Flávio Bolsonaro pode ser 1º candidato a virar no 2º turno desde 1988, diz analista
O cenário traçado pelas pesquisas eleitorais a 15 dias da eleição aponta para um segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), com petista à frente no primeiro turno.
Em uma eventual disputa do segundo turno, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro precisaria ampliar a participação de eleitores que não compareceram às urnas ou votaram em branco e nulo em 2022 para conseguir uma virada em um eventual segundo turno da eleição presidencial de 2026, segundo Rafael Cortez, cientista político e sócio da Tendências Consultoria.
Em entrevista ao programa Eleições em Pauta, da EXAME, Cortez afirmou que, caso a disputa avance para uma segunda etapa contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a capacidade de mobilizar esse eleitorado será um dos principais fatores para definir o resultado.
“Se mais pessoas forem votar em 2026 do que foram em 2022, ou seja, se a taxa de abstenção cair, acho difícil um cenário em que o Flávio não ganhe. Porque a tendência é que esse eleitor que não foi lá atrás e que agora vai participar, que ele opte pela oposição”, afirmou.
Segundo o cientista político, a lógica está relacionada ao comportamento dos eleitores que já têm uma preferência consolidada. Lula mantém o apoio de quem aprova seu governo, enquanto Flávio herda parte do eleitorado identificado com o bolsonarismo e pode atrair quem reprova a gestão petista, que hoje passa de 50%.
Uma eventual virada no segundo turno
Cortez afirma que uma vitória do senador do PL após uma desvantagem inicial teria como referência uma mudança de comportamento do eleitor entre o primeiro e o segundo turno.
“Se o Flávio conseguir fazer com que mais gente vá votar no segundo turno, ele vai ser o primeiro nome desde 1988 a conseguir virar uma disputa no segundo turno”, afirmou.
Segundo ele, esse intervalo entre as duas votações será decisivo porque pode alterar o nível de participação do eleitorado.
“Se for para o segundo turno, eu acho que é um quadro muito complicado para o governo Lula. Porque Lula vai ter com esse problema de desaprovação, que vai ter que contar com uma abstenção e um branco e nulo em patamar alto”, afirmou.
No primeiro turno de 2022, brancos e nulos somaram 5,3 milhões de eleitores. Outros 32,7 milhões não foram votar. Já no segundo turno, o número de brancos e nulos saltou para 5,7 milhões de eleitores, enquanto a abstenção caiu para 32,2 milhões.
A dificuldade de transformar desaprovação em voto
Cortez afirma que uma eleição presidencial funciona, em grande medida, como uma avaliação do governo em exercício. Quando a percepção sobre a administração é positiva, o caminho tende a ser de continuidade; quando a desaprovação cresce, abre-se espaço para a oposição.
“Primeiro turno, a aprovação se concentra mais no Lula, porque quem aprova o governo vai na continuidade. Quem desaprova tem mais opção do que fazer”, disse.
Segundo ele, essa é uma das dificuldades da candidatura de Flávio Bolsonaro: transformar a insatisfação com o governo em uma escolha direta pelo candidato.
“Por isso que é mais trabalhoso para o Flávio, porque o eleitor pode ir para outros candidatos, pode não votar ou pode votar em branco e nulo”, afirmou.
Para Cortez, Lula tem uma vantagem inicial entre os eleitores satisfeitos com sua gestão.
“Quem gosta do governo quer reforçar essa continuidade”, disse.
O limite da polarização entre Lula e Bolsonaro
Para o cientista político, a disputa entre os dois principais campos políticos mantém uma característica semelhante à eleição de 2022: os eleitores mais identificados com cada lado tendem a repetir suas escolhas.
“Se os dois que vão mais competitivos têm basicamente o mesmo conflito, você só troca o Jair por Flávio. Todo mundo gostou do que fez lá atrás, porque o lulista continua lulista, o bolsonarista continua bolsonarista”, afirmou.
Nesse cenário, a principal mudança dependeria justamente dos eleitores que não ficaram vinculados a nenhum dos dois grupos.
“O que é que pode mudar tanto? Então, o que pode mudar tanto é o que foi branco e nulo lá atrás ou quem não foi votar”, disse.
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