'Magia tributária' faz Brasil subsidiar refrigerante sem contrapartida

A Coca-Cola talvez seja o exemplo mais bem acabado de capitalismo sem risco no Brasil, porque não tem como ela perder dinheiro com o esquema tributário que existe hoje. A multinacional tem uma subsidiária no Brasil, a Recofarma, que fica em Manaus, dentro da Zona Franca. Quem está lá dentro tem isenção tributária e não paga, por exemplo, IPI. A Recofarma fabrica o xarope e vende para as engarrafadoras. Quando você compra de alguém isento, ganha um crédito tributário para abater outros impostos. Só que o crédito é proporcional ao valor gasto para comprar o xarope - e o xarope é vendido muito caro. Quanto mais caro, maiores os créditos tributários que isso gera.
José Roberto de Toledo
Segundo Toledo, as engarrafadoras que compram o concentrado e fazem o refrigerante operam em diferentes estados e, no desenho do negócio, aparecem grupos com influência política, o que ajudaria a manter as brechas mesmo após questionamentos.
Ele diz que estudos do Centro de Estudos Tributários da Receita Federal apontam um efeito incomum: a cadeia gera uma "alíquota efetiva negativa" de IPI, porque os créditos fiscais superam a arrecadação final do imposto.
O Estado está subsidiando a Coca-Cola porque ele arrecada menos em toda a cadeia do que o volume de créditos fiscais que a aquisição do xarope produz. A Coca-Cola no Brasil é subsidiada, mas quem se aproveita desse subsídio não é o consumidor final, que vai pagar relativamente caro em relação ao seu poder de compra. A gente paga para a Coca-Cola ganhar dinheiro e distribuir dividendo para os seus acionistas.
José Roberto de Toledo
Thais Bilenky afirma que, no desenho descrito, a isenção não se transforma em desconto na prateleira. "A isenção que o governo dá para a Coca-Cola não é repassada para o consumidor", diz, ao argumentar que o preço ao consumidor não cai.
Bilenky cita o relatório da ACT ao afirmar que, em renúncia fiscal, a Coca-Cola teria feito mais de R$ 2 bilhões em um ano, em 2024, e mais de R$ 5 bilhões em incentivos fiscais entre 2015 e 2023.
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