ESPNBest shots and highlights from the final roundESPN DeportesBauers remolca otra carrera y Brewers aumenta ventajaPunchVIDEO: Come give me hug, emotional Adeleke tells Davido after poll winDaily MaverickUNCOOPERATIVE GOVERNANCE: NMB coalition pushes to write off R23bn irregular spending, bypassing legal requisitesThe Jerusalem PostDrone strikes, intelligence chief’s killing expose Libya’s fragile balance - analysisRTP DesportoLens bate Paris Saint-Germain e conquista Supertaça de França pela primeira vezCNN TürkAracın üstündeki hareketleriyle tepki toplamıştı! Gözaltına alındıANSA SportOro nella 4x400 e nel lungo con Iapichino, capolavoro degli azzurri campioni d'EuropaWirtualna PolskaKłótnia dziennikarzy na wizji. "Nie drzyj się"וואלהדגלי ישראל הושחתו בכיכר סמוך לעטרת בבנימין, המשטרה פתחה בחקירהNew Straits TimesTrump says US scaling back military drills with South KoreaColliderKeanu Reeves’ 101-Minute Action Classic Is Officially a Streaming Hit Again
The Daily Newsstand · Free, Always
Sunday, August 16, 2026

Produtividade e rotina mediada por telas são os novos cativeiros das relações, diz Esther Perel

Translate

"A qualidade das nossas relações determina a qualidade das nossas vidas." A frase resume o trabalho da belga Esther Perel, 68, psicoterapeuta, escritora e apresentadora do podcast de relacionamentos "Where Should We Begin?" (Por onde devemos começar?, na tradução para o português), disponível no Spotify.

Em 2026, celebra 20 anos do livro best-seller "Sexo no Cativeiro" (Objetiva) e atuou como consultora no desenvolvimento da história e dos diálogos do filme "O Convite", dirigido por Olivia Wilde. Participou no último dia 9 da abertura do festival de criatividade e inovação SP2B, em São Paulo.

Duas décadas depois do lançamento da obra em que trata da diminuição do desejo o casamento, ela diz que um dos cativeiros de hoje é o próprio eu —um eu que se cuida, se aprimora e se otimiza sem descanso, na ilusão de que, uma vez pronto, estará enfim apto a amar.

Essa busca solitária por autoaperfeiçoamento, observa, tem produzido o oposto do que promete. Resulta em mais solidão e insegurança, contaminado o afeto com a lógica da produtividade, em que passamos a tratar a nós mesmos e ao outro como produtos a otimizar.

A saída que ela propõe é contraintuitiva: a reconstrução da vida íntima passa pela vida coletiva. Perel alerta, sobretudo, para o resgate das experiências compartilhadas. "Em vez de marcar um jantar para conversar, convide o outro para uma experiência, como uma aula, um esporte, uma exposição ou um show."

Passados 20 anos de "Sexo no Cativeiro", eu queria devolver a você a sua própria metáfora: quais são os cativeiros contemporâneos dos relacionamentos hoje? Quando lancei o livro, me interessava como o desejo sobrevive à vida doméstica, aos filhos, o verbo era como "sustentar". Hoje o verbo mudou, é "acender e reacender", manter desperto, vivo, pulsante.

O novo cativeiro é uma vida cada vez mais produtiva e desencarnada: numa rotina mediada por telas, sem toque, a paisagem digital vem achatando nossa fisicalidade, atrofiando os sentidos e inibindo nossa habilidade de lidar com o diferente. Falta atrito, falta alteridade, não convivemos com gente suficientemente diferente de nós.

Vivemos um momento de atrofia social, pois além de diminuirmos contextos de contato perdemos profundidade no íntimo e no coletivo. E, sem profundidade, perdemos a presença, que é o que nos faz sentir vivos. Como resgatar qualidade de presença e vivacidade são meus grandes temas de trabalho atualmente.

A pesquisa "Raio-x da vida afetiva: como o brasileiro vive e o que quer do amor 2025–2026", que conduzi com mais de mil brasileiros, mostrou que a maior violência nas relações é a presença ausente: dividimos o mesmo cômodo, mas cada um no seu celular, sem se tocar. Parceiros tornaram-se microempresas funcionais, mas sofrem exatamente por esta falta de presença, que erode o vínculo romântico. Como reconstruir a intimidade? A pergunta talvez não seja como reconstruir a intimidade, e sim como reconectar as pessoas com a própria sensação de estarem vivas.

Conhecer bem o outro não é suficiente numa rotina com cada vez mais achatamento dos sentidos e sentimentos. A suposta boa convivência é nociva, não tem intencionalidade. É o que a psicóloga Pauline Boss chamou de perda ambígua: um luto contínuo ao perceber que o outro está fisicamente presente, mas ausente.

A cena se repete: um vê TV e mexe no celular, o outro faz o mesmo; um diz algo importante, o outro responde "ahãm". Estamos no mesmo cômodo, mas não juntos. Isso não se resolve mudando a dinâmica do casal.

Para melhorarmos as relações íntimas é preciso mudar a relação com o coletivo. Criar situações em que as pessoas sejam de novo convocadas a se entregarem umas às outras. Reunir as pessoas de novo, em grupos pequenos que convidam à atenção. E, com a atenção, vem o afeto.

Você diz que a vitalidade mora fora da esfera íntima, no encontro com o diferente, justamente o convívio que estamos perdendo. Como recuperá-lo? Já há grandes estudos sobre o poder de conversar com estranhos: todo mundo deveria conversar 15 minutos por dia com um desconhecido —no ônibus, no metrô, no avião. Se você arranca um sorriso desse estranho, o seu cortisol cai e a sua felicidade sobe.

Mas entendo que a vitalidade se resgata quando esse contato vai além da conversa, da troca de palavras. É por meio de experiências compartilhadas que nos sentimos presentes e vivos. Que tragam de volta o corpo, os sentidos. A experiência vai além do sentimento: é ação, história e ritual. Por isso meu convite é: troque o "falar com" pelo "fazer com". Em vez de marcar um jantar para conversar, convide o outro para uma experiência, como uma aula, um esporte, uma exposição ou um show.

Você estuda os efeitos da metacrise nas relações. Nós, brasileiros, somos o povo mais ansioso do mundo, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). Como se abrir e confiar na esfera íntima num mundo cada vez mais inseguro, imprevisível e ansiogênico? Para haver confiança numa sociedade, é preciso ter verdades e narrativas compartilhadas, mas estamos perdendo isso. Hoje há a sensação de ser manipulado por um algoritmo a ponto de você não saber se a sua decisão ainda é sua. Vejo uma imagem e não sei se é real, leio um texto e não sei quem o escreveu. Estamos o tempo todo checando a realidade —e essa necessidade crescente de certezas é onde mora a ansiedade.

Mas é preciso olhar além do indivíduo. Tratamos como problemas individuais de saúde mental o que são, na verdade, sintomas sociais. A ansiedade, a solidão, a exaustão não são apenas falhas privadas a serem medicadas ou trabalhadas na terapia. São respostas a um mundo que nos atomiza, que desfez os laços coletivos e transformou experiências que antes nos uniam em experiências que nos isolam.

Vivemos também o que se chama de metacrise, as crises que se sobrepõem e se retroalimentam, como a instabilidade econômica, a emergência climática, a enxurrada de informação, a desconfiança nas instituições. O resultado é um ambiente permanentemente ansiogênico, em que tudo parece incerto e fora do controle. Diante disso, tentamos recuperar alguma segurança medindo e otimizando cada canto da vida: o sono, o corpo, a produtividade, até os afetos. No entanto, quanto mais medimos, mais inseguros ficamos, porque transformamos os vínculos, imprevisíveis por natureza, em métricas a controlar. A ansiedade que sentimos, na maioria das vezes, não é um defeito individual: é a resposta emocional a um mundo que ficou instável, acelerado e sem chão comum.

Quando tentamos resolver com o autocuidado um problema que é social e coletivo, ficamos ainda mais sozinhos. A lógica do mundo é que está adoecida, e não há autoaperfeiçoamento que cure aquilo que só se resolve no vínculo e na mudança das dinâmicas sociais.

Um em cada quatro brasileiros já foi vítima de monitoramento abusivo pelo celular, sob o argumento de que "preciso saber de tudo para confiar". Como se constrói a confiança no não saber e na falta de certezas? Se você precisa saber, não está confiando. Como diz a escritora Rachel Botsman, confiança é um engajamento ativo com o desconhecido. É um salto de fé. Quanto mais você vigia, mais alimenta a ideia de que não há confiança possível e de que é preciso controlar. Confiar é conseguir viver com o que você não sabe.

É possível sustentar o não saber numa sociedade que oferece cada vez mais ferramentas de controle? Se medimos até o sono e a glicose, como não cobrar das relações a mesma previsibilidade? Medir, hackear, rastrear tudo é algo muito novo e sedutor. O perigo é que glicose e relacionamento não são a mesma coisa. A resposta típica das pessoas é "quero me sentir segura". E a minha é: segurança sem vitalidade é outra forma de restrição.

Qual é o impacto da inteligência artificial nessa busca por certezas absolutas e nas relações humanamente imperfeitas? Usar a IA como ferramenta relacional não é necessariamente ruim: pedir ajuda para escrever uma carta melhor pode evitar que você exploda. Outra coisa é quando o motivador é "não quero duvidar, não quero ter medo, não quero sentir culpa", como se os sentimentos não fossem experiências a viver, mas ativos a administrar, medir e descartar. Estamos nos tratando cada vez mais como produtos, e isso não é só a IA: é capitalismo emocional. Importamos o vocabulário do mercado, como custo-benefício e retorno sobre investimento, para dentro do afeto. E, se eu preciso ser impecável, não consigo aceitar a imperfeição e a bagunça do outro.

Para não lidar com essa imprevisibilidade, nos voltamos para dentro e idealizamos o amor-próprio. Até que ponto o autodesenvolvimento virou uma defesa contra a conexão? É um sintoma da atomização: cada um sozinho, trabalhando em si, na esperança de que, uma vez pronto, poderá procurar alguém. O filóforo Martin Buber dizia que é na presença do outro que você se descobre. Você existe porque é visto, não como Narciso diante do próprio reflexo. E o que me choca é que isso chegou também ao Brasil. Vocês eram uma das sociedades mais relacionais que já existiram, e vê-los adoecer como as sociedades mais puritanas e atomizadas é chocante.

O contrassenso é que, por mais que se invista em "ser uma melhor versão", estamos nos sentindo cada vez pior. O maior medo do brasileiro no amor, segundo a pesquisa Raio-x, é "não ser suficiente". É uma conta que nunca fecha: quanto mais me aprimoro, menos suficiente me sinto. Por quê? O "não ser suficiente" é recentíssimo. É filho do hiperindividualismo, em que eu sou um produto que preciso aperfeiçoar para que você me compre. Essa mercantilização esvazia as pessoas: preciso me consertar, me esculpir até uma perfeição apolínea. E quem precisa dessa perfeição não consegue dizer "estou com medo". Medo é não estar no controle, é "com quem posso contar?", é "eu importo?". E isso não se diz cercado de gente que talvez não se importe. O trauma não é só o que acontece com você, é o que acontece na ausência de uma testemunha empática.

Quando não conseguimos mostrar o medo, o reflexo vira ataque? A polarização, a mesma dos extremismos políticos, chegou ao quarto, num "eu vs. o outro" ou "nós contra eles"? Vou responder pelo micro. Existe uma dinâmica chamada dependência hostil: estou chateada, mas só me sinto melhor se você mudar —e você não vai mudar. Então fico mais brava, sentindo que a culpa é sua, e passo a depender de você para me sentir bem. Quanto mais brava fico, menos você muda; quanto menos muda, mais eu dependo. É uma das clássicas "danças da culpa". A saída é parar de perguntar "o que o outro está fazendo comigo?" e perguntar "qual é a menor coisa que eu posso mudar nesta dança?".

Todas

Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres

Você aponta o erro de atribuição como uma das fontes desse distanciamento e do conflito nas relações. Em que consiste? É uma dinâmica em que damos muita margem a nós mesmos e quase nenhuma aos outros. Quando eu ajo, tenho sempre um bom motivo; quando você age, é porque "todos os homens", "todas as mulheres". Os meus motivos são complexos; os seus, simplistas. Se você se atrasou, é porque não respeita a minha família; se eu me atrasei, foi o trânsito. Tomamos as ações do outro como prova de falta de caráter e justificamos as nossas como circunstanciais. Se invertêssemos isso, dando ao outro a mesma complexidade que reservamos a nós, já teríamos um bom ponto de partida.

Em que outras lógicas a polarização se manifesta nos vínculos? Polarização é a incapacidade de imaginar que o outro vê a realidade de forma completamente diferente da sua, que pode haver duas versões da mesma história. Ela acontece quando você pensa que, se eu te reconheço, eu me apago: só cabe um.

Nos relacionamentos, aparece na lógica de "sua história invalida a minha". Muitas questões complexas contêm polaridades: ter ou não filhos, mudar de cidade ou ficar. Não há uma escolha certa ou resposta clara. São desafios adaptativos que exigem sustentar desejos conflitantes. O problema é que, na presença do outro, projetamos nele a parte do dilema que não queremos encarar e o acusamos de defender aquilo que parte de nós também considera. Sair disso pede maturidade para conviver com pensamentos e sentimentos contraditórios presentes em nós, no outro e nas consequências de nossas escolhas. O antídoto para a polarização não é concordar, é conviver com a diferença e fazer as pazes com o atrito.

Vivemos uma epidemia de apostas. Só em 2025, as bets drenaram R$ 62,5 bilhões das famílias brasileiras. Apostamos nos jogos, mas achamos que o amor é um jogo perdido. Como pensá-lo como um jogo em que se ganha? Linda pergunta. O amor é um risco, não é um estado permanente de entusiasmo. É uma prática, como dizia o psicanalista Erich Fromm.

Jogar na bet é se entregar ao acaso torcendo para vencer as probabilidades. Amar é outra coisa: é se machucar, ser adorado, sentir uma profundidade nova, ter o coração partido. As pessoas hoje têm medo desse risco, têm pouca experiência dele desde crianças, e o vivem como ameaça, não como aventura. Brincar é encarar o correr risco como algo divertido. E é disso que sentimos falta: brincar nas relações. Por isso acham que o amor é um jogo perigoso.

Um último conselho ao público brasileiro para construir relacionamentos melhores? Vocês tinham algo único: um vocabulário que ajudava na vida interior. A saudade, o "ficar", as fantasias e euforias do Carnaval —estados que não eram patologizados, faziam parte da cultura e permitiam viver tudo sem que pesasse tanto. Cresci na Bélgica, e a gente ouvia música brasileira porque vocês tinham um jeito lúdico de processar a vida: o fingir ser uma coisa e ser outra, o brincar, o mostrar certas partes de si e não todas. É preciso voltar a brincar, a fazer as pazes com o risco, com a parcialidade, com as experiências e com as nossas muitas versões.

Raio-X | Esther Perel, 68

Psicoterapeuta belga radicada em Nova York, é reconhecida intenacionamelnte como uma das maiores especialistas em relacionamentos modernos, sexualidade e dinâmica de casais. É autora de livros como "Sexo no Cativeiro: Como manter a paixão nos relacionamentos" (2006) e "Casos e Casos: Repensando a infidelidade" (2017). Formou-se em Psicologia Educacional e Língua e Literatura Francesa na Universidade Hebraica de Jerusalém, conclui mestrado em Terapia de Artes Expressivas na Lesley University em Cambridge, Massachusetts (EUA), e fez pós-graduação e treinamento intensivo em Terapia de Casal e Família, passando por instituições como o Family Institute of Cambridge e o Ackerman Institute for the Family em Nova York.

View the original on UOL

KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.