Porque é que não há ninguém que não goste de Jorge Palma?

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Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o vosso ato contínuo, a vossa terra dos sonhos, das coisas da cultura popular. Mais uma vez juntos, Maria Ramos Silva, Bruno Veira Amaral e Pedro Bucher Mendes. Podíamos continuar a usar de forma descarada muitos títulos de canções de Jorge Palma, porque é precisamente sobre Jorge Palma que vamos falar esta semana. O compositor e cantor morreu esta semana, na segunda-feira, dia 21 de setembro. Tinha 76 anos. Foram mais de cinco décadas a fazer canções e a gravar discos, a conquistar diferentes gerações, a fazer dos concertos uma espécie de festa de família e a dar o seu contributo valioso para mudar a canção portuguesa, de tal forma que, pelo menos por estes dias, não há quem não se diga influenciado pela obra que fez. Pedro Bucher Mendes, vamos começar por ti. Eu partilhei este meu pensamento, esta minha filosofia com a Maria Ramos Silva. Eu também preciso de validade.
É preciso. A Maria Ramos tem escrito um livro sobre os anos 80.
E agora precisava de um nariz novo esta semana, não está fácil.
80 e 90, não é, Pedro?
Exatamente. Nada acontece por acaso neste programa. Porque fiquei com a ideia, é a sensação que tenho, é que nas diferentes fases artísticas e pessoais também, o Jorge Palma de alguma forma conseguiu ser um bom espelho de diferentes décadas, sobretudo 80, 90 e aquela primeira década dos anos 2000. E conseguiu também, sobretudo, ser um bom espelho de Lisboa, mais do que se calhar o país inteiro, digo eu. Não sei se concordas, se estás completamente contra a minha opinião.
Estou.
E, portanto, é por isso é que és o primeiro a falar.
O Jorge Palma morreu esta semana. Os sentimentos à família, evidentemente.
Com certeza.
É um caso curioso, porque nós começamos a despertar pra música portuguesa ou a música em português no princípio dos anos 80, e dizia-se, naquela altura, que jamais em tempo algum poderia haver uma canção pop rock cantada na língua portuguesa de Portugal, porque tudo soava melhor em inglês. Mesmo nós, nas nossas tentativas de fazermos letras de músicas, não sei se passaram por isso, provavelmente passaram.
Claro que sim.
Se calhar, escrevíamos poemas às namoradas em português, mas depois fosse para escrever uma popalhada, uma rockalhada, porque havia um amigo que sabia tocar guitarra e se calhar íamos ter uma banda, íamos logo para inglês. E o disco "Ard Rock" do Rui Veloso, que nem sequer é de rock, mas pouco importa, muda um pouco isso. Depois começamos a ter o Chico Fininho e o chamado boom do rock português, os Gerês de Mata, GNR, etc. Essa malta toda. Não há Jorge Palma neste panorama. E o rock português dura dois, três, quatro anos. O rock português e tal. Via uma banda, davas um pontapé num calhau e aparecia uma banda. E tinha a ver com uma certa energia, com uma certa eletricidade, que fazia, por exemplo, com que Lena d'Água e Salada de Fruta fossem pop rock aceitável, mas as Doces ainda não fossem, porque eram música de festival. A música portuguesa, no fundo, era o fado, era a música de festival e eram as rockalhadas dos Salada de Fruta, ou dos Xutos. Os Xutos também chegam depois ao grande público. E acontece uma coisa no final dos anos 80, princípio dos anos 90, que é uma saturação com essa eletricidade. E nasce um projeto muito importante na música portuguesa, muito difícil de classificar e muito difícil de integrar, que são os Resistência. Integrar numa narrativa das décadas.
Sim.
Os Resistência são versões acústicas de sucessos que já existiam, por exemplo, "Não Sou o Único" dos Xutos, que é uma música muito mexida de 87, mas que depois é transformada num grande hino acústico e a malta cantava.
Sim.
Pronto. E era o Olavo Bilac e o Miguel Ângelo. E aí não há Jorge Palma. Portanto, uma das coisas interessantes do Jorge Palma é que as suas músicas, o "Deixa-me Rir da Vida" ou "Bairro do Amor", não foram recriadas pelos Resistência. Estava a pensar nisso na preparação deste programa e acendeu-se assim uma lâmpada como era nos livros do professor Pardal.
Com certeza.
Eu não vi isso referido, não sei se não foram 44 milhões de textos que foram escritos sobre o Jorge Palma.
Mas tu achas que isso é um sinal do quê?
É um sinal de que ele não era ainda conhecido/reconhecido/integrável nas várias tribos portuguesas. Falou-se imenso do Jorge Palma e, justamente, mas não se falou, por exemplo, do Pedro Alves Magalhães. Que é uma pessoa que ainda é viva, felizmente, e que foi um nome muito importante, é um compositor muito importante da música portuguesa, como são outros, obviamente. Quando o Palma aparece com o Só, a música acústica, por causa dos acústicos da MTV, e muito por causa dos Resistência. Os Resistência ali em 91, 92, eram a banda mais falada em Portugal. O disco estava sempre em número um do top. Nós víamos aqueles programas de tops na RTP. Estava sempre em número um, estávamos sempre a ouvir o Nash Selvagem, o "Não Sou o Único" e por aí fora.
Esse tipo de música valida as chamadas músicas acústicas, à falta de melhor palavra. No fundo, o Palma não era um rocker. Não era do Festival da Canção, não era pimba.
Ainda que também tenha participado.
Não era do fado. O Jorge Palma era o Jorge Palma e, afinal, nós podíamos ouvir e gostar de música acústica. Estou a usar a palavra. Estou falando em termos de grande público, obviamente. Pessoas normais. O Jorge Palma começa a fazer o seu caminho, porque tinha composições, tinha e tem, as composições ainda existem, que são tremendamente odilhudas, muito entoáveis e cantáveis, que as pessoas identificaram, gostaram e ainda gostam.
Sim, o álbum "Só", de 91, vai buscar uma série de canções que ele gravou.
Não é um álbum de originais.
Exato. Foram canções que ele gravou nos anos 80, em diferentes discos. Grava-as sozinho ao piano em estúdio, um live on tape, sozinho. E parece-me que esse disco, ao longo da década de 90, vai congregando gente toda a gente, devagarinho. Vai fazendo um caminho.
De alguma forma, parece que o Palma foi o Spotify antes do Spotify.
Exato.
É extraordinário.
É o paradigma daquele momento em que muda tudo, ainda que demore e precise de tempo. Não sei se foi assim contigo. Diria eu que fazes parte daquela geração que, com o "Só", descobre o Jorge Palma e, eventualmente, vai atrás e depois segue daí em diante.
Também, mas o "Só" quando sai, originalmente, é em 91, portanto eu, na altura, ainda sou um pouco pequenina.
Exato.
E eu acho que vou agarrar, de uma forma mais convicta, ou seja, o Jorge Palma, com um álbum, curiosamente, ao vivo, do "Tempos de Assassinos", em 2001, por aí 2002. Na altura, já terei 17, 18 anos. E para mim, a grande revelação, obviamente, a qualidade do que ali estava, mas também é uma coisa que eu guardo até hoje. Eu acho que o Palma é, essencialmente, ou era, pelo menos para mim, uma experiência de comunhão ao vivo. É, obviamente, fascinante sempre ouvir um CD do Palma. Aliás, aproveito para fazer esse apelo. Eu não sei se é possível, hoje, fisicamente comprar e ter acesso à música toda do Palma, mas acho que era importantíssimo trabalhar nesse sentido, recuperar os álbuns mais antigos. Mas de facto, era uma coisa que te apontava um caminho sempre numa experiência ao vivo, vivido, ainda que de uma forma que podia ser solitária, mas com amigos, com mais gente. Até porque eu acho que tu ouvias o Palma, ouvias as letras e as canções do Palma, mas ouvias, sobretudo também, e neste caso, vias a performance do Palma. O Palma era isso tudo. Era aquela osmose entre ele e o piano. Quer dizer, tudo aquilo era uma coisa que nós podíamos e conseguíamos imaginar em casa. Ouvi, por exemplo, este "Tempos de Assassinos", um álbum ao vivo, e eu achei aquilo fascinante. Se eu achei aquilo bom num CD, imaginava bem isto. Com certeza deve ter sido espetacular. E eu acho que é sobretudo isso que nos trazem todas estas canções, como o Pedro dizia, mesmo que não ouçamos já há algum tempo, que são imediatamente reconhecíveis. A quantidade de trechos de letras que nós sabemos decor, eu voltei aos temas ainda ontem, anteontem. Fico com a ideia que, de facto, pensava que já não me recordava delas e recordava-as, e elas estão gravadas quase aqui no nosso fundo da cabeça. A verdade é que eu acho que o Palma conseguiu fazer aquilo que é o mais difícil e que o distingue, de facto, de quem fica ali num registo mais de mediania, que é pegar em problemas muito corriqueiros, muito comuns, que todos temos, que todos já vivemos ou vamos viver em alguma altura da nossa vida, em diferentes fases da nossa vida, mas que são, no fundo, problemas muito complexos e que nós vivemos como se fossem o fim do mundo, muitas vezes, e ele consegue dar, sempre conseguiu dar, essa dignidade com aquela renda toda das canções.
E levá-los de alguma forma.
É isso. E depois há toda esta dimensão pessoal, que eu acho que também nós até hoje recordamos no Palma. É de alguém que vem de um tempo, de um espaço e de uma forma de estar, que quis e bateu-se por viver, de forma mais ou menos natural, nos seus próprios termos, que eu acho que é uma coisa também cada vez mais rara.
Sim.
É uma coisa cada vez mais rara, até porque nós sabemos que hoje há uma série de constrangimentos, a pressão social das redes, o fazer bem, o saber de que lado é que estamos alinhados ou desalinhados. E eu acho que o Palma simplesmente estava a borrifar-se para isso, e ainda bem que estava, porque o que nos deixa, de facto, é essa insurreição pessoal, essa vontade indómita de fazer o que quer. Só uma nota, que também nós às vezes associamos este lado mais da figura pública do Palma e esquecemos que é uma pessoa que estudou depois piano e concluiu seus estudos já numa fase mais tardia.
Sim.
Portanto, não era simplesmente um tipo que estava ali a tocar umas notas.
Exato.
Não sabia o que estava a fazer.
Bruno Vieira Amaral, para te citar. Jorge Palma, o artista que foi de cantor vádio e de boémio, a uma espécie de poeta filosófico de um país inteiro. Assim, uma figura romântica.
Romântica, eu acho que a palavra certa é romântica. Ele definiu-se numa entrevista como individualista romântico ou romântico individualista. E mais do que a ideia de autor, artista maldito, eu creio que ele se enquadra naquela ideia que nós temos do artista romântico, do gênio atormentado, que usa as suas próprias experiências e as suas próprias dificuldades como matéria-prima da sua criação. Eu acho que isso é muito evidente, até por esse aspecto, que é algo que eu gosto muito, que é o facto de ser um homem com um piano, muitas vezes, e em particular no álbum, no "Só". Ele tinha esse lado destrutivo. É por isso que ele é reconhecido e isso será mais uma questão Da sua esfera pessoal, mas tinha esse lado autodestrutivo, que o tornava, ao mesmo tempo, muito acarinhável pelo público. Ele nunca esteve em guerra com o sistema e a denunciar a hipocrisia da sociedade. Havia ali alguém que, mesmo nas suas canções, passava uma imagem e uma ideia de desamparo e que fazia com que tivéssemos vontade de o amparar. E eu creio que ele foi muito amparado por muitos amigos dentro do meio musical, mas também pelo grande público. Uma das coisas que ainda há pouco o Pedro estava a referir aqui, o álbum dos Resistência. Com o álbum dos Resistência, também com esse álbum só do Jorge Palma, com os Filhos da Madrugada, com esse projeto que recuperou as canções do Zeca Afonso e outros que depois se seguiram com as canções do Variações, há uma tentativa de pegar naquele património musical que foi sendo construído ao longo dos anos 80 e depois de o consolidar, ou seja, de o entronizar. Os Resistência fizeram um pouco isso. Havia ali um cancioneiro, que estava disperso por álbuns de diversos artistas e que com novas roupagens, que foi isso que o Jorge Palma fez com a sua própria música, conseguiram chegar a um público e dizer: "Espera aí que há aqui uma coisa".
E tiveste em 93, depois, aquele concerto do Portugal ao Vivo.
Do Portugal ao Vivo?
Olha, Pedro, claro.
Que o Pedro Boucherie estava.
Estava ao lado. Lugar ativo.
Tinhas esta coisa do público português, no início dos anos 90, encontrar a música portuguesa cantada em português, com Rui Veloso, o grande sucesso dos Migos e os Samurai, os GNR, o Rock in Rio Douro, em 92. Está ali um momento de, eu não sei se é pacificação, se é mesmo de exaltação com a música portuguesa cantada em português.
O Caminho da Felicidade também é de 93, não é?
Não. É de 95.
É 95?
Mas os Delfins tiveram um best of.
Isso é o best of.
Não, tiveram, desculpa, um antes que vendeu imenso, que vendeu 300 mil cópias.
Esse é o Caminho da Felicidade. E que depois tem uma música inédita.
Que a ofendeu mais. Tinha que ter uma música inédita para ir para o top.
Atenção, mas em 93 sai o Ser Maior.
O Ser Maior.
Só por si também já foi...
Que é outra coisa. Mas há, de facto, ali momento de comunhão entre o público e os músicos, os cantores em língua portuguesa. E o Jorge Palma aproveita um pouco.
O vento.
E também promove com esse álbum.
E em 96 os Rio Grande.
Os Rio Grande, em que ele também entra. Mas curiosamente, na década de 90, e depois há outras transformações na música portuguesa, na pop.
Sim.
Muitas. E o Jorge Palma, curiosamente, na sua produção individual a solo, fica um pouco à margem, porque nesses anos tem colaborações.
Só tem um álbum de originais no Século XXI.
Exatamente. E eu lembro-me que para a nova geração, a minha geração, que não era propriamente a geração adolescente em 91, 89.
Foi ouvir o Só durante anos.
Exatamente. Mas havia grande expectativa. Miúdos que tinham 18, 19 anos, tinham expectativa do que é que vinha aí do Jorge Palma, mas ele parece que ficou um pouco à margem da sua produção individual, desse boom da comunhão entre o público e os artistas que cantavam em português.
Menino Pedro, um minutinho antes do intervalo.
Pôs o dedo no ar como fazem no "Big Brother" para falar. O Jorge Palma, a dada altura, era o refúgio cool.
Sim, era muito.
Enfim, da vossa geração, suponho eu. A música portuguesa, isto que o Bruno descreve é acertado, e depois há um fenómeno, a Brilhosa, que é em 1984.
94.
94, desculpa, exato. A seguir, portanto, é esse Portugal ao Vivo, essas coisas todas, que parte a música portuguesa ao meio. O passa a ser aceitável ou passa a ser possível ouvir hip-hop, jazz.
Sim, a não ser se guitarra elétrica.
O República e o hip-hop também é exatamente o mesmo ano.
Sim, mas a ausência de guitarra elétrica. Portanto, passa a ser possível gostar de música pop sem guitarras elétricas ou sem a versão acústica das pianadas do Palma. O Jorge Palma sempre foi, nessa altura, e eu acho que continuou a ser, e curiosamente eu até acho que isso prejudica o gozo da sua obra, uma espécie de o tipo cool. "Tu gostas disso? Não, eu gosto é de Jorge Palma". E pronto, se calhar podemos falar mais disso na segunda parte.
Vamos a isso, meus amigos. Chegamos ao final da primeira parte do "Pop Up". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "Pop Up" com a Maria Ramos Silva, o Bruno Vieira Amaral e o Pedro Boucherie Mendes. Esta semana o protagonista da conversa é Jorge Palma, músico que morreu na segunda-feira, dia 21, aos 76 anos. Pedro Boucherie Mendes. Eu duvido muito que o Jorge Palma tivesse isto como objetivo ou qualquer objetivo que fosse a um plano maior, não me parece. Mas lembravas, e bem. A nostalgia não teve muito espaço, não era a preocupação do Jorge Palma.
Pois, é aí que eu quero chegar para elogiar o Jorge Palma. Muitas das imagens que víamos ontem nos jornais, ontem quarta-feira e hoje quinta-feira, parecem geradas por IA, não sei se concordam. O prompt seria: faz aí um músico de meia-idade, boêmio. Ele tinha aquele chapéu e depois parece a fumar. A imagem que o público escolhe, ele está a fumar. E é uma imagem que parece gerada por inteligência artificial, que é: faz um artista que não cumpria as regras e, portanto, fumava nas entrevistas e arrastava a voz.
Mas a grande coisa para mí é que as músicas do Jorge Palma são a negação da nostalgia. Se um escritor de 30 e tal anos escrever um romance hoje em que inventa um par, um boy, uma girl, um rapaz, uma rapariga, um estudante de Erasmus alemão e uma rapariga que o leva a um clube. Nessa cena pode estar a tocar o "Deixa-me Rir" ou o "Bairro do Amor" e esse personagem alemão que eu estou a inventar agora pode dizer com total plausibilidade ao seu interesse romântico: "Que música tão agradável, o que é isto?" E ela pode passar meia página a falar sobre Jorge Palma. O que eu quero dizer com isto é que as músicas do Jorge Palma são de tal forma conseguidas e bem construídas musicalmente e nas palavras, que são imunes, creio eu, à nostalgia. Nós podemos ouvi-las e pensar que nós próprios estivemos num bar com um estudante alemão ou com uma estudante alemã aqui há uns anos, mas a música conserva uma energia tal, uma autenticidade tal e uma atualidade, uma ligação ao presente de tal forma forte, que lhe permite que futuros pares românticos possam conversar acerca das canções de Jorge Palma, seja em livros ficcionais, seja em circunstâncias verdadeiras, hoje, amanhã, daqui a cinco anos, daqui a 10. O que não parece que aconteça muito com outros músicos portugueses.
Maria Ramos Silva, ainda há bocado falámos sobre isto. Primeiros discos nos anos 70, as composições mais famosas, algumas delas nos anos 80, os anos 90 com o Só, Palmas Gang, música para teatro, Rio Grande, mas discos originais nem a vê-los. Regresso no século XXI e depois "Encosta-te a Mim". O maior sucesso comercial do Jorge Palma.
Sim.
Como é que isto acontece? Isto explica-se facilmente?
Eu acho que também se explica sempre por esse contexto que falávamos há pouco, da questão de um arco maior da música portuguesa. Eu estava a ver aqui o top desse ano.
De 2007?
Sim, estamos a falar dos maiores sucessos comerciais, pelo menos os grandes hits, eram de nomes como, sem desprimor nenhum, 4Taste, Jersey Girls, Chiquititas. E depois temos o "Voo Noturno", que é um absoluto clarão no meio disto tudo. Não estou a dizer que seria fácil, mas também diz muito sobre aquilo que era a música portuguesa naquela altura, naquela fase. Também acho que se viveram aí tempos um pouco estranhos, pelo menos olhando para esta tabela. E é de facto mais um grande tema do Palma. Eu acho que uma das virtudes a juntar a estas todas que nós já falámos aqui, é essa capacidade de não ficar preso, não ficar refém da sua própria nostalgia e dessa gaveta de fazer coisas absolutamente datadas. Sendo que eu acho que o "Encosta-te a Mim", além de ser mais um tema extraordinário, é como que um fechar de ciclo perfeito da própria grande narrativa das canções do Palma.
Foi a música de um genérico de uma novela.
De uma novela, exatamente.
Claro, isso também teve influência.
Mas é de facto o grau de ser tão orelhudo, mas mais uma vez, podíamos só ficar ali nessa superfície. Tem ali um refrão mais orelhudo. Não, aquela letra é extraordinária, tem ali mais uma série de passagens absolutamente extraordinárias.
Canção que ele nem queria lançar como single.
Certo. Lá está, eu acho que o Palma, e nós também falámos disso. Se nós ouvimos qualquer uma, se calhar os 4Taste a cantar uma coisa que começa por "Encosta-te a Mim", vamos achar que não. Não é verdade, o Palma tinha essa dimensão. Nós já falámos também de uma série de ingredientes. A voz, a postura, isso é o que compõe um artista. Tu podes de facto ter Shakespeare à frente e depois não fazeres nada com aquilo. Há aqui uma série de ingredientes que resultaram fabulosamente e ainda bem que resultaram. E esta canção é mais uma que podia ser discutida ali numa noite entre o jovem alemão do Pedro.
Ou mesmo entre o Pedro.
Ou mesmo entre o Pedro e o jovem alemão.
As pessoas não levaram a mal o sucesso.
Sim, isso também é interessante.
Porque esta música-
"Ah, vendido!"
Esta música chegou a uma altura que já não se podia ouvir, porque estava em todo lado.
Sim.
O Jorge Palma nunca teve nenhuma canção que chegasse tanto.
A todo lado. Ao mesmo tempo.
Chega uma altura que tu já não consegues ouvir, isto está em todo lado. E as pessoas não lhe levaram a mal isso. Ninguém o acusou de ser um vendido, porque era o Jorge Palma. E isso tem muito a ver com a personalidade dele, com a postura dele, que era autêntica. Tu percebias que não havia ali uma gestão, nem da imagem mais suja dele. Era ele! Ele não estava a aproveitar aquilo para fazer género ou para fazer promoção de um estilo.
Não era um Palma diferente, mas era um Palma com uma dimensão que se calhar ainda não tínhamos visto.
Mas nunca chegou-se a José Cid.
Não.
Não, mas o José Cid, vamos ver quando morrer, como é que é. Desculpem.
Crucifixo, não sei o quê.
O José Cid é muito importante no repertório nostálgico português. Muito importante. E o Jorge Palma, quanto a mim, há pontos de contacto entre as canções, nomeadamente a facilidade de nós apreendermos o refrão, de cantakularmos, de ficarmos felizes quando ouvimos certas composições ou envolvidos emocionalmente. Mas a verdade é que o Palma-
Nunca é passado
Exatamente. Conseguiu sempre nunca sujar ou nunca ser sujado
Pelo salpicos de lama nostálgica ou irónica. Nós quando ouvimos Jorge Palma a tocar num bar, nós não dizemos: "Há quanto tempo que eu não ouvia isto". Não, parece que é o contrário. Se fosse o Jessy, que não toca nos bares, porque provavelmente o dono do bar acha que é too much. Se calhar diríamos: "Olha o Jessy". E será um ponto interessante para falarmos nos próximos programas.
Porque não? Bruno Vieira Amaral, também é interessante, uma coisa que falamos logo aqui na rádio, na manhã que se soube a notícia, que tem a ver com as letras e tem a ver com os versos e como alguns versos ou títulos de canções ou frases inteiras foram apropriados, em jeito de ditado popular ou são frases-chave ou muleta para certas situações. Talvez porque são muito simples, muito diretas, mas isso não quer dizer que sejam fáceis de fazer.
Não, mas eu acho que é uma característica de todos os grandes compositores.
Faz a diferença.
Eu acho que é o ouvido para aquilo que se fala nas ruas, aquilo que as pessoas dizem, e depois a capacidade de pôr isso na música e se casar com a música. E muitas vezes parece que aquela expressão não existia antes de ter sido cantada daquela maneira, o "Deixa-me rir", por exemplo, que é a minha memória mais antiga de Jorge Palma.
É o "Deixa-me rir".
E de ouvir na rádio.
E o "Frágil" também.
Mas a memória mais antiga que era um pouco como o "É para Amanhã" do António Variações.
Sim.
Eu lembro de ser miúdo e dessas expressões.
O corpo é que paga, etc.
O corpo é que paga. Mas tu pensares mesmo no Sérgio Godinho com o brilhozinho nos olhos. São expressões que depois entram no léxico do dia a dia e provavelmente foram retiradas desse léxico do quotidiano. A imagem que eu tenho.
Desculpa, sempre depois ele tinha aquela coisa de, o "Deixa-me rir" é um bom exemplo, são versos enormes e ele fatiava aquilo na perfeição.
Aquilo batia certo. Ele conseguia encaixar aquilo de forma que, qual é a ideia que eu tenho? A ideia que me dá é de um tipo sentado num bar a tocar piano.
Só se levanta.
E em vez de estar a falar, está a cantar. Mas está a falar contigo.
Está sempre a conversar contigo.
Está a conversar.
Ele está sempre num eterno diálogo conosco.
Há ali um lado muito coloquial nas canções.
O "épá"! A primeira vez que eu ouvi isso, pensei: como é que ele é extraordinário.
Aquele misturava aqui, parece um tipo que está ali a falar: "épá" e dá-me luz. Se o António Variações tinha muito aquele ouvido para o popular e fazia aquela ponte, que ele dizia, entre o Barraga e Nova York, o Jorge Palma é muito Lisboa. O ambiente noturno de Lisboa, o ambiente boémio de Lisboa, estar atento ao que se diz aí, provavelmente nem era o estar atento, era o estar mergulhado nesse ambiente. E depois, como tu dizias, de fazer isso, de conseguir transportar isso com frases longas, porque aquilo não é óbvio. Há cantores e compositores que tu percebes que havia uma melodia, havia uma canção, uma música, e aquilo depois vais encaixar, mesmo com muito talento, vais encaixar ali para aquilo tudo bater certo. E ali parecia que havia um corpo, que ele conseguia fundir esse corpo lírico, esse corpo da letra, com a música de uma forma perfeita e não era nada óbvio. Tu dizias: "Como é que isto resulta tão bem?" Eu acho que esse era um dos grandes talentos, mas para mim, o Jorge Palma é o piano. O som do piano é muito importante, porque não era muito presente no pop.
E a forma como ele tocava.
Claro, a forma como ele tocava, a Maria já falou da formação que ele teve de início, logo quando era miúdo e depois concluiu mais tarde. Mas percebe-se claramente que havia ali uma dimensão, por um lado, a erudita, que ele conseguia também pôr na música dele, e por outro lado, conseguir casar esse lado mais erudito com um lado muito urbano, muito cool. E isso também é muito raro, não vês muitos a fazer assim. Se pensares no músico português desta geração a tocar piano da forma como o Jorge Palma fazia, se calhar não tens muitos mais exemplos.
O Armando Gama não tocava da mesma maneira.
Não é a mesma coisa.
O Jessy também é muito piano.
Também.
Mas é outra coisa.
É outra coisa.
Não há o pathos.
Exato. Pedro Boucherie Mendes, obviamente, reações à morte, comentários, coisa interminável. Neste caso, pareceu-te que foi uma resposta unânime, ou seja, sem fações, sem polarizações, e isso tinha a ver com o próprio artista?
O Jorge Palma, como a maioria dos músicos portugueses, era um homem que se identificava com a esquerda. Eu vi imagens das homenagens que fizeram na Voz do Operário e vi uma senhora que entrou com um cravo na mão.
Sim.
Mas Jorge Palma não era o mais ativista.
Não era o cantor político.
Sim, nunca foi um cantautor de intervenção. Eu acho que são justas.
Apesar de ter participado também em sessões de canto livre, etc. Exato.
As pessoas são livres de ter as convicções.
Naturalmente.
Pronto. E a senhora é livre de ter aparecido com o cravo. Não estou aqui a pôr em causa isso, estou só a dizer que quando outros músicos que ainda são vivos desaparecerem, morrerem, haverá mais casacos políticos para vestir do que no caso do Jorge Palma. Eu acho que mais do que aquilo que ele era, era aquilo que ele representava. Eu acho que representava um espírito livre, rebelde.
Talentoso, alguém não alinhado. São sempre ideias românticas, como o Bruno dizia na primeira parte, que nos apelam ao coração, porque todos nós, ou pelo menos eu, gostaríamos de ter sido um pouco mais assim. Um bocadinho mais irreverentes.
Exato. Ele transmitia esse sentimento.
Sim. Mas eu insisto nisto: todas essas leituras, dimensões e camadas que estamos a pôr em cima da figura, eu acho que retiram valor às canções, porque até parece que as canções só eram boas porque o tipo era meio azogado.
Exato.
Mas não, as canções eram boas, ponto final. E eu aposto que as vamos continuar a ouvir em diferentes contextos no futuro. E Jorge Palma é um dos poucos músicos portugueses, atrevo-me a dizer, vou deixar aqui escrito.
Atenção, preparem-se.
Toma nota.
Nós saberemos, isto é do Jorge Palma. Quando ouvirmos o "Deixa-me Querer" daqui a 40 anos, saberemos, como o "Namakite Pa" do Jacques Brel ou o "My Way" do Sinatra. Nós sabemos logo o que é, ou não vamos dizer: "O que é isto? Já não me lembro, deixa-me ver aqui no Shazam". E isso, por si só, é uma daquelas frases que se pode pôr na t-shirt: "Aqui jaz um homem cujas músicas vão ser sempre reconhecíveis nas próximas décadas".
Maria Ramos Silva, eu diria que a relação do público e dos fãs com o Jorge Palma é um daqueles casos raros de afinidade.
Eu falava disso. Também descrevo isso.
Uma espécie de lealdade emocional.
É mais do que isso. O Bruno falava ali de uma coisa muito importante, que é o amparo. Havia ali uma espécie de conforto de parte a parte.
Mas era o amparo mútuo.
É isso. Era uma multidão à procura de amparo, que ia amparar um homem que, por sua vez, também nos amparava com aquelas canções que falavam sempre, em algum momento, por alguém. Portanto, havia ali sempre uma comunhão. Normalmente, é o princípio desta experiência de um concerto ao vivo, mas ali, de facto, tinha esse crescendo particular. Eu acho que nós vivíamos isso de uma forma única. Eu, pelo menos, vivi todas as atuações. Não me lembro do último concerto que vi do Palma, sou sincera, mas tenho sempre essa memória de uma experiência em que tu não estás isolado. Há um momento em que, por mais solitário que tu estejas, consegues encontrar esse amparo nas canções, mesmo se estiveres sozinho, à meia luz no teu quarto.
A sofrer.
A sofrer e a achar que a vida é absolutamente miserável. Mas havia ali, de facto, sempre uma lampadazinha, uma candeia. Havia essa capacidade de nos guiar.
Bruno Vieira Amaral, para terminar, uma palavra que eu vi várias vezes nos últimos dias foi a palavra cantautor. E fiquei aqui a pensar que não se usa a palavra cantautor em todas as situações e não se usa sempre que estamos a falar de alguém que canta aquilo que compõe. Se bem que, matematicamente falando, seria essa a definição. Mas não é bem.
Não, não é exatamente, não se aplica a todos. Por exemplo, o Pedro Abrunhosa é um cantautor ou não?
Exato.
Se tu pensares, é. Na verdade, ele canta e compõe as músicas que canta. E, aliás, compõe também para outros, que é algo que ele até faz muito bem, sem querer dizer que devia fazer mais. Mas é algo que ele faz muito bem, mas não associas. Eu acho que aqui também tem a ver com aquela ideia mais dos anos 70, da música de intervenção, mas não só, também por esse individualismo. Eu acho que está também ligado a essa ideia de individualismo.
Um pouco a pessoa sozinha contra o mundo.
Sozinha.
Aquilo que o Herman apanhava nos sketches.
Sim. Mas é o homem e o violão ou o homem e o piano.
O educador.
Já nessa canção de intervenção, porque também não podes dizer que o Jorge Palma fosse um cantor de intervenção.
Sim.
Mas tu quando pensas no Jorge Palma, pensas num cantautor, apesar das colaborações que ele teve e a participação noutros projetos, porque o associas a esta ideia do indivíduo sozinho com o seu instrumento a cantar as músicas que compõe, o que não acontece com todos os outros cantautores. Por exemplo, o Pedro falava do José Cid. O José Cid é um cantautor?
Não, mas é um artista muito interessante de analisar.
Mas é. Na verdade, ele é um cantautor.
Mas não é a ideia que nós temos na cabeça de cantautor.
É de uma grande coragem intelectual para lhe atribuir uma densidade que claramente o Jorge Palma tem.
Eu creio que tem mais a ver com a imagem que nós temos na cabeça do que é que é um cantautor.
Claro. Da referência.
O Palma também teve a sua intervenção. Eu lembro, por exemplo, de canções, mas era diferente. Canções como "Portugal, Portugal" ou "Picado pelas Abelhas", que há ali uma crítica, mas é outra coisa.
Até porque depois tens essa dimensão toda, a boemia, Lisboa e esse lado muito de dilema mais pessoal, mais do conflito do individual.
Mais do indivíduo.
Sim, ele vai a uma unidade mínima. Sim, eu acho que isso ia esse meio de campo. Eu acho que o canto ali naquela fase.
Com o filtro da coolness, porque, por exemplo, os UHF, António Manuel Ribeiro, é um cantautor ou a banda é uma banda de intervenção. Em larga medida, é.
Certo.
Eu até acho que os UHF são uma das bandas, talvez a mais injustiçada na apreciação que se faz deste tipo de coisas. Eles têm ótimas canções, ótimos discos, ótimos espetáculos, eram muito bons ao vivo, ainda serão, mas não é a banda que nós soltemos.
Exato.
Se um autor escrever um livro em que põe um estudante alemão.
Não vai pôr o UHF.
Sim, mas os UHF resvalaram para o campo do uncool. Se durante algum tempo fizeram parte da coolness.
Às vezes a fronteira basta um desvio.
O primeiro single dos UHF, o "O Jorge Morreu", é prévio ao hard rock do Rui Veloso. Mas há gente que diz que é o Rui Veloso que começou isso tudo.
E nós ouvimos pouco as nossas coisas. Na verdade, é essa. Mais facilmente vamos ouvir o chato do Dylan do que ouvimos o Palma. É verdade, o Palma tinha sentido de humor, que é uma coisa que o Dylan não tem, podia ter aprendido. É um chato todos os dias. É um génio, pronto, não me matem.
Muito bem, é uma ótima tónica.
Mas prefiro o Palma.
Olha, prefiro o Palma.
É verdade, prefiro o Palma ao Dylan, mas de longe.
Fazemos assim: frase, preencha como quiser, espaço em branco, vírgula.
E posso fazer uma t-shirt com isso.
Mas prefiro o Palma. Muito bem. Final do "PopUp". Já sabem que podem inscrever-nos para popup@observador.pt. Sigam-nos nas plataformas de podcast. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.
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