Deep innovation: o desafio de transformar ciência em negócios no Brasil
Há uma mudança importante acontecendo no debate global sobre inovação. E ela vai muito além da inteligência artificial.
No lançamento do Global Innovation Index 2026, Bruno Lanvin chamou atenção para a necessidade de uma nova geração de inovação, uma “deep innovation” que combine ciência profunda, inteligência artificial e capacidade institucional ágil para transformar conhecimento em soluções que cheguem efetivamente à sociedade e ao mercado.
A provocação é especialmente relevante para o Brasil.
Porque o país já construiu uma base que muitos mercados levaram décadas para desenvolver. Temos ciência, universidades, empresas com capacidade tecnológica, empreendedores, uma indústria diversificada e um dos maiores mercados consumidores do mundo. Temos também capital, propriedade intelectual e ecossistemas de inovação que ganharam densidade nos últimos anos. O que ainda nos falta é converter essa combinação de ativos em resultados mais amplos e recorrentes.
É justamente essa distância entre capacidade e resultado que o Global Innovation Index 2026 ajuda a revelar.
O Brasil avança, mas ainda tem dificuldade para transformar capacidade em resultado
O Brasil aparece na 53ª posição entre 139 economias e continua, pelo sexto ano consecutivo, como a única economia da América Latina e do Caribe classificada como “over performer” em relação ao seu nível de desenvolvimento. Desde 2019, também está entre os países que mais avançaram no índice. Ao mesmo tempo, o ranking mostra que ainda existe um caminho importante entre construir capacidades e fazê-las produzir impacto em escala.
O cenário internacional ajuda a dimensionar o tamanho dessa corrida. O investimento global em pesquisa e desenvolvimento deverá alcançar US$ 3,4 trilhões em 2026. O P&D das maiores empresas do mundo chegou a US$ 1,5 trilhão em 2025, enquanto o valor dos investimentos de venture capital em startups inovadoras alcançou US$ 510 bilhões, crescimento de 28% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, esse capital está cada vez mais concentrado: a inteligência artificial respondeu por 53% do valor global das operações de venture capital em 2025 e chegou a 77% no primeiro semestre de 2026.
Esses números mostram duas coisas. A primeira é que inovação continua recebendo volumes extraordinários de capital. A segunda é que a competição está se tornando mais seletiva e concentrada. Para países como o Brasil, portanto, não basta participar desse movimento. É preciso criar condições para que conhecimento, capital e capacidade empresarial se encontrem em torno de tecnologias capazes de gerar novos mercados e elevar a produtividade.
O Brasil tem alguns ativos particularmente relevantes. Ocupa a oitava posição em tamanho do mercado doméstico, a oitava em atividade de marcas, a 13ª em pagamentos por propriedade intelectual, a 16ª em venture capital em estágio avançado e a 23ª em investidores corporativos em P&D. São Paulo aparece na 49ª posição entre os principais clusters de inovação do mundo.
Mas a fotografia também mostra onde a conversão ainda não acontece na mesma velocidade. O país está na 94ª posição em crescimento da produtividade do trabalho, na 36ª em P&D realizado pelo setor privado, na 129ª em ambiente de negócios e na 101ª em graduados em ciência e engenharia. O desafio brasileiro, portanto, não é apenas aumentar os componentes do sistema. É fazer com que eles produzam mais resultados econômico e social.
Deep tech coloca ciência, capital e indústria na mesma corrida
Essa discussão ganha uma dimensão ainda mais estratégica quando olhamos para a chamada deep science ou deep tech, como o termo é mais conhecido no ambiente empresarial.
O GII 2026 identificou mais de 30 mil empresas de ciência profunda criadas desde 2000, responsáveis por um valor combinado de aproximadamente US$ 7,6 trilhões. São empresas que atuam em áreas como biotecnologia, novos materiais, energia, semicondutores, robótica, espaço, dispositivos médicos e tecnologias avançadas para agricultura e alimentos.
O Brasil aparece com 53 empresas desse universo, duas delas já em estágio avançado de financiamento. Entre 2020 e 2025, o número de deep science startups brasileiras cresceu 96%, uma das maiores taxas entre as economias de renda média.
O significado desses dados vai além do número de startups. Deep tech representa uma mudança na própria natureza da competição. São tecnologias que frequentemente exigem anos de pesquisa, infraestrutura especializada, propriedade intelectual, certificações, capital paciente e parceiros capazes de transformar conhecimento científico em produto, produção e mercado.
O “vale da morte” entre o laboratório e o mercado
É nesse percurso que surge o chamado “vale da morte” da inovação. Uma tecnologia pode funcionar no laboratório e ainda estar muito distante de ser economicamente viável. Pode superar a prova de conceito e não conseguir chegar à industrialização. Pode-se realizar um piloto bem-sucedido e, ainda assim, não encontrar capital, infraestrutura ou clientes suficientes para avançar.
O GII mostra que esses gargalos aparecem especialmente nas etapas posteriores de financiamento, quando as empresas precisam deixar de provar que a tecnologia funciona e começar a provar que conseguem crescer.
O Brasil já tem exemplos concretos dessa capacidade de atravessar essa fronteira. A Brain4Care desenvolveu uma tecnologia médica não invasiva para monitoramento da dinâmica intracraniana, combinando sensores, ciência e inteligência artificial, e avançou em processos regulatórios no Brasil e nos Estados Unidos. Outro exemplo é a Eve Air Mobility, empresa que nasceu da Embraer-X e desenvolve um eVTOL elétrico para mobilidade aérea urbana. Em agosto de 2026, seu protótipo realizou o primeiro voo parcial de transição, um marco importante no caminho para a certificação e a futura operação comercial.
São trajetórias diferentes, mas revelam algo importante: conhecimento científico e engenharia avançada só produzem todo o seu valor quando conseguem atravessar sucessivas fronteiras: pesquisa, protótipo, validação, certificação, produção e mercado.
É nesse percurso que precisamos concentrar parte importante da nossa atenção.
P&D empresarial precisa ocupar outro lugar na estratégia
A primeira mudança é compreender que P&D empresarial não pode ser tratado apenas como despesa ou como objeto de incentivo fiscal. Deve ser entendido como prioridade e como uma das grandes estratégias de desenvolvimento da indústria e do país. A capacidade de gerar conhecimento, tecnologia e inovação própria determina, cada vez mais, produtividade, competitividade, empregos qualificados e, em última instância, desenvolvimento e qualidade de vida.
Em setores estratégicos, isso significa aproximar empresas e centros de pesquisa de maneira mais estruturada. Empresas precisam participar não apenas da absorção do conhecimento produzido pela academia, mas também da definição dos problemas que a pesquisa deve ajudar a solucionar. A relação precisa evoluir de uma lógica de transferência de conhecimento para uma lógica de construção conjunta de soluções.
O capital precisa acompanhar a tecnologia até a escala
A segunda mudança é financeira. Precisamos de uma cadeia de capital que acompanhe a tecnologia ao longo de sua trajetória, inclusive nas fases em que o risco permanece elevado e o volume de recursos necessários aumenta. Financiar a pesquisa e apoiar o nascimento de uma startup não é suficiente se a empresa não encontra instrumentos para validar, industrializar e conquistar seus primeiros mercados.
Sem demanda, a tecnologia não chega ao mercado
A terceira é criar demanda. Uma tecnologia não se torna competitiva simplesmente porque existe. Ela precisa ser testada, certificada, comprada, incorporada a processos produtivos e utilizada em escala. Grandes empresas e o Estado podem desempenhar um papel muito maior como primeiros clientes, especialmente em tecnologias que apresentam alto potencial, mas ainda não têm escala comercial.
Isso significa olhar para inovação também pelo lado da demanda. Não apenas perguntar quanto investimos, mas quanto conseguimos criar condições para que novas tecnologias sejam efetivamente utilizadas.
Ecossistemas locais precisam se conectar entre si e com o mundo
A quarta frente é fortalecer os ecossistemas locais e conectá-los internacionalmente.
São Paulo já está entre os 50 principais clusters de inovação do mundo. O próximo passo não deveria ser apenas melhorar sua posição, mas ampliar as conexões com Campinas, Belo Horizonte, Recife, Florianópolis, Rio de Janeiro, São José dos Campos e tantos outros polos de competência no país e, a partir deles, construir conexões mais fortes com os grandes centros internacionais.
Um exemplo recente dessa lógica está surgindo em Brasília. O lançamento do Brasília Tech Hub, no Parque Tecnológico de Brasília (BIOTIC), reúne dezenas de empresas de tecnologia e busca criar um ambiente de conexão entre empresas, universidades, centros de pesquisa e setor público. O projeto representa uma iniciativa concreta para estruturar um ecossistema de referência na capital federal e ampliar sua conexão com o Governo Federal, o Distrito Federal e o restante do país.
O ponto central é que não precisamos reproduzir modelos estrangeiros. Precisamos identificar nossas competências, construir ambientes capazes de desenvolvê-las e conectá-las aos mercados.
A capacidade das instituições também entrou na disputa pela inovação
E há uma dimensão que atravessa todas as demais: a capacidade institucional. Esse foi, para mim, um dos pontos mais relevantes da reflexão de Bruno Lanvin no lançamento do GII 2026. A velocidade da transformação tecnológica está exigindo instituições capazes de acompanhar mudanças igualmente rápidas em inteligência artificial, infraestrutura digital, energia, dados, regulação e modelos de negócios. A inovação deixou de ser uma agenda exclusivamente tecnológica. Ela exige coordenação entre diferentes áreas e diferentes níveis: internacional, nacional, regional e urbano.
Essa talvez seja uma das grandes questões para o Brasil. Temos políticas, instituições, fundos, universidades, parques tecnológicos, hubs e programas de inovação. O desafio agora é aumentar a capacidade de fazê-los produzir resultados de forma coordenada e contínua.
Isso significa acompanhar menos a quantidade de iniciativas e mais a sua capacidade de gerar transformação. Quantas tecnologias chegaram ao mercado? Quantas empresas conseguiram crescer? Quantas patentes se transformaram em negócios? Quanto P&D privado se converteu em produtividade? Quantas soluções brasileiras conquistaram mercados internacionais? Quantos empregos qualificados foram criados? Quanto conhecimento produzido no país se converteu em propriedade intelectual, negócios e qualidade de vida?
O Brasil precisa elevar a ambição sobre o papel da inovação
Mas talvez seja hora de ir além de simplesmente aperfeiçoar os mecanismos existentes. O Brasil precisa elevar sua ambição sobre o papel da inovação no desenvolvimento econômico.
Isso significa colocar ciência, tecnologia e inovação no centro da estratégia industrial; aproximar empresas e centros de pesquisa; criar financiamento capaz de acompanhar tecnologias até a escala; utilizar o poder de compra de grandes empresas e do Estado para abrir mercados; conectar ecossistemas brasileiros entre si e com o mundo; formar e atrair talentos; e construir um ambiente institucional que permita que empresas inovadoras assumam riscos, cresçam e compitam globalmente.
Essa transformação exige visão de longo prazo e continuidade. Não será resultado da ação isolada de uma empresa, universidade, governo ou investidor. Dependerá da capacidade de diferentes atores atuarem sobre uma mesma agenda, com objetivos claros e métricas que valorizem impacto.
O Global Innovation Index 2026 mostra que o Brasil já acumulou ativos relevantes e que existe uma trajetória de avanço. O desafio agora é transformar essa base em um sistema capaz de produzir resultados mais amplos, sustentados e distribuídos pelo país.
No mundo que está emergindo, o conhecimento científico será cada vez mais estratégico. A inteligência artificial acelerará os ciclos de inovação. O capital continuará buscando tecnologias capazes de criar novos mercados. E as economias que conseguirem combinar ciência, talento, infraestrutura, capital, empresas e demanda estarão mais preparadas para competir.
Para o Brasil, portanto, a questão não é mais demonstrar que somos capazes de inovar e sim transformar essa capacidade em escala, produtividade e desenvolvimento. Essa, para mim, é a verdadeira fronteira da inovação brasileira.
*Gianna Sagazio é CEO da SOSA Brasil e copresidente do Portulans Institute
Fontes
● WIPO. Global Innovation Index 2026. — ranking, indicadores brasileiros e tendências globais de inovação.
● WIPO. Global Innovation Index 2026 – Special Theme: Powering Entrepreneurs at the Frontier of Science. — deep science, 30 mil empresas, US$ 7,6 trilhões, financiamento e gargalos de escala.
● WIPO. Global Innovation Tracker 2026. — P&D global, P&D corporativo, venture capital e produtividade.
● Embraer / Eve Air Mobility. — informações sobre o desenvolvimento e os testes do eVTOL.
● Brain4Care. — informações institucionais e científicas sobre a tecnologia e sua trajetória regulatória.
● SAGAZIO, Gianna. “O próximo salto do Brasil é transformar inovação em escala”. Exame, 27 set. 2026. — artigo anterior da autora, que estabelece a discussão sobre os gargalos de escala das deep techs brasileiras. Exame
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.