Federação de Ginástica quer estrear IA em LA 2028: "Nosso sonho é não ter juízes"

Ao jornal "The Athletic", braço esportivo do "The New York Times", o dirigente explicou que a ferramenta começaria como um auxílio aos árbitros, mas depois poderia ser usada para tirar a decisão dos pontos das mãos e olhos humanos.
Rebeca Andrade na final do salto no Mundial de Ginástica Artística 2026 — Foto: REUTERS/Yves Herman
- Nosso sonho é não ter juízes, apenas computadores e IA atribuindo notas. Devemos ser justos com todos. Não quero erros ou julgamentos equivocados - afirmou.
Apesar disso, ele riu ao ser questionado se o objetivo é não mais contar com os juízes humanos.
Dirigente relembra casos emblemáticos em que notas foram questionadas
Chamado de Sistema de Suporte ao Julgamento, o mecanismo foi desenvolvido pela Fujitsu, uma das maiores companhias de tecnologia da informação do Japão. Ele começou a ser usado no Campeonato Mundial de 2019 em uma fase experimental, sendo expandido para todos os 10 aparelhos na edição de 2023.
O software utiliza quatro câmeras para a maioria dos aparelhos e oito para os exercícios de solo - em que as ginastas percorrem uma área maior - para reconstruir as séries de maneira tridimensional. A representação pode ser pausada, girada e examinada sob pontos de vista indisponíveis para os juízes. Além disso, ângulos são calculados, junto com o reconhecimento de elementos e descrição sobre de que forma as notas de dificuldade são calculadas. A análise fica disponível entre 10 e 15 segundos após o término da apresentação.
- A ginástica é um esporte maravilhoso, mas quando os espectadores veem uma nota, nem sempre entendem como os juízes chegaram a ela. Esse é um grande problema - pontuou o presidente da federação internacional responsável pela modalidade.
Árbitros analisam performance em competição no Brasil — Foto: Redes sociais
A partir deste argumento, Morinari tentar implementar o sistema nos Jogos Olímpicos. Ele, que é membro do Comitê Olímpico Internacional e integra a Comissão de Coordenação de LA 28, citou exemplos de casos em que o mundo da ginástica ficou debatendo notas tempos depois do encerramento do torneio, como em Atenas 2004, quando o sul-coreano Yang Tae-young recebeu uma nota de partida incorreta nas barras paralelas, erro que afetou a disputa por medalhas no individual geral masculino. Outro caso abordado aconteceu em Paris 2024, quando um o tempo limite de um recurso referente à nota de solo de Jordan Chiles virou uma longa batalha judicial por uma medalha de bronze.
Pesquisador e juíza destacam IA como auxílio nas notas
Willem Standaert é professor associado da escola de negócios da Universidade de Liège e coautor de um estudo de 2022 que analisou o julgamento de ginástica assistido por IA por meio de entrevistas com atletas, dirigentes e desenvolvedores de tecnologia. Para ele, substituir completamente os juízes humanos seria o "colapso da pirâmide”, ao trazer mais problemas, ao invés de solução.
- Um juiz humano olharia para a série e diria: 'Esta perna estava esticada'. A IA pode olhar e dizer: 'Bem, na verdade ela está a 179 graus'. O nível de exatidão é exato demais para os humanos - observou.
A introdução de movimentos por ginastas seria outro desafio, visto que a nova acrobacia poderia ser desconsiderada pela ferramenta, se ela não tivesse sido treinada para reconhecer. O pesquisador aponta ainda que características significativas deste esporte não podem ser facilmente reduzidas a números, como nas provas de solo, em que a interpretação musical e a coreografia são valorizadas junto com a execução técnica. Um computador pode medir o ângulo de uma perna, mas não teria sensibilidade artística para avaliar uma apresentação.
Em paralelo, a árbitra austríaca, Johanna Gratt, que atuou com o sistema na competição realizada em Roterdã, reconhece o auxílio em casos difíceis para a tomada de decisões, mas relatou que há contextos em que é necessária a intervenção humana para que a análise seja corrigida. Segundo a profissional, o processo de refinamento prosseguirá e o mecanismo continuará somente como um assistente.

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O "The Athletic" ainda trouxe um estudo publicado em novembro em que pesquisadores compararam o sistema da Fujitsu com equipamentos laboratoriais de captura de movimento. Embora os resultados tenham apresentado certa consistência, não foram iguais. O Sistema de Suporte ao Julgamento mediu os ângulos máximos de abertura em uma média de 1,1 grau a mais.
Na análise do professor Willem Standaert, um sistema treinado com biotipos específicos pode ter um desempenho diferente ao avaliar ginastas de outras estaturas, proporções ou tons de pele. A ponderação, porém, é contestada pela empresa japonesa.
A Fujitsu assegura que os cálculos de pontuação não são enviesados e seguem as regras consolidadas do esporte, além de ter relatado que coletou dados de competições internacionais de diferentes anos, o que incluiu atletas com diferentes características físicas, cores de pele e uniformes.

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