Por que as crianças de fazendas costumam ter menos alergias
"Crianças que cresceram em fazendas e foram expostas a uma grande diversidade de micróbios têm menos alergias", afirma Ege. Segundo o pesquisador, o sistema imunológico dessas crianças é constantemente exposto a "parceiros de treino" presentes no ar dos estábulos e, assim, aprende a evitar respostas inflamatórias excessivas.
Durante muito tempo, o efeito fazenda foi explicado pela hipótese da higiene. Formulada em 1989, ela afirma, de forma simplificada, que o sistema imunológico se desenvolve pior quando as crianças têm pouco contato com microrganismos nos primeiros anos de vida.
Hoje, porém, os pesquisadores veem a hipótese da higiene de outra forma. O alergologista chileno Arturo Borzutzky, por exemplo, destaca que muitas pessoas em cidades da América Latina estão expostas a muitas bactérias e, ainda assim, desenvolvem asma com frequência.
"Isso é algo que a simples hipótese da higiene não consegue explicar", ressalta Borzutzky. A nova pesquisa, no entanto, daria apoio a uma explicação mais precisa: "São sinais microbianos específicos que protegem contra alergias, e não a exposição em geral", acrescenta.
Isso significa que, mais do que a exposição ao maior número possível de micróbios, os responsáveis pelo efeito protetor parecem ser determinados microrganismos.
Nove bactérias em vez de apenas "mais natureza"
Para o estudo, a equipe liderada por Ege analisou amostras e dados de saúde de mais de mil crianças participantes de pesquisas europeias. Foram examinados, entre outros materiais, amostras nasais e amostras de poeira de residências e estábulos de vacas.
Com a ajuda de modernas análises genéticas e metabólicas, os pesquisadores identificaram nove bactérias especialmente associadas à proteção contra asma e doenças alérgicas. Segundo os cálculos dos cientistas, essas bactérias explicam cerca de dois terços do efeito protetor contra a asma e aproximadamente metade do efeito observado contra rinite alérgica e dermatite atópica.
Asma, rinite alérgica e dermatite atópica formam a chamada tríade atópica, três doenças inflamatórias que compartilham uma base comum.
As próprias bactérias são, porém, apenas parte da história. O elemento decisivo parece ser os produtos metabólicos delas.
Pela primeira vez, os pesquisadores descreveram uma possível cadeia de efeitos: bactérias presentes no intestino das vacas produzem substâncias metabólicas que chegam ao ar e à poeira dos estábulos. As crianças inalariam essas substâncias, ativando determinados receptores nas vias respiratórias. Como consequência, as reações inflamatórias seriam reduzidas e o risco de alergias diminuiria.
Primeiros 1.000 dias são decisivos
Mas em que momento esse contato é especialmente importante? O estudo atual foi realizado com crianças em idade escolar. "Portanto, o efeito certamente ocorre nos primeiros anos de vida", detalhou Ege.
Estudos anteriores mostram que essa influência pode começar antes mesmo do nascimento. A permanência de gestantes em estábulos pode influenciar o sistema imunológico do bebê no ventre.
Após o nascimento, seguem-se outras fases sensíveis. Segundo Ege, quando a chamada proteção passiva proporcionada pelos anticorpos maternos diminui, por volta dos seis meses de idade, as infecções respiratórias aumentam. Mais tarde, com a entrada na creche e na pré-escola, surgem novos contatos com agentes causadores de doenças. Tudo isso contribui para moldar o sistema imunológico.
O efeito fazenda já foi observado em muitos países. No entanto, os fatores ambientais relevantes parecem variar. "Na China, por exemplo, a criação de aves desempenha um papel mais importante, enquanto em nossas latitudes a pecuária leiteira é claramente a mais relevante", afirma Ege.
Ainda será necessário investigar se são as mesmas bactérias que produzem o mesmo efeito em diferentes regiões do mundo.
Nem todos os tipos de asma são iguais
Ao mesmo tempo, Ege e Borzutzky relativizam a importância do efeito fazenda. Afinal, ele é apenas uma peça de um quebra-cabeça muito maior. Segundo Ege, fatores como poluição do ar, tabagismo passivo e situações de vulnerabilidade material e psicológica têm um peso muito maior como fatores de risco para a asma.
O racismo estrutural também pode afetar a saúde, por exemplo, por meio de condições habitacionais piores, maior exposição a poluentes ambientais ou dificuldade de acesso aos serviços de saúde.
O novo estudo sobre o efeito fazenda explica principalmente o componente alérgico da asma. Borzutzky ressalta, porém, que muitos casos de asma observados em cidades latino-americanas não são primariamente alérgicos.
"A maior parte dos casos de asma altamente prevalente nas cidades latino-americanas é de natureza não atópica e causada pela pobreza, pelas condições habitacionais precárias, pela poluição do ar e por infecções", acrescenta.
Do estábulo ao medicamento?
Para Ege, a principal mensagem do estudo não está na fazenda em si, mas no fato de que o risco de determinadas formas de asma e de outras alergias pode ser reduzido pelo contato com os microrganismos adequados.
A questão central é descobrir quais sinais biológicos presentes nesse ambiente oferecem proteção e como eles poderiam ser utilizados. O objetivo de longo prazo é reproduzir, através de medicamentos, o efeito protetor natural de uma fazenda.
No entanto, ainda deve levar muito tempo até que a pesquisa leve a um medicamento ou uma terapia preventiva. O desenvolvimento de novos princípios ativos e os processos regulatórios necessários geralmente demoram décadas.
Proteção contra alergias nas cidades
As pesquisas sobre o efeito fazenda não representam um argumento contra a vida urbana. Borzutzky ressalta que os espaços urbanos também podem oferecer vantagens para a saúde, como o acesso mais fácil à vacinação, por exemplo.
As vacinas previnem infecções respiratórias graves que, em geral, prejudicam as vias respiratórias em vez de treinar o sistema imunológico de forma benéfica. Como exemplo, ele cita o programa nacional de imunização contra o vírus sincicial respiratório (VSR) no Chile, que reduziu significativamente os casos graves de bronquiolite em bebês e poderá influenciar também a taxa de asma nos próximos anos.
"Não tenham medo da sujeira comum do dia a dia, dos animais de estimação ou dos irmãos. Esses contatos provavelmente são até benéficos", ressalta Borzutzky.
Já fatores de risco conhecidos, como fumaça e poluição do ar, devem ser levados a sério.
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