Cabines que aceitam dinheiro praticamente somem das praças de pedágio
Em recente viagem ao interior de São Paulo, o agente aeroportuário Gustavo Fernandes Neto, 38, ficou confuso ao escolher a cabine de cobrança em uma praça de pedágio. Ele pegou o potinho de moedas no console do carro, mas ao se aproximar da cancela, não tinha ninguém para contar o dinheiro e dar o troco e o comprovante. No lugar, apenas um totem de autoatendimento.
"Tive que pegar o cartão de débito da carteira para pagar", afirma Gustavo, que mantinha o costume de guardar moedas no carro, justamente para ajudar no troco do pedágio.
As cabines que aceitam pagamento em espécie são cada vez mais escassas nas rodovias do país.
Elas têm perdido espaço para pistas de passagem rápida, com leitura de tag colada no para-brisa, ou ainda totens e guichês com sistemas de autoatendimento para pagamentos com cartões e meios eletrônicos, como celulares e relógios inteligentes.
Por contrato, a disponibilidade de cobrança em espécie em pedágios continua obrigatória no estado de São Paulo, segundo a Artesp (agência reguladora paulista).
Porém, há estradas do interior em que essas cabines nem existem mais, como em trecho da Washington Luís. Se o motorista tiver apenas dinheiro, precisará chamar um operador para fazer o pagamento.
Segundo Fabio Souza, gerente de operações e tecnologia da concessionária Eixo-SP, o procedimento em terminais de autoatendimento leva de 10 a 15 segundos.
"Com pagamento em dinheiro é variável, mas o tempo costuma ser maior por causa de processamento de troco e conferência", diz.
O vendedor Sandro Luiz Gonçalves, 50, aposentou o dinheiro há cerca de quatro anos, quando as maquininhas passaram a ser usadas nos pedágios. "Antes era só débito, mas depois passaram a aceitar crédito também. É um pouco mais rápido que pagar no dinheiro", afirma.
A circulação de notas e moedas no país diminui a cada ano. Segundo o Banco Central, os saques caíram 13,8% no segundo semestre de 2025, na comparação com o mesmo período de 2024, enquanto o Pix, por exemplo, respondeu por 54,7% das transações de pagamento.
O uso de meios eletrônicos para pagamentos de pedágios acontece no país há cerca de dez anos. Mas uma portaria do Ministério dos Transportes só o regulamentou em 2024.
O gerente de planejamento e atendimento do grupo Motiva, Jorge Manuel Gonçalves Pereira, explica que o dinheiro nos pedágios responde hoje por 3% da movimentação.
A empresa, que faz a gestão de trechos dos corredores Anhanguera-Bandeirantes e Castelo-Raposo e estradas federais como Presidente Dutra e Fernão Dias, diz que a parcela de pagamento em espécie deve cair a 1% ainda neste ano. No início de 2022, o dinheiro representava 25% dos pagamentos.
No caso da rodovia dos Bandeirantes, de 16 cabines, apenas duas aceitam dinheiro atualmente. Há seis automáticas (para uso de tags) e oito de autoatendimento.
Nas rodovias do grupo, o Pix é aceito apenas nas cabines manuais, que também recebem dinheiro — o que deve mudar até o fim do ano. Em outras concessionárias isso já é realidade.
As tags representam até 90% dos pagamentos nas rodovias consultadas pela reportagem.
Mudança resolve problema de falta de troco
A automatização do pagamento acabou com um dos maiores problemas operacionais dos pedágios: a falta de troco.
Pereira conta que a empresa chegou a incentivar funcionários a levarem moedas para trocar por cédulas, com direito a prêmio.
"A logística do dinheiro é complexa, cara e perigosa", diz o gerente, ao citar que os assaltos nas praças de pedágio despencaram.
A forma de pagamento varia de acordo com a região. No interior, diz o executivo, é comum produtores rurais levaram dinheiro da venda da produção para o pedágio. No Sul do país, as tags ainda têm potencial de crescimento.
Na contramão das estradas do estado, os trechos sul e leste do Rodoanel Mário Covas têm 27% dos pagamentos feitos em dinheiro. Isso corresponde a 3% do faturamento da concessionária SPMar. Conforme a empresa, não há prazo definido para a descontinuidade do recebimento em espécie nas praças de pedágio.
A concessionária Entrevias, que entre outros faz a gestão da rodovia Anhanguera, na região de Ribeirão Preto, também não tem data para eliminação do pagamento em dinheiro. A empresa, no entanto, diz que em breve serão disponibilizadas cabines autônomas que aceitarão cartão de débito e crédito.
A Arteris, responsável por 2.600 km de estradas em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina, afirma que há desafios técnicos para a expansão da tecnologia, como a integração segura de sistemas e a garantia de conectividade em tempo real.
Conforme a agência reguladora de São Paulo, as operadoras das rodovias possuem autonomia e competência para adotar estratégias na operação dos pedágios.
Os contratos não estabelecem quantidade mínima de cabines para pagamento por qualquer modalidade. Cabe à empresa implantar ações para garantir a fluidez nas transações de pagamento.
Nas estradas da EcoRodovias, o dinheiro continua sendo aceito em 70% das cabines. No entanto, diz a concessionária, a expansão de pedágios eletrônicos de passagem livre, como free flow, e meios digitais, têm impulsionado a redução frequente do uso de cédulas.
No sistema Anchieta-Imigrantes, o grupo trocará as cabines tradicionais por free flow ainda neste ano. A mudança estava prevista para começar em 1º de agosto, mas um dos pórticos será alterado após pressão de moradores.
Como mostrou a Folha, a ABCR (Associação Brasileira das Concessionárias de Rodovias) estima que em até cinco anos, todas as praças de pedágios comuns devem ser substituídas por pórticos de free flow, onde a cobrança é feita com veículo em movimento.
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