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Monday, October 26, 2026

Viriato: o herói lusitano: história e mito – parte 3

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Olá, seja bem-vindo à História das Histórias. Está de certeza tão curioso como eu com o desfecho desta minissérie que o Jorge Adolfo Marques, historiador, professor e mestre em arqueologia, nos está a falar sobre o primeiro herói nacional, digamos assim, dos lusitanos, este Viriato. Com este desfecho trágico, e a propósito lembramos o Viriato trágico, se calhar vamos continuar a falar hoje, é a terceira e última vez, o terceiro e último episódio, digamos assim, que o Jorge nos vai falar. Vamos então fechar esta saga dedicada a Viriato. Jorge, bem-vindo, vamos a isso.

Olá, João Paulo. Sim, eu diria o Viriato é nosso, mas se formos a Zamora também dizem que é deles.

Não sabia.

Porque em Zamora também existe, nomeadamente, uma estátua que se encontra numa praça em frente ao chamado Ayuntamiento de Zamora, à Câmara Municipal, com o Viriato. É uma estátua, importa dizer, que se a nossa é de 1940, e que é de um escultor, de um artista plástico, diríamos hoje, Benoliel, que é espanhol, foi o autor da estátua que está em Viseu. E foi em 1940. Em Zamora, a estátua é um bocadinho mais antiga, é de 1904. Importa também dizer que a ideia de uma estátua a Viriato já era muito mais antiga do que o ano em que foi inaugurada em Viseu, em 1940. O doutor José Coelho e outras figuras ilustres aqui da cidade, tinham mais do que uma vez referido a importância, a honra que seria e a homenagem que se deveria prestar a esse herói dos Montes Irmínios. A ideia é sempre esta, a esse herói dos Montes Irmínios, a esse herói que veio combater os romanos que estavam dentro dessa fortaleza, desse quartel romano, é assim entendido, como tal, e que nós já fizemos alusão anteriormente. Pois o Viriato, como já também dissemos, era um lusitano, era o chefe dos lusitanos, e o Viriato vai ter um papel muito importante como chefe lusitano na luta contra os romanos. Os romanos queriam conquistar a península. Aliás, os romanos desembarcam e começam a conquistar a península Ibérica no âmbito da Segunda Guerra Púnica, em 218, contra os cartagineses. Os mais novos que nos estão a ouvir estudam isto na escola, na história e geografia de Portugal, estudam estas coisas. Portanto, no âmbito dessa Segunda Guerra Púnica contra os cartagineses, os romanos desembarcam e começam a conquistar a península. E em 194 a.C., acontece o primeiro combate entre romanos e lusitanos. Os lusitanos atacaram a chamada província Ulterior. A província Ulterior é aquilo que depois vai ser a Bética.

A Andaluzia e essa zona.

Exato. É o sul da península, aquilo que é a região da Andaluzia, até cá abaixo ao Estreito de Gibraltar. E os lusitanos vão atacar aí. Repare-se que é muito longe daquele território que era tido como a pátria dos lusitanos, os Montes Irmínios. Efetivamente, os lusitanos estavam bem mais pra norte. Eles e os vetões, os vetões é outro povo da península, povo pré-romano, derrotaram um pretor, Manius Manilius. Há aqui umas vitórias bastante interessantes. A guerra entre os lusitanos e os romanos vai prosseguir, porque os romanos queriam conquistá-los. E o que vai acontecer de muito importante, e que vai trazer aqui o grande protagonismo do nosso Viriato, são as guerras com os lusitanos, entre 150 e 138 a.C. Em 151, a província Ulterior, essa que já referimos lá no sul, foi entregue a Sérvio Sulpício Galba. Os lusitanos, depois de várias derrotas, procuraram entender-se com os romanos Galba simulou um acordo com os lusitanos, prometeu-lhe até terras férteis para eles se estabelecerem. Dividiu-os em três grupos e depois de os desarmar, massacrou-os. Como se costuma dizer, dividir para reinar. Dividiu-os e massacrou-os. Os que não foram mortos, nessa ocasião, foram vendidos para a Gália como escravos. Quem descreve isto é Apiano, nós já falamos aqui nesse autor. Foi uma atitude muito feia, de tal maneira que os romanos, em Roma, não acharam muita piada a esta atitude do Sulpício Galba e moveram-lhe um processo, uma rogatio. Mas a verdade é que este episódio vai ser muito marcante. Viriato foi um dos sobreviventes desse massacre de Galba. Entre 151 e 148 antes de Cristo, coincide com a Terceira Guerra Púnica, que levou os romanos a concentrarem as suas atenções no norte da África e na Macedónia. A Macedónia é lá nos Balcãs, não é? Portanto, houve um desviar de atenções dos romanos para essas regiões, o que deixou a Lusitânia, a península, e em particular a região dos lusitanos, mais aliviada da pressão do exército romano. Os romanos, porém, em 146 antes de Cristo, foram derrotados novamente. Eles tiveram várias derrotas, não foi só vencer. E prometeram, na Turdetânia, que é a região no sul da península, foram derrotados aí, e foram prometidas novas terras aos lusitanos. Mas Viriato recordou-os da traição anterior de Galba. E com astúcia, os lusitanos partiram em grupos separados, com Viriatas-fialos, derrotaram Gaio Vetílio, que era governador da província ulterior, numa localidade Tríbola, e este seria mesmo morto pelos lusitanos. Portanto, há aqui um ascendente dos lusitanos sobre os romanos. Depois do período entre 146, 145, as batalhas vão decorrer, sobretudo, na região do Tejo e do Guadiana. Viriato está na Lusitânia, nessa altura, casa com a filha das Tolpas, segundo o relato de Diodoro Sículo. Nesse mesmo ano, derrota o governador da província ulterior, que era Fábio Máximo Servílio, procura estabelecer um acordo de paz com ele, e ele é considerado então, há um acordo, como, esta expressão é muito importante, amicus populi Romani. Quer dizer-

Amigo do povo romano.

Amigo do povo romano. Portanto, há aqui um tratado de paz com o Viriato. Bom, mas avançando no ano seguinte, estamos no ano 140, Cipião foi nomeado governador da província ulterior, sucedendo a Serviliano. E o seu objetivo era voltar à guerra com Viriato, portanto não há cá paz com ninguém. O objetivo era guerra para derrotar os lusitanos, em particular, liderados por Viriato. Viriato procurou, no entanto, negociar ainda com o cônsul da província superior, e também com o Cipião, a quem enviou emissários. Eu diria diplomatas, não é? Audax, Dítalco e Minuro foram à cidade de Urso e estes lusitanos vão ser corrompidos e vão ser eles os traidores, vão ser eles os assassinos de Viriato. Em 139, esses negociadores vão assassinar Viriato, e assassinado Viriato, há um sucessor, que é Táutalo, à frente dos lusitanos. E depois, nesse mesmo ano ainda, quem irá suceder a Cipião é Décimo Júlio Bruto, como governador da província ulterior, e, portanto, termina aqui, de forma trágica, a vida do nosso guerreiro Viriato, que era o líder dos lusitanos. Importa dizer onde é que viviam os lusitanos. Bom, e vamos aqui recorrer a um outro autor, Estrabão. Estrabão é do século I antes de Cristo. Já falámos dele aqui, há dois programas atrás, que refere na sua obra Geografia, que a Lusitânia, porque confunde-se aquela confusão entre Lusitânia e Portugal. A Lusitânia não é Portugal primitivo. A Lusitânia era um território que até incluía território que hoje é espanhol. Mas não incluía todo o território que é hoje Portugal

Sim.

Digamos que a fronteira ia até ao Tejo, sensivelmente.

Há uma área que coincidia. É só isso.

Coincidia. Do Douro ao Tejo e depois entra pela Estremadura espanhola. Tanto assim é que quando os romanos criam a província da Lusitânia, vão colocar a capital dessa província na cidade de Emérita Augusta, que é hoje a nossa Mérida, a cidade espanhola. Portanto, os lusitanos ocupavam esse território. A norte dos lusitanos, a norte do Douro, está um povo que tem outra denominação, eram os galaicos, daí vem Galiza. Os galaicos, mas que no fundo são o mesmo povo, com tradições culturais, religiosas muito semelhantes e iguais aos lusitanos. Portanto, a região ia do lado sul até ao Tejo, a oeste e a norte até ao oceano e depois a este confrontava com outros povos que estavam mais para o interior, numa zona mais continental da península. Portanto, estes povos todos que viviam nesse grande espaço, era um conjunto de povos que estavam federados, que os romanos vão designar de lusitanos. E esses lusitanos tiveram um líder num determinado momento, que nós falámos há pouco, que morre em 139 a.C., e que é o nosso Viriato.

O nosso Viriato. Muito bem dito, muito bem apresentado. Jorge, não podíamos ter ficado mais esclarecidos sobre esta figura, porque de facto não é só isso, é que tem uma história muito apaixonante, toda a resistência dele, o facto de ter mesmo existido, aquele mito que era um pastor abandonado e pobrezinho na Serra da Estrela, que nós tínhamos desde pequeno, da historiografia nacional. No fundo, vieste repor a verdade.

E deixa-me dizer que os historiadores que têm investigado, trabalhado as fontes clássicas e que têm estudado, têm tido também um grande apoio em todos os dados da arqueologia, porque estes povos viviam em castros, esses povoados no cimo do monte fortificados. E nós hoje temos muitos castros identificados, centenas de castros identificados no norte de Portugal, na Galiza e até à região do Tejo e temos os materiais, os objetos do quotidiano dessas populações. E conjugando esses elementos, temos uma perspectiva diferente e também sabemos onde é que o Viriato é curioso. O Viriato ia sobretudo, as suas campanhas são no sul da península, numa zona rica em minérios, em ouro, chumbo, prata, gado, que era onde ele ia pedir emprestado.

Claro, exatamente. Muito bem, ficamos então com esta figura que foi muito importante todo este esclarecimento e estas novas fontes, também vieste revelar e ao longo do tempo, ao longo dos anos, ao longo dos séculos e também dos povos diferentes que foram falando e mitificando esta figura, de facto foi bastante real e que tem esta história, afinal, bem documentada. Muito obrigado, Jorge. Nós então marcamos encontro para a semana. Bem-hajas.

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