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Friday, October 9, 2026

Lula deve passar a defender equilíbrio das contas, e campanha apontará furos de Flávio na área fiscal

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve incorporar em seus discursos a defesa do equilíbrio das contas públicas, em uma tentativa de sinalizar que eventual novo governo do petista criará ambiente propício à queda dos juros.

A campanha do presidente também vai apontar furos do senador Flávio Bolsonaro (PL), seu adversário na corrida eleitoral, nas propostas para a área fiscal.

Segundo auxiliares do petista, Lula não vai defender cortes generalizados, muito menos em programas sociais, mas buscará adaptar suas falas para conciliar o compromisso com a sustentabilidade das contas e a manutenção das políticas sociais.

Um dos objetivos é tentar inspirar maior confiança entre agentes de mercado e, sobretudo, empresários, que têm sido afetados pelos juros elevados e demonstram grande expectativa com a queda das taxas no futuro.

A política fiscal de Lula é um dos principais alvos de críticas de economistas e representantes do setor produtivo, que veem o aumento de despesas e o uso de fundos para turbinar empréstimos e subsídios como propulsores da dívida pública. A alta do endividamento gera percepção de risco, que sustenta a taxa de juros em patamar elevado.

O mal-estar se ampliou após Lula dizer que, para o governo conseguir investir, "é preciso parar com essa babaquice de fazer superávit, fazer superávit, de ter controle fiscal".

A declaração foi dada em 12 de setembro em um evento em Curitiba (PR) e teve péssima repercussão entre empresários e integrantes do mercado financeiro, que já indicavam ver mais chances de um ajuste fiscal prosperar sob um eventual governo de Flávio Bolsonaro.

Auxiliares do presidente reconhecem, sob reserva, que não é possível saber de antemão se a estratégia dará certo ou se ficou muito tarde para que essa sinalização ajude na virada do placar de votos. Embora ministros da área econômica já tenham declarado a disposição do governo em aprovar medidas de ajuste, agentes do mercado financeiro se queixam de não ouvir isso do próprio chefe do Executivo.

Essas reclamações foram repetidas por banqueiros e empresários em conversas reservadas com interlocutores da equipe econômica após o resultado do primeiro turno das eleições.

Lula delegou essas sinalizações aos ministros Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento e Orçamento). Mas a avaliação é que o revés do primeiro turno, com Flávio à frente de Lula, tornou a vocalização desses princípios pelo presidente mais necessária. Segundo um ministro ouvido sob condição de anonimato, "agora é a hora dele", em referência ao petista.

O discurso pró-equilíbrio das contas também poderia amenizar a declaração que classificou superávit de "babaquice". Membros da equipe econômica afirmam que a frase foi ruim e acabou ampliando as desconfianças em relação ao compromisso de Lula de ajustar as contas do governo.

O presidente já ensaiou uma virada no discurso em jantar com empresários em 25 de setembro, pouco mais de uma semana antes do primeiro turno das eleições. No encontro, ele disse que "estabilidade fiscal é uma coisa obrigatória". "Essa questão da estabilidade fiscal, da estabilidade econômica é uma obrigação nossa, não é nem mérito", afirmou.

Mas o petista tem sido aconselhado a ser mais explícito e defender superávits (receitas maiores que despesas, que formam uma poupança usada para pagar juros) e redução da dívida pública.

Nesta quinta-feira (8), Lula afirmou que recebeu o Orçamento com um "déficit de 2,8% do PIB" (em 2023, o resultado ficou negativo em 2,4% do PIB, influenciado pela regularização de gastos represados pela gestão de Jair Bolsonaro) e propôs um superávit de 0,1% do PIB no ano que vem.

"É importante lembrar que, nos oito anos que eu fui presidente, nós fizemos superávit primário todos os oito anos. Eu fui o único presidente do G-20 que fez superávit primário. Foi no meu governo que nós conquistamos dois investment grade [selo de bom pagador conferido por agências de classificação de risco], coisa que o Brasil nunca tinha conseguido", afirmou.

O presidente também citou a redução da dívida pública e disse que, para isso acontecer, é preciso "fazer a economia crescer".

A campanha petista, porém, não detalha as eventuais medidas de ajuste que serão adotadas se Lula for reeleito no segundo turno.

Em paralelo, integrantes do governo e da campanha buscam fazer um enfrentamento mais duro nas redes sociais para expor o que consideram inconsistências nas sinalizações de Flávio sobre a questão fiscal.

Nas redes sociais, a ministra Esther Dweck (Gestão e Inovação em Serviços Públicos) resgatou declarações do ex-ministro Paulo Guedes —que chefiou a pasta da Economia no governo de Jair Bolsonaro (PL)— sobre a "granada" colocada no bolso dos servidores, que ficaram sem reajustes salariais por dois anos devido à pandemia de Covid-19.

Também explorou a promessa de Flávio de promover um "tesouraço" nos impostos e cortes de despesas.

"Anunciar o tamanho da tesoura é fácil. O que precisa ser explicado é onde a tesoura vai passar e o que vai mudar na vida das brasileiras e dos brasileiros, na vida de quem depende de serviços públicos. Cadê a lista da tesoura?", afirma a ministra em uma das publicações.

Nesta quinta, o presidente também criticou o plano de ajuste avaliado por Flávio, após a Folha mostrar que o candidato bolsonarista considera alterar a correção de benefícios da Previdência e os pisos da saúde e da educação para economizar até R$ 250 bilhões.

"Quando ele fala em cortar R$ 200 bilhões, você sabe do que eles vão cortar? Vão cortar no Pé-de-Meia, no Farmácia Popular, no Minha Casa Minha Vida, Merenda Escolar, no Gás do Povo, não vão dar aumento de salário mínimo para os trabalhadores acima da inflação. E não vão dar aumento de salário mínimo para os aposentados", afirmou o petista em vídeo publicado nas redes sociais.

Mais tarde, em declaração a jornalistas, Lula voltou a criticar o "tesouraço" prometido pelo adversário. "No Brasil, toda vez que um governo fala que vai fazer corte, esse governo quando faz teto de gasto, quando fala de ajuste fiscal, ele não fala tentando fazer com que os ricos percam alguma coisa. Fazem essa proposta para tirar do pobre", disse.

Para interlocutores do presidente, a economia é um dos três temas que precisam ser enfatizados até o dia da votação, em 25 de outubro. Os outros dois são segurança pública e corrupção.

Auxiliares já vinham defendendo a adoção de um discurso mais duro também na segurança, um dos temas que mais desafiam o petista na campanha, já que Flávio e a direita em geral se ancoram em discursos sobre o tema. Um novo lema, mais enfático, foi incorporado por Lula nesta quarta-feira (7). "Para o povo trabalhador, a proteção. Para o bandido, a prisão. É esse o nosso lema daqui para frente", afirmou.

Na parte de corrupção, os conselheiros do presidente têm defendido não só se descolar da crise de imagem do STF (Supremo Tribunal Federal) e de ministros da Corte desgastados pelo escândalo do Banco Master, mas também atacar os problemas com propostas para limitar emendas parlamentares e práticas de advocacia administrativa (quando um servidor usa sua posição para patrocinar interesses privados, direta ou indiretamente).

Mesmo que não haja medidas desenhadas nessa direção, o objetivo seria emitir uma sinalização firme para os eleitores preocupados com esses temas.

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