Recuperar a empatia

Começo com uma provocação, e peço que me leiam até ao fim antes de me arrumarem numa qualquer trincheira ideológica. É possível ter empatia pelos cidadãos de Ceuta, que viram a sua cidade perder o equilíbrio, com gente a galgar fronteiras de forma desordenada, com o caos instalado num ápice, e com a sensação de que a segurança que dávamos por adquirida deixou de existir?
É.
Não consigo imaginar o que deve ser a nossa rua deixar de nos pertencer, e sei que é nessa segurança miúda, quotidiana, que assenta a coesão de qualquer comunidade.
E é possível, no mesmo instante e com a mesma intensidade, ter empatia por quem atravessou o deserto e o mar, dormiu ao relento, foi roubado, espancado, vendido, até chegar a um muro onde não é bem-vindo, fugindo das mais diversas perseguições, muitas vezes apenas para continuar vivo?
É.
E tenho muita dificuldade em aceitar que, em 2026, se continue a estigmatizar pessoas e a perder a noção do que é o sofrimento numa parte do mundo que ainda vive segundo regras pré-hobbesianas, onde não há Estado que garanta nada a ninguém.
Há em tudo isto um dilema complicado, difícil de reconciliar, e é nesta fase que a maior parte das pessoas desliga, porque pôr sob tensão empatias tão contraditórias é exigente, obriga a que a nossa cabeça e o nosso coração aguentem a complexidade sem a barricar; e a sociedade em que vivemos quase já não tem lugar para quem se recusa a escolher trincheiras.
As democracias foram, durante décadas, o espaço onde estas coisas se reconciliavam, o centro do contrato social, a garantia da lei e da ordem, o elevador da mobilidade, o espaço onde as diferenças se negociavam. Estão, porém, a deixar de o ser a um ritmo alucinante. Quase já sem disfarçar, os governos e os atores políticos tornaram-se atores com interesses próprios, máquinas que se protegem a si mesmas, cada vez mais afastadas das pessoas que dizem servir. E as pessoas percebem isso e votam em conformidade, no primeiro que lhes prometa executar um programa simples de barricada.
A imigração é o exemplo mais cru. Sofre de falta de regras e de planeamento e sofre sobretudo de uma omissão sobre a qual quase ninguém fala: pouco ou nada se faz para promover, nos países de origem, democracias sólidas, ao serviço dos cidadãos, que lhes deem razões para ficar. Na Europa e nos Estados Unidos, líderes cleptocratas são recebidos com passadeira vermelha e guarda de honra, como chefes de Estado impolutos, enquanto, nos seus países, fabricam, com método, a corrupção, a fome, a falta de oportunidades e o desespero que empurra gente para o mar. E depois espantamo-nos com Ceuta.
Escrevo esta crónica no dia em que acompanhei Venâncio Mondlane à Rádio Observador. O político mais amado de Moçambique, o homem que ganhou umas eleições que, na legalidade, ninguém duvida que lhe dariam a presidência, pastor evangélico, com assento no Conselho de Estado, um homem bom, cosmopolita e que quer trazer o seu país para um futuro digno, vai ser julgado por terrorismo.
Terrorismo.
Um homem de paz, que viu os seus apoiantes mais pobres, indefesos e anónimos assassinados aos milhares pela polícia política e que continua, todas as semanas, a enterrar militantes, é este o homem que o Estado moçambicano senta no banco dos réus com uma das acusações mais graves que a lei conhece.
Pelo caminho, Daniel Chapo, que tanto prometeu, mas que mantém o país na mais profunda pobreza e desesperança, é recebido com honras de Estado, algo que não se compreende. Ou compreende-se, e é isso o pior: o mundo está hoje mais preocupado com as matérias-primas raras do que com os direitos mais elementares de uma sociedade civilizada, e, nas chancelarias, um presidente que assina concessões tem sempre lugar à mesa como se fosse um Senhor.
Há que dizer que nem tudo tem sido mau neste aspeto na política portuguesa. No caso de Venâncio Mondlane, como já havia sido no caso de Domingos Simões Pereira, acusado de tentativa de golpe de Estado na Guiné-Bissau, a diplomacia portuguesa está a assumir uma posição que é de realçar, tendo Paulo Rangel recebido o líder moçambicano e ouvido as suas preocupações, com equidistância, mas sem fazer do momento um evento envergonhado; e vários deputados europeus, da IL à AD, têm feito questão de amplificar as queixas nas instituições europeias. Há sinais que do Chega a partidos mais à esquerda o tema preocupa, o que em si é positivo. Mas estas iniciativas não têm sido suficientes para resolver o que está na raiz do problema, nem se traduziram ainda em ações concretas que desmobilizm a cleptocracia moçambicana.
Dificilmente teremos sociedades mais coesas, e democracias que promovam o bem comum, a mobilidade social, a defesa dos direitos fundamentais e a separação de poderes, enquanto as prioridades forem a mercantilização da mão-de-obra e um multiculturalismo vazio, que concede espaço de dignidade a culturas e a leituras da religião que emanam de estruturas sociais anteriores a Hobbes. Mas tampouco teremos um mundo mais coeso se construirmos países protegidos por muralhas medievais, que deixam fora da civilização continentes inteiros, África à cabeça, fechando os olhos a quem, lá dentro, tenta trazer o seu país para a modernidade, deixando-os à sua sorte.
Se permitirmos que os nossos Estados e os nossos governos se reduzam a defensores de interesses empresariais, gestores de pequenas mercearias com bandeira à porta, pondo de lado o respeito pelos valores fundamentais e pelas democracias que levámos duzentos anos a construir, seremos engolidos pela barbárie, e depressa. Ceuta é uma pequena amostra. Mondlane, a caminho do tribunal, é outra. Tenho empatia pelos cidadãos de Ceuta e tenho-a, no mesmo nível e com o mesmo grau, pelos que, no extremo oposto, lutam pela sobrevivência, e o que se exige aos governos é que pensem no mundo que queremos deixar aos nossos filhos: um planeta mais equilibrado, ou a ficção de que nada se passa. No segundo caso, cairemos depressa nas mãos dos bárbaros.
Nem Hobbes nem Rousseau. Nem o homem lobo do homem, nem o bom selvagem que a sociedade corrompeu: o que o mundo necessita de recuperar são os valores das pessoas comuns, a segurança, o trabalho, a realização individual, a possibilidade de subir na vida e de viver em paz. Precisa de voltar a valorizar os direitos fundamentais, entretanto tribalizados nas barricadas da esquerda e da direita, num planeta e numa época em que, por força das alterações globais a que assistimos, essas dicotomias deixaram de servir para explicar o mundo e resolver os seus problemas. Importa perceber, agora, se estamos à altura da herança que recebemos do passado, de fazer com que as democracias não se tornem uma excentricidade num planeta onde a política está cada vez mais musculada e feita para mentes simples.
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