A coragem de dizer não

Vivemos num tempo em que construir parece ser sempre a resposta. Construir mais, construir maior, construir mais depressa. Como se o progresso pudesse ser medido pela quantidade de metros quadrados que acrescentamos ao mundo. Mas talvez uma das maiores responsabilidades de um arquitecto seja, precisamente, saber quando não construir.
Ao longo da minha vida, fui percebendo que a arquitectura não começa no desenho. Começa na dúvida. Na capacidade de questionar aquilo que nos é pedido, de compreender o lugar antes de o transformar e de reconhecer que nem todas as ambições justificam uma intervenção. Há uma diferença profunda entre o que podemos fazer e o que devemos fazer.
A arquitectura é uma profissão extraordinária, mas também carrega uma enorme responsabilidade. Trabalhamos com o território, com a memória, com os recursos e, sobretudo, com a vida das pessoas. As nossas decisões vão muito além de nós. Um erro pode atravessar gerações. Uma boa decisão também.
E, no entanto, vivemos numa sociedade que raramente recompensa a contenção. Celebramos a novidade, a dimensão, a imagem. Fotografamos o resultado, mas raramente questionamos o processo. Interessa-nos aquilo que se vê, quando, tantas vezes, o verdadeiro valor da arquitectura está precisamente no que decidimos não fazer.
Não cortar uma árvore. Não alterar uma topografia. Não apagar uma memória. Não ocupar todo o espaço disponível. São decisões aparentemente pequenas, mas que podem definir a qualidade de um projecto.
Acredito que a criatividade não se mede pela quantidade de gestos que introduzimos num lugar. Por vezes, manifesta-se na capacidade de retirar, simplificar ou simplesmente deixar estar.
Isto não significa defender uma arquitectura tímida, nem renunciar à ambição. Pelo contrário. A verdadeira ambição exige discernimento. Exige perceber quando devemos ser ousados e quando devemos ter a humildade de reconhecer que o lugar já possui qualidades que nenhum desenho conseguirá melhorar.
Também não acredito que o arquitecto deva ser apenas o intérprete das vontades de quem o contrata. Temos o dever de ouvir, naturalmente. Mas temos igualmente a obrigação de questionar, propor alternativas e, quando necessário, discordar.
Dizer não pode significar, perder uma oportunidade. Pode tornar uma reunião desconfortável. Pode contrariar expectativas. Mas a independência de pensamento tem um preço e a arquitectura perde muito quando deixa de estar disposta a pagá-lo.
Com os anos, tornamo-nos talvez menos fascinados pela necessidade de deixar uma marca e mais atentos à importância de deixar algo intacto. O território não é uma folha em branco. Uma cidade não é uma sucessão de oportunidades imobiliárias. E a paisagem não existe à espera de um arquitecto que lhe dê significado.Já o tem. Cabe-nos compreendê-lo.
Devemos começar a avaliar a qualidade da arquitectura não apenas pelo que acrescenta, mas também pelo que consegue preservar. Porque construir é uma possibilidade. Saber quando não construir é uma escolha. E, por vezes, é nessa escolha que começa a verdadeira arquitectura.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.