos que seriam habilidosamente confeccionados pelas próprias clientes ou por modistas em máquinas de costura cada vez mais populares. Temos que pensar que há aqui uma associação também desta moda a novas práticas de confecção, de produção da roupa. Ainda para senhoras, tinha elegantes pelerine, capas, saias de feltro e de malha, echarpes de lã, blusas de malha, tudo em cores muito chiques, dizia ele. Na vanguarda, tudo muito bonito, tudo muito moderno. Para homens, o nosso comerciante tinha, nesse inverno de 1897, 98, também muita variedade. Tinha piquet, tinha casimiras, tinha cheviot, tinha picotilhos, calças montagnard, musquon, coletes, gravatas, camisolas, etc. Para crianças, menos variedade, também coitadinhos, os pequenos não têm tanto sortido. Tinham uns casaquinhos e capas de malha, toucas, boinas e bonés para andarem bem agasalhados no frio visense. Chapéus para adulto. O chapéu era, digamos, um-

Sim, é obrigatório. Um adereço obrigatório

...era obrigatório. Chapéus para adultos não podiam faltar na Loja do Povo. E Delfim Correia publicitava mesmo que eram modelos copiados dos que apresentaram com maior novidade as modistas parisienses. Chapéu sim, mas não é qualquer chapéu, tanto para senhora como para criança. E se o cliente desejasse, na Loja do Povo, oferecia-se ainda serviço de modista para qualquer vestuário.

Para um ajuste. Exato.

Exatamente. É subir uma bainha, depois apertar mais um bocadinho. Era um comerciante moderno que seguia a tendência parisiense do fin de siècle, nessa Europa industrial da Belle Époque. Estamos na Belle Époque, onde a produção e o consumo em massa uniformizavam a preços acessíveis, isto é importante também dizer, a preços acessíveis a quase todos, o gosto estabelecido pela alta costura da Cidade das Luzes. 18 anos mais tarde, o Delfim Correia volta a publicitar, nesse mesmo jornal, elegantes novidades que o seu estabelecimento comercial recebera para essa estação de inverno de 1915, 1916. A moda, que é o império do efêmero, como Lipovetsky escreveu, triunfara também aqui nesta pequena cidade de Viseu, longe de Paris. Cidade que nem sequer estava ligada por comboio direto a Paris. Chegava cá a moda. Se não, o Delfim Correia ia buscá-la. Para além da moda, e é um aspecto curioso Passado uns anos, em 1 de dezembro de 1929, comemorava-se mais um dia da restauração. E na chapelaria Pariset, e o nome não é por acaso. Chapelaria Pariset, pois então não é de Paris que vinha a grande moda? Portanto, que nome melhor do que Pariset. Na chapelaria Pariset, loja que era precisamente na mesma rua, era a mais central das novas artérias vizinhenses, esta chapelaria brindou os sócios da Associação de Bombeiros Voluntários da cidade com uma audição de grafonola. Qual é a relação? Bom, a notícia é publicada no Comércio de Viseu, que é a nossa fonte histórica, e que diz uma coisa muito interessante, que é: "Foi uma agradabilíssima audição, devido à perfeição sempre crescente atingida pela indústria da gravação e construção de discos e grafonolas". Portanto, a Pariset, ou seus clientes, e em particular a Associação dos Bombeiros Voluntários, tinha lá musiquinha. Não se esperaria outra coisa nesse dia, porque a máquina falante, como eram designadas, que proporcionou esse moderno espetáculo musical, era da prestigiada marca inglesa Decca Gramophone, a segunda maior editora discográfica mundial. A loja, apesar de chapelaria, era o seu representante local. Ou seja, era chapelaria, mas também vendia a Decca Gramophone. Não sabemos quais foram as músicas nesse dia, que foram escutadas nesta chique Pariset vizinhense, nem qual o modelo preciso em que foram passados os discos, sendo certo que foi num dos gramofones portáteis desta marca.

Já havia gramofones portáteis, isso é curioso.

Exatamente.

Iam para todo lado, era uma espécie de maleta, não é?

Exatamente, semelhante ao popular Delphone, que a malta das trincheiras, eu aqui malta, rapazes, da guerra de 14-18, batizaria carinhosamente de Trench.

As Trenchs, que é trincheira.

Portanto, eles usavam aquela maleta, aquele gramofone, para lhes dar alguma música que não fosse a música das bombas, nem dos tiros.

Claro.

Com o formato de uma pequena maleta de viagem, estas grafonolas podiam ser levadas facilmente para todo lado, até para a perigosa frente. Onde, em todo caso, havia sempre o perigo de riscar os discos.

Sim, assustador.

Não fosse cair algum pedaço, algum estilhaço. Ora, nesse dia 1 de dezembro, nesse dia da restauração, a Pariset foi uma espécie de microcosmos de modernidade. E aquilo que nós temos aqui vindo a falar nos últimos dias, onde gravitaram alguns dos componentes do triunfante capitalismo estético. A moda, a publicidade, a tecnologia, o espetáculo de massas, uma modernidade que a cidade de Viseu acompanhava permanentemente desde o final de 800. Apesar da sua modesta dimensão e estrutura socioeconômica. Nós cá tivemos na chapelaria Pariset, um momento daquilo que era o pensamento daqueles homens daquela época. A música produzida daquela maneira, gravada daquela maneira, num espaço onde se vendiam produtos que eram consumidos de forma igual, quer em Viseu, quer em Paris. Portanto, Paris estava ali, Paris vinha até Viseu.

Gir, muito curioso. Muito bem, Jorge, ficamos com esta conversa, estas modernidades que nos foste apresentando ao longo desta semana. Quero te agradecer muito e quero marcar encontro pra semana, ouvimos mais. Bem-haja, Jorge. Até pra semana.

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