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Tuesday, October 13, 2026

Segredo na cerâmica: o truque proibido de Liliana Velho!

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Sejam muito bem-vindos ao programa "A Nossa Cultura". O meu nome é Martim Madeira e continuamos nesta entrevista com a Liliana Velho, que está aqui a explicar-nos um pouco da obra e da exposição "Regenerar Estados Transitórios". Já vimos a primeira peça, vamos agora passar para a segunda. E Liliana, aqui consigo já notar mais um formato de coração. Apesar de não estar tão uniforme, pelo menos para mim, parece um bocadinho mais um formato de coração. Noto outra vez a forma de corais, parece-me sempre corais, pelo menos para mim. E desta vez vejo que temos uma, duas, três, quatro, cinco pedras maiores que se nota aquele último U do coração e depois sobe para fazer a forma final, aquele M e aquele U de um coração. Desta vez escolheu tons diferentes da primeira. Vejo que está ali também um bocadinho de verde que estava na primeira peça, mas agora tem uns tons mais de azul. Por que este coração menos uniforme, mais notório, na minha opinião, mas um bocadinho mais espalhado?

Este coração imaginou-se que ele se estava a desagregar no campo. E para fazer essa separação das partes, isolei as formas que constituem o coração, ou seja, temos as artérias por um lado, depois temos os volumes debaixo que dão a forma ao coração. Basicamente, foi isolar esses volumes e depois fazê-los isoladamente. Em vez de termos uma peça que é totalmente modelada, são várias peças que são colocadas na parede como se estivéssemos a fazer um desenho.

Parece que estamos a olhar para uma nuvem e a nuvem vai ganhando forma. Pelo menos é o que me parece a mim nesta peça. Eu, por acaso, quero destacar aqui em cima de uma das pedras, da pedra mais acima, do lado esquerdo, que compõe aquele U final, que normalmente dá a forma convencional quando desenhamos um coração. Não sei como é que fez esta parte exatamente, esta parte aqui. Porque a mim parece-me um bocadinho papel, parece que está meio machucado. Como é que fez esta parte da peça? Porque para mim é, de facto, a que me parece mais complicada. Não sei se foi, mas parece-me o mais complicado a fazer destas componentes que todas têm aqui.

Por acaso é a mais complicada, porque ela basicamente é um barro que é muito plástico, ou seja, isto significa que é muito fácil de modelar e é muito fácil dar-lhe forma. E basicamente o que nós temos ali é a impressão dos dedos a puxar o barro. Foi super rápido de fazer. É uma peça muito espontânea, na verdade. Não tem uma forma tão elaborada como as de baixo, que depois de serem modeladas, foram alisadas, foram vidradas. Aquela nem tem propriamente uma técnica, é basicamente fazer pequenas texturas no barro com os dedos e o que nós temos são mesmo as texturas da nossa mão.

Inclusivamente, até olhando, consigo ver ali duas pequenas dedadas mesmo nesta componente, que para mim, pelo menos, pareceu a mais complicada. Aparentemente, foi relativamente fácil. Mas, por exemplo, e estas pedras aqui cheias de texturas, como é que se chegou a esta textura? Porque parece-me que, eu confesso, não sei os nomes dos utensílios utilizados no barro, mas sei que normalmente se usa, por exemplo, para retirar bocadinhos, aquele utensílio que tem uma espécie de covinha, parece um "O" e utiliza-se para fazer essas covinhas. Como é que fez essas pedras? Porque elas têm tom de azul em certos sítios, mas depois há ali umas partes que estão mais desenhadas que não têm o azul.

Sim. Para fazer estas peças, aliás, a maior parte das peças que estão aqui agora, as restantes já foram feitas por lastra. E lastra é uma técnica que basicamente é fazer uma caminha de barro, é o que se faz para fazer azulejos, por exemplo. Fiz essas lastras e depois utilizei uns moldes para lhe dar a forma destas pedras. Para fazer este efeito do vidrado, que parece que está a retrair, é um truque que se faz. Isto, na verdade, não é aconselhável, mas é assim que eu faço. Normalmente, a cerâmica vai uma primeira cozedura, que se chama achacota, e depois vai uma segunda cozedura para a vidragem, para pormos a cor, o vidro. E o que é que eu faço? Eu faço só uma cozedura com a achacota e o vidro. E depois faz este efeito que é o vidrado não acompanha a cozedura e por isso é que parece que está a retrair e basicamente aproveito-me deste acidente. Provoco precisamente porque o acho interessante.

Também acho interessante estas partes aqui de cima, porque vemos uns que estão a verde, a mim parecem mais vidrados, outros que não estão tão vidrados, parecem mais uma espécie de gesso, diria. Por que a opção de fazer uns vidrados, outros menos vidrados?

Eu acho que com o tempo, eu não sei se isto acontece a todos os ceramistas, mas passado algum tempo começo a fartar-me muito dos vidrados. E os engobes, que são estes mais matte, que não têm brilho, permitem-nos sempre ver as formas com mais clareza. Esta aqui debaixo também só tem o engobe, não tem o vidrado. Depois de me ter saturado um bocadinho dos vidrados, vou tentando fazer este diálogo em que uso sempre vidrados e engobes, usar os dois ao mesmo tempo. O engobe, tal que não tem brilho, para explicar o que é. Basicamente, o engobe é o próprio barro misturado com um bocadinho de pigmento que lhe dá a cor. Como é o próprio barro, não tem vidro, não vai ter brilho.

E está concluída esta segunda peça desta obra de Liliana Velho. Passaremos para a terceira no próximo episódio de "A Nossa Cultura", portanto, fique atento.

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