'Naza' torna difícil que espectador se omita em relação à guerra em Gaza
"Estamos fazendo tudo para evitar mortes de civis, mas o nosso inimigo se esconde utilizando civis como escudos humanos", afirma o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, em cena do documentário "Naza", que estreia no Brasil nesta quinta.
Depois de assistir ao filme, fica bem difícil acreditar nisso.
O documentário ouve 24 militares da inteligência de Israel encarregados de monitorar e matar à distância palestinos em Gaza. Os agentes revelam como a inteligência artificial e a alta tolerância para "danos colaterais" transformaram as forças israelenses em uma máquina de massacrar civis em Gaza, onde mataram mais de 74 mil palestinos desde o início da guerra.
O conflito foi desencadeado pelos atentados de 7 de outubro de 2023, quando membros da facção extremista Hamas mataram 1.200 israelenses e sequestraram 251.
O documentário venceu o prêmio especial do júri no Festival de Veneza deste ano, onde foi ovacionado durante 25 minutos. É dirigido pela dupla de israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, responsáveis por "Sem Chão", que venceu o Oscar de melhor documentário no ano passado ao retratar ataques de colonos, com apoio das forças israelenses, a vilarejos na Cisjordânia.
"Naza" é abreviação para o termo em hebraico "nezek agavi", que significa danos colaterais.
Após o 7 de Outubro, descrevem os militares, a noção de que não havia ninguém inocente em Gaza se espalhou pelo Exército. "E, de repente, começamos a derrubar prédios inteiros. Sem qualquer problema."
Para isso, contavam com um programa de vigilância sofisticado. Eles relatam como todos os celulares de Gaza são monitorados pela inteligência israelense, que tem acesso às conversas no telefone, mensagens e localização.
Com ajuda de um programa de inteligência artificial chamado Lavender, eles marcavam potenciais alvos —pessoas que provavelmente seriam ligadas, de alguma forma, ao Hamas. O Lavender destacou entre 60 e 70 mil celulares.
"Uma vez marcado o telefone, podíamos bombardear", diz um militar. "Gaza virou uma fábrica de alvos." O detalhe é que o sistema, segundo eles próprios, não é infalível —tinha taxa de acerto de 85%.
Cada alvo recebia seu "naza" —os danos colaterais "aceitáveis", o número de civis que poderiam morrer em um ataque. "Dizemos 15 'naza', não dizemos 15 pessoas morrerão, muito menos 15 mulheres e crianças morrerão", conta um dos militares.
Abraham entrevista os militares em sacadas de prédios em Tel Aviv, à noite. Os agentes tiveram suas imagens e vozes alteradas digitalmente, para proteger suas identidades.
Intercaladas com as entrevistas na penumbra, surgem imagens feitas através das janelas de apartamentos na cidade, que mostram cenas da rotina dos israelenses —uma pessoa vendo televisão, outra cozinhando, uma terceira limpando a mesa de jantar. Rotinas prosaicas, bem diferentes das vividas pelos habitantes de Gaza, a apenas 60 quilômetros dali.
O filme desmonta a tese de que o conflito gera um número enorme de mortes entre civis porque o Hamas os usa como escudos humanos. "Tinha que ser tomada a decisão: vamos bombardear os alvos à noite, com toda a família junto, ou quando eles estão se reunindo? O consenso foi que deveríamos bombardear à noite, teríamos mais chances de êxito", diz um dos entrevistados. "O objetivo era quantidade, não qualidade."
Um dos mecanismos descritos pelos militares, chamado de "onde está o papai?", alertava quando um suposto membro do Hamas estava indo para casa. "Eu grampeio o telefone de uma menina de 12 anos, ela liga para a mãe e diz 'quando você vai voltar para casa?' O pai acabou de chegar. A mensagem gera um alerta no sistema devido às palavras pai e voltar." Em um dos ataques, descobriram que haviam matado 13 familiares do alvo —mas ele não estava em casa.
Um dos militares diz que o maior "naza" que obteve foi 500 em um ataque aéreo para atingir um alvo.
Alguns entrevistados parecem arrependidos, outros, orgulhosos. Narram como estavam derrubando prédios indiscriminadamente e incendiando casas. "As forças estão destruindo tudo, para que as pessoas não tenham para onde voltar", diz um deles. Outro relata como civis desarmados, na fila para buscar comida dos comboios humanitários, eram alvejados.
O documentário nasceu a partir de reportagens feitas por Abraham em 2023 e 2024 nos veículos israelenses +972 e Local Call. Na época, geraram críticas pelo anonimato das fontes e pela percepção pública de que o foco deveria ser as vítimas israelenses do Hamas, e que as ações das forças israelenses eram uma reação justa.
A reação ao documentário foi muito mais virulenta.
Netanyahu propôs uma lei que permitiria revogar a cidadania de Abraham e Szor. O ministro da Cultura, Miki Zohar, defendeu uma investigação para determinar se os cineastas receberam informações do Hamas e, portanto, cometeram traição à pátria.
Manifestantes na frente da casa dos pais de Szor pediram a execução dos diretores do documentário, aos gritos. As Forças de Defesa de Israel questionaram o uso de fontes anônimas no filme e negam que suas estratégias levem à morte indiscriminada de civis.
Em uma das entrevistas mais emblemáticas, Abraham pergunta a um militar se ele nunca tentou se opor à estratégia usada pelas forças israelenses. "Minha função é técnica. Eu não devo externar posições morais ou princípios", diz o militar.
Para o espectador, a magnitude e o método do massacre de civis, revelados no filme, tornam difícil se omitir em relação às implicações morais e políticas da guerra em Gaza.
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