Minha primeira madeirite

Na década de 1960, o surf ainda era pouco conhecido no Brasil. Não existiam publicações nacionais sobre o esporte e muita gente enxergava os surfistas como cabeludos e desocupados. Meus pais também não aprovavam muito a ideia, mas isso nunca me fez desistir.
Para realizar meu sonho, comecei a juntar dinheiro fazendo rifas, vendendo garrafas, jornais, chumbos e outros apetrechos. Até que, em 1964, consegui comprar minha primeira Madeirite em uma serraria no Arpoador, ao lado da oficina do pai do Petit, o Menino do Rio, que ficava localizada na Francisco Otaviano.
Primeira foto do Rico de Souza surfando, em 1966 — Foto: Fedoca
Lembro do orgulho que senti naquele momento. Ainda menino, tinha conseguido comprar algo que desejava tanto com meu próprio esforço.
Mas surfar com ela não era nada fácil, a prancha não tinha flutuação e para entrar no mar, precisava segurá-la com uma mão e remar com a outra. Também usávamos somente 1 pé de pato, na perna traseira, que muitas vezes atrapalhavam na hora de ficar de pé.
Costumava pegar ondas com Serginho, Ratinho do Leblon, Ricardo Faquir, Estrela, Carlos Mudinho e Geraldinho. Este, por sinal, já tinha até uma prancha de fibra de vidro. Pegávamos onda no Pontão do Leblon, e Mudinho sempre foi meu grande parceiro.
Era uma época em que as condições do mar também eram bem diferentes das atuais. A água sofria com a poluição, e chegamos a chamar aquele lugar de shit point, por causa do esgoto.
Houve um tempo que as praias cariocas amanheciam sujas de óleo e piche despejados por navios. Muitas vezes saiamos da água com os pés e a pele manchados de preto.
Rico e Petit, o menino do Rio — Foto: Rogério Ehrlich
Mesmo com todas essas dificuldades, nada diminuía minha vontade de surfar. O Leblon foi meu primeiro grande reduto, onde vivi muitas experiências e comecei a construir minha história com o esporte.
Aquela primeira prancha, comprada com tanto esforço, representou muito mais do que a realização de um sonho de infância. Foi o começo de uma vida dedicada ao surf.
Rico de Souza com sua primeira prancha de madeirite — Foto: Marcelo Piu/Agência O Globo
Rico de Souza e Carlos Mudinho — Foto: Gerson Filho
Primeira Madeirite (à esquerda) em exposição no Museu de Surf Rico — Foto: Divulgação
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