O Convento de S. Francisco de Orgens

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Olá, seja bem-vindo. Esta é a História das Histórias, já sabe, eu sou o João Paulo Secadura e Jorge Adolfo Marques, em Viseu, vai nos falar de um convento, provavelmente medieval. Vamos saber tudo sobre este convento. Como é que é, Jorge? São Francisco do Monte de Órgens. Eu nunca tinha ouvido falar. Vamos lá saber mais sobre este convento. Bem-vindo.
Olá, João e a todos que nos acompanham. Se não ouviste e se não visitaste, é uma boa oportunidade para ires lá visitar, porque é, de facto, um sítio muito bonito, aqui mesmo à saída da cidade de Viseu, a cerca de 4 km do centro da cidade, numa freguesia que se denomina Órgens. A fundação do convento de São Francisco do Monte de Órgens foi ali fundada e hoje o convento em si foi vendido em hasta pública no final do século XIX e apenas a igreja foi mantida como igreja paroquial. É essa história desse percurso que eu hoje vou procurar conversar um pouco contigo para que possas ir visitar e fiques a admirar ainda mais o lugar.
Fiquei curioso.
Foi um dos acontecimentos mais importantes daquela freguesia, daquela paróquia medieval, na transição da Idade Média pra a Época Moderna. Manuel Botelho Ribeiro Pereira, na sua obra "Diálogos Morais e Políticos", redigida em 1630, em Viseu, entre 1630 e 36, refere que durante o bispado de Dom João Homem, 1392, 1425, Pedro de Alamanços Galego, frade da observância, fundou a um quarto de légua desta cidade de Viseu, o insigne Mosteiro de São Francisco de Órgãos, no local onde já existia uma pequena ermida consagrada a São Domingos. Esta, sujeita ao cabido e sede Viseu, motivou grandes contendas e dúvidas, que terminariam com emissão de um breve pelo Papa Martinho quinto, em 1424, e executada volvidas dois anos por Dom Frei Aymaro Dorriac, bispo de Ceuta e capelão-mor do Infante Dom Henrique, com a demarcação e benção do cemitério conventual e mais diligências, como se menciona na História Serásquia da Ordem dos Frades Menores de São Francisco. A partir de então, havendo 18 anos que era fundado esse tal convento, dava-se o convento por bem fundado e aprovado, e absolvidos os freires que o principiaram sem autoridade apostólica. Quer dizer, os freires tinham fundado sem autorização, mas agora são perdoados.
Exatamente. Foram legalizados.
O doutor Ribeiro Pereira diz que correndo o tempo, cedeu o convento aos capuchos, tirando-os aos observantes.
Ok.
O que é interessante neste convento é que-
Mudaram de ramo, embora sejam da mesma ordem.
Exatamente. Muitos foram os beneméritos do convento de São Francisco do Monte de Órgens, a começar pelo rei Dom Afonso quinto. Esta semana já falamos de Dom Afonso quinto, que lhe doou a pedraria, quase toda de canto talhada, da cidade nova da Cava, de que se levantou a igreja. Portanto, com pedra tirada da cava, e vou sublinhar, da cava de Viriato.
Ah, ok.
Foi retirada de lá e foi levada pra ali pra construírem a igreja. Quase todo o dormitório e uma bela hospedaria, como ainda deu, para o mesmo fim, muita esmola e dinheiro, portanto, um grande benemérito Dom Afonso quinto, para estes monges.
Exatamente.
Em 1453, por carta passada em Évora, o monarca concedeu uma esmola mensal de 400 reais brancos e privilegiou os servidores deste mosteiro, nomeadamente o seu sapateiro, os carreteiros e almocres que lhe traziam lanhas e o pescado do litoral.
Peixes. Exato.
Exatamente. Seria ainda durante o reinado da Afonsino, mais precisamente em 478, que o convento de Órgãos passaria a dispor, e agora note-se, de um relógio mecânico, sem mostrador, construído por Frei João da Comenda, natural de São Pedro Sul. Eu gostava de te informar que esse relógio ainda lá está, na igreja. E funciona. Ele foi restaurado e funciona. Portanto, um dos relógios mais antigos de Portugal.
Exatamente, tem mais de meio milênio. Incrível.
Exatamente. Também o infante Dom Henrique, primeiro duque de Viseu, a rainha dona Maria, segunda mulher de Dom Manuel primeiro, e a infanta dona Maria, senhora de Viseu, bem como os bispos visenses Dom João Gomes de Abreu, que patrocinou a construção da Torre do Relógio em 1476, e Dom Gonçalo Pinheira, que lhe acabou o novo dormitório em 1563, contam-se entre os mais ilustres beneméritos do convento. Portanto, gente muito importante da Casa Real, e não só, e grandes bispos que foram patronos deste mosteiro. Leigos como Isabel de Amaral e Vasconcelos, custeou a construção de uma nova sala do capítulo, Branca Teixeira, a Capela da Conceição, e o ferreiro João Afonso, de uma povoaçãozinha, de uma freguesia próxima da cidade, Fregosela Esse ferreiro patrocinou a construção do claustro, edificado em 1532 por frei António de Buarcos, como atestava uma inscrição que estava colocada nesse claustro que ele patrocinou. Veja se muita gente a patrocinar. A auréola de santidade que os frades de Órgens granjearam, levou muitos membros da fidalguia viziense, e não só, a escolhê-lo como local de sepultamento, como última morada. A este propósito, referia Manuel Botelho Pereira, nos já citados "Diálogos Morais e Políticos", que no chão da capela-mor jazia sepultada Dona Leonor de Castro, filha de Pedro de Castro, mulher que foi de Dom João Reis de Pereira, filho de Gonçalo Pereira de Riva de Vizela, e junto a de seu irmão Dom Henrique de Castro. Portanto, uma série de figuras ilustres que procuram aquela última morada, aquele mosteirinho. Acrescenta este autor que junto do altar colateral de Santo António, com a sepultura ao pé, mandou fazer Beatriz Nunes da Costa, mulher de Leonaldo Queiroz Castelo Branco. Mais figuras naquele espaço dentro da igreja. Os nobres, de alguma maneira, "compravam", com esse patrocínio, esse dinheiro, essas doações, essas esmolas, compravam um lugar dentro da igreja, quanto mais próximo do altar, mais era garantida a salvação dessas pessoas. Sendo que no exterior havia cemitério para as classes mais populares, que eram ali sepultados. Um dos que se encontra também ali sepultado é Dom Francisco Coelho, cuja alcunha era "o do Olho", que faleceu em 4 de fevereiro de 1558, de que restam também alguns vestígios da sua sepultura. Em 1613, apesar do grande prestígio que o Convento de São Francisco tinha tido, o padre guardião frei Leonardo de Jesus, requereu à Câmara Municipal de Viseu a sua transferência para a cidade, alegando que a ação benemérita dos frades seria ali desenvolvida de melhor forma que no Convento de Órgãos, que necessitava obras e se calhar já não havia tantos beneméritos, portanto, não tinha as melhores condições para os frades. A transferência foi aprovada em 1613, efetivou-se em 1635, com a instalação dos franciscanos nas casas do falecido chantre Dom António Almeida Abreu, em Massurinho. A partir de então, esse convento passou a ser um simples oratório e apesar da mudança registada de São Francisco de Órgãos, ele viria a ser objeto de importantes obras ainda no século XVII e em meados do século XVIII. Mas a verdade é que, chegados a 1834, com o decreto de 30 de maio do ministro da Justiça, Joaquim António de Aguiar.
Exatamente, o Matafrades.
O Matafrades, exatamente. Ele que ditava a imediata extinção de todas as casas religiosas e a incorporação dos respectivos bens na Fazenda Nacional. Nesse mesmo ano, em 34, o antigo Convento de Órgãos foi comprado por António Rodrigues de Loureiro, conhecido por António Jerónimo, o Pepino, portanto alcunha, o Pepino. Que o demoliu quase totalmente e pôs mesmo em risco de derrocar a igreja. E a igreja não foi vendida, como eu disse no início. Ela era para a paróquia. Passou a ser igreja paroquial, em substituição de uma capela, que ainda hoje é uma capela muito importante na freguesia de Órgãos, que é a Capela de Santa Ana. Eu queria só terminar, não com uma notícia trágica, mas este senhor António Jerónimo, dito o Pepino, foi assassinado pouco tempo depois, em circunstâncias pouco esclarecidas. Talvez tenha a ver com esta má relação que ele tinha com a população de Órgãos e com o facto dele ter demolido parcialmente e ter colocado em risco a demolição da própria igreja paroquial. Portanto, João, tens aqui uma boa oportunidade para ir a Órgãos visitar o que resta do Convento São Francisco de Órgãos.
Muito bem, fica combinado. E por nós estamos despachados para esta semana. Jorge, quero dar-lhe um grande abraço e marcamos encontro então para a semana. Bem-hajas.
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