Sexistas tendem a votar na extrema-direta, mostram pesquisas

Prever em quem alguém vai votar levando em conta aspectos comportamentais — atitudes, opiniões, sentimentos, e mesmo identificações e orientações ideológicas — é tarefa complexa na Ciência Política e na Psicologia Social. Mas, de vez em quando, aparece um fator explicativo. É o caso das pesquisas que indicam uma associação direta e consistente entre sexismo e a intenção de voto em candidatos de extrema-direita.
A constatação é do estudo Sexism as a Predictor of Political Attitudes and Voting Behaviour (Sexismo como preditor de atitudes políticas e do comportamento eleitoral, em tradução livre), revisão bibliográfica sistemática conduzida pelo pesquisador Michal Gulczy?ski, vinculado à Universidade de Ciências Sociais e Humanidades (SWPS) em Varsóvia, na Polônia. O trabalho, aceito para publicação no periódico acadêmico Public Opinion Quarterly, sintetizou os achados de 97 estudos quantitativos baseados em grandes pesquisas de opinião pública (surveys) ao redor do mundo.
Sexismo, como se sabe, é a discriminação de sexo ou gênero, baseada na crença de que um gênero é superior a outro. Gulczy?ski afirma que o tema ficou "incomumente visível" a partir das eleições norte-americanas de 2016, que opuseram Hillary Clinton e Donald Trump.
"Estavam frente a frente a primeira mulher disputando a presidência e um homem que desafiava o establishment e era conhecido por seu comportamento abertamente sexista", diz o pesquisador.
Estabelecia-se um padrão que se espalhou pelo mundo: partidos de ambos os lados, em vários países, usam narrativas sobre gênero, com atitudes feministas ou antifeministas. "Isso fortalece a segregação do eleitorado com base em atitudes de gênero — e vale destacar que essa relação entre sexismo e voto não se limita aos homens, ocorrendo também entre as mulheres."
Dos EUA à Austrália
Ainda assim, machismo e misoginia as são manifestações mais prevalentes. A literatura internacional classifica o sexismo por tipos. O sexismo hostil expressa o ressentimento direto e a competição com mulheres. Já o sexismo benevolente é composto por atitudes afetuosas e aparentemente "positivas", mas que mantêm a mulher restrita a papéis tradicionais sob proteção paternalista.
Para verificar a influência do preconceito na decisão do voto, os pesquisadores utilizam questionários aplicados a grandes amostras populacionais e painéis que acompanham os mesmos eleitores ao longo do tempo. O cruzamento estatístico considera a escolha do candidato ou do partido em relação aos índices de sexismo do indivíduo.
Os dados acumulados pela revisão internacional revelam a associação entre extrema-direita e sexismo hostil.
Na Espanha, painéis demonstraram que tanto o nível absoluto quanto o aumento nos índices de sexismo foram fatores-chave para prever o crescimento de voto no partido de extrema-direita Vox.
Já nas eleições americanas de 2016, 2018 (midterms) e 2020, o sexismo hostil foi preditor decisivo para o voto em Donald Trump e em candidatos republicanos ao Congresso.
No Reino Unido, o sexismo hostil associou-se significativamente ao voto no Partido Conservador britânico e no apoio ao Brexit. Na Austrália, traduziu-se em votos ao direitista Partido Nacional.
A "benevolência" brasileira
A síntese de estudos trouxe outras descobertas. Eleitores com alto sexismo hostil punem candidatas mulheres envolvidas em escândalos sexuais de forma muito mais severa do que homens. Já eleitores com alto sexismo benevolente criticam desvios sexuais de forma rígida independentemente do sexo do político, colocando em jogo ideais de pureza e moralidade. O sexismo hostil também ajuda a prever oposição a políticas de combate às mudanças climáticas e o aumento da xenofobia.
A revisão sistemática identificou um cenário de estudos concentrado no Norte Global. Cerca de 75% de toda a literatura produzida sobre o tema foca exclusivamente nos EUA. Há uma única pesquisa brasileira incluída no estudo, liderada pelo cientista político Frederico Batista Pereira, professor da Universidade da Carolina do Norte.
Publicado em 2020, o estudo Gender Attitudes and Public Opinion Towards Electoral Gender Quotas in Brazil ("Atitudes de Gênero e Opinião Pública sobre Cotas Eleitorais de Gênero no Brasil", em tradução livre) investigou a opinião pública brasileira sobre as cotas eleitorais de gênero — a Lei Eleitoral determina um mínimo de 30% de candidaturas femininas. A sondagem indicou que o apoio às cotas para mulheres (aprovação de 60% dos pesquisados) é impulsionado pelo sexismo benevolente. Ou seja: eleitores defendem a reserva de vagas movidos por estereótipos paternalistas de que as mulheres trariam mais "pureza", "sensibilidade" e "honestidade" para a política.
"O sexismo benevolente é amplo e historicamente faz parte da simbologia até da esquerda", diz Pereira. "Vale lembrar que o rótulo de 'mãe do Brasil' fez parte da estratégia de comunicação de Dilma Rousseff em 2010, algo que foi criticado por movimentos feministas como reforçando estereótipos sobre papéis de gênero."
"À direita, esse tipo de enquadramento reforça os estereótipos sobre mulheres como cuidadoras e representantes da família."
Ao avaliar se as conclusões da revisão bibliográfica são válidas para o Brasil, Pereira pondera que faltam estudos específicos, mas que a tese faz sentido. "Tanto o sexismo hostil quanto o benevolente fazem parte da linguagem política da região. O sexismo hostil está geralmente implícito na agressividade de ataques a candidatas e mulheres de alta visibilidade na política brasileira. Mas em parcelas da extrema-direita como o movimento red pill, ele surge por vezes de forma mais explícita."
Resta a questão de saber o que fazer para contra-atacar o problema. Gulczy?ski diz que sua pesquisa não estudou intervenções específicas, mas que os partidos progressistas devem agir. "No curto a médio prazo, podem tentar mostrar como as políticas de igualdade de gênero funcionam para as famílias e não apenas para as mulheres individualmente — e como algumas dessas políticas também abordam questões masculinas."
Reportagem
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