Nem todo eleitor que deixa de votar é desinteressado pela política, diz pesquisador

Autor do livro "O País Dividido", que analisa as últimas duas décadas de eleições no Brasil, Nicolau explica que o total de ausentes reúne pessoas com perfis e motivos diferentes para não votar. Isso inclui desde eleitores que não são obrigados a votar até aqueles que moram longe de seu domicílio eleitoral. Há também problemas de cadastro, como municípios com mais eleitores registrados do que habitantes.
Em entrevista ao g1, o pesquisador afirmou que não é possível determinar quantos brasileiros deixaram de votar simplesmente por falta de interesse na eleição.
“A gente não sabe porque não há pesquisa”, disse. Segundo ele, os institutos costumam concentrar seus levantamentos nas intenções de voto, e não nas razões que levam parte do eleitorado a não comparecer às urnas.
Eleitores ouvidos pelo g1 em outra reportagem citam também a burocracia para transferir o título e questões de acessibilidade aos locais de votação como motivos para o não comparecimento.
A eleitora Bianca Dantas contou que, após passar por uma cirurgia no joelho duas semanas antes do primeiro turno, não conseguiu chegar à seção eleitoral porque não conseguia subir escadas. “Quantas pessoas deixaram de votar por essa mesma razão, né? Pessoas que sofreram acidentes, enfim, e isso foi muito frustrante para mim. Estar ali na porta e ter que virar as costas e ir embora sem poder votar”, disse. Leia a reportagem completa.
➡️No primeiro turno, em 4 de outubro, a abstenção ultrapassou 33,4 milhões de eleitores — 21,08% do eleitorado apto a votar — e atingiu o maior patamar desde 1998. O percentual teve uma ligeira alta em relação a 2022, quando 20,9% dos eleitores não votaram.
👉🏻Abstenção é quando, mesmo tendo direito ao voto, o eleitor não comparece às urnas.
Nicolau esperava um pequeno aumento da abstenção neste ano, diante do que identificava como menor engajamento dos eleitores durante a campanha, a "campanha silenciosa". O percentual, porém, ficou praticamente no mesmo patamar de 2022.
“A gente está nesse patamar, mais ou menos 20 pontos, porque eu acho que tudo indica que é o padrão brasileiro de ausência das urnas”, afirmou.
Nordeste e Norte tiveram menor abstenção
Nicolau analisou como a abstenção se distribuiu entre as regiões e os municípios brasileiros.
Para isso, dividiu os municípios em cinco grupos, de acordo com o tamanho do eleitorado. Cada grupo reúne aproximadamente 20% dos eleitores do país, ou cerca de 31 milhões de pessoas. Depois, separou as cidades de cada grupo pelas cinco regiões brasileiras.
A análise do pesquisador mostrou que o Nordeste registrou a menor taxa de abstenção neste ano, de 18,4%, seguido pelo Norte, com 19,4%. Os maiores percentuais foram observados no Sudeste (22,7%) e no Centro-Oeste (21,7%).
O Sudeste concentrou 15,1 milhões dos 32,9 milhões de eleitores que não compareceram às urnas no Brasil, desconsiderando os eleitores no exterior.
Outro dado destacado pelo pesquisador é que a abstenção no Nordeste caiu de 19,5%, em 2022, para 18,4% neste ano. Na comparação entre as duas eleições, o número de pessoas que compareceram às urnas na região aumentou em 1,4 milhão.
Nicolau ressalta, no entanto, que os números precisam ser analisados com cautela. Em 2026, 716 municípios tinham mais eleitores cadastrados do que habitantes, situação que pode distorcer as taxas de abstenção.
Isso acontece, por exemplo, quando uma pessoa muda de cidade sem transferir o título ou quando eleitores que morreram ainda permanecem no cadastro eleitoral.
Quem são os brasileiros que deixam de votar?
Para entender o perfil dos eleitores ausentes, Nicolau analisou dados das três eleições anteriores, reunidos em seu livro "O País Dividido". Os dados detalhados sobre o perfil social dos eleitores que não votaram em 2026 ainda não foram divulgados e devem ser disponibilizados após o segundo turno.
O estudo identificou dois grupos importantes entre os eleitores que não comparecem às urnas:
- Jovens de 18 a 29 anos, para quem o voto é obrigatório.
- Pessoas com 70 anos ou mais, especialmente mulheres de baixa escolaridade, que não são obrigadas a votar.
Entre os jovens, o número de ausentes surpreendeu o pesquisador. No primeiro turno de 2022, 7,7 milhões de eleitores de 18 a 29 anos deixaram de votar — 4,3 milhões de homens e 3,5 milhões de mulheres.
👉🏻Outro dado que chamou a atenção de Nicolau foi a alta abstenção de jovens que tiram o título de eleitor aos 16 ou 17 anos, quando o voto ainda é facultativo, e não comparecem às urnas.
Segundo ele, os jovens estão entre os grupos que podem ser mais facilmente mobilizados para votar no segundo turno, diferentemente de parte dos eleitores idosos, que enfrentam dificuldades de deslocamento ou problemas de saúde.
📍Na outra ponta, cerca de três em cada dez eleitores ausentes nas eleições anteriores não eram obrigados a votar. São pessoas com 70 anos ou mais e analfabetos de qualquer idade.
Entre os idosos, destacam-se as mulheres de baixa escolaridade. Em 2022, aproximadamente 4,5 milhões de mulheres com 70 anos ou mais, analfabetas ou com escolaridade até o ensino fundamental, não compareceram às urnas.
O pesquisador ressalta que parte dessas ausências está associada a dificuldades de locomoção, problemas de saúde e distância até os locais de votação. Há ainda pessoas que deixaram de votar há muitos anos e continuam no cadastro eleitoral.
Por isso, segundo Nicolau, não é possível tratar todos os ausentes como eleitores que decidiram rejeitar a política ou os candidatos.
Voto obrigatório 'na teoria'
Outro ponto levantado pelo pesquisador é que, embora o voto seja obrigatório no Brasil para pessoas entre 18 e 70 anos, as consequências práticas de não comparecer às urnas são relativamente pequenas.
Nicolau cita a facilidade para justificar a ausência pelo celular e o baixo valor da multa eleitoral, de R$ 3,70, inferior ao preço de uma passagem de ônibus em muitas cidades.
Na avaliação dele, isso faz com que a obrigatoriedade do voto tenha perdido parte de seu efeito prático.
“É um voto obrigatório no papel, mas está se tornando um voto facultativo na prática”, afirmou.
O pesquisador ressalta que não defende o aumento da multa. Para ele, o mais importante é compreender as diferentes razões pelas quais os eleitores deixam de votar.
A falta de pesquisas específicas sobre esse público, segundo Nicolau, ainda impede uma compreensão mais precisa do fenômeno.
Abstenção no primeiro turno chegou a 21%, maior índice já registrado — Foto: Eliandra Bussinger
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