Estudo da Natura com Oxford responde: qual é 'fórmula' para o funcionário ficar na empresa?
O que faz um profissional decidir permanecer em uma empresa? Salário, benefícios e oportunidades de crescimento costumam aparecer entre as primeiras respostas.
Um estudo da Natura em parceria com a Universidade de Oxford acrescenta outros elementos à equação:
- a forma como o trabalho é organizado,
- a relação com a liderança,
- o sentimento de pertencimento.
A pesquisa acompanhou mais de 9,5 mil funcionários da companhia e cruzou informações sobre bem-estar coletadas em 2025 com avaliações de performance e registros de permanência em 2026.
Os resultados mostraram que funcionários com níveis mais altos de bem-estar apresentaram maior probabilidade de permanecer na companhia e também tiveram melhores avaliações de performance seis meses depois.
A relação foi mais forte quando o assunto era retenção. Em outras palavras, o bem-estar apareceu mais associado à decisão de permanecer na empresa do que ao desempenho profissional.
Para Paula Benevides, vice-presidente de Pessoas, Cultura e Organização da Natura, esse foi um dos principais achados do levantamento.
“O impacto do bem-estar sobre a permanência das pessoas na companhia é maior do que o impacto sobre a performance”, afirma.

Paula Benevides, vice-presidente de Pessoas, Cultura e Organização da Natura: “Na Natura, partimos da premissa de que um negócio só é saudável se as pessoas que o constroem estiverem bem” (Natura/Divulgação)
O que pesa para um funcionário ficar?
O estudo identificou três grandes dimensões que concentram boa parte das diferenças de bem-estar entre os funcionários: pertencimento, crescimento e confiança; desenho do trabalho; e relação com a liderança direta.
Um dos resultados mais concretos apareceu justamente na organização da rotina. Dentro da dimensão de desenho do trabalho, o fator mais relacionado à ausência de estresse foi a capacidade de concluir as atividades dentro da jornada regular.
Na prática, o levantamento sugere que políticas pontuais de bem-estar podem não ser suficientes quando a rotina continua marcada por problemas estruturais.
“A pesquisa revelou que o bem-estar subjetivo se comporta como uma variável estrutural e estável, e não como algo que muda drasticamente de um mês para o outro”, afirma Benevides.
Fatores como desenho da jornada, pertencimento e confiança na gestão, segundo o estudo, ajudam a explicar a relação encontrada com retenção e performance.
“Ações pontuais têm valor, cuidam de quem precisa naquele momento e sinalizam prioridade, mas, se forem a estratégia inteira, estamos tratando sintoma.”

Fabrica da Natura - Cajamar em São Paulo: Fatores como desenho da jornada, pertencimento e confiança na gestão, segundo o estudo da Natura com Oxford, ajudam a explicar a relação encontrada com retenção e performance (Leandro Fonseca /Exame)
E o chefe nessa história?
A liderança direta também aparece entre os fatores relacionados ao bem-estar dos profissionais.
O estudo não determina isoladamente quanto um chefe aumenta ou reduz a probabilidade de um funcionário deixar a companhia. A relação com a liderança aparece em conjunto com as demais dimensões que ajudam a explicar as diferenças de bem-estar.
Para a Natura, porém, os resultados passaram a dar mais peso ao tema nas decisões de gestão.
“A gestão direta deixou de ser um tema de percepção subjetiva para se tornar um fator que a evidência aponta como prioritário”, afirma Benevides.
Hoje, a companhia utiliza a pesquisa de engajamento para identificar áreas nas quais a relação entre funcionários e gestores apresenta fragilidades. Quando isso acontece, segundo a executiva, o indicador entra nas conversas de desenvolvimento da liderança ao lado dos resultados de negócio.
Isso significa que entregar as metas, sozinho, não encerra a avaliação sobre a forma como uma equipe está sendo conduzida.
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Alta performance sem sobrecarga
A discussão ganha importância em um momento em que empresas tentam conciliar produtividade, retenção e saúde organizacional.
Para Benevides, a lógica não deveria colocar performance e bem-estar em lados opostos.
“Na Natura, partimos da premissa de que a regeneração é condição para a performance, e não um custo dela. Um negócio só é saudável se as pessoas que o constroem estiverem bem.”
O desafio agora, diz a executiva, é transformar essa visão em indicadores capazes de orientar decisões.
“Estamos tornando essa relação auditável, com metodologia e dados, saindo de uma abordagem intuitiva para uma gestão analítica.”
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Por que Oxford entrou no estudo?
A pesquisa foi realizada em parceria com a Universidade de Oxford. Segundo Benevides, a Natura buscou a instituição para submeter ao método científico uma percepção que já fazia parte da cultura da companhia.
A executiva afirma que a empresa é a primeira da América Latina a estabelecer esse tipo de parceria com Oxford. O trabalho teve participação de Jan-Emmanuel De Neve, professor e pesquisador da universidade especializado em economia do bem-estar.
“Internamente temos os dados, mas o rigor estatístico para transformar isso em evidência científica é o que a expertise acadêmica agregou”, afirma.
A pesquisa foi realizada em duas fases. Em 2025, a Natura incorporou o Índice de Bem-Estar à pesquisa de engajamento e testou uma metodologia para medir o tema. Na segunda etapa, os dados foram cruzados com avaliações de performance e registros de permanência de 2026, acompanhando as mesmas pessoas ao longo do tempo.
Foi esse acompanhamento que permitiu observar se o nível de bem-estar registrado anteriormente estava associado ao que aconteceria com esses profissionais meses depois.

Universidade de Oxford, Inglaterra: a Natura buscou a instituição para submeter ao método científico uma percepção que já fazia parte da cultura da companhia (joe daniel price/Getty Images)
Natura quer criar um “IDH” dos funcionários
Os resultados também estão servindo de base para uma mudança na forma como a Natura mede a experiência de seus funcionários.
A companhia desenvolve o chamado IDH da Pessoa Colaboradora, indicador que deverá começar a funcionar como uma “bússola de gestão” a partir de 2027.
A proposta é ampliar a tradicional medição de engajamento para uma análise de bem-estar dividida em seis dimensões: profissional, mental, social, física, financeira e consciência.
A dimensão profissional considera aspectos como propósito, desenvolvimento, reconhecimento e equilíbrio entre desempenho e qualidade de vida. A mental observa equilíbrio psicológico, clareza e capacidade de lidar com desafios. Já a social analisa relações, colaboração, inclusão e pertencimento.
O indicador também deverá incorporar aspectos de saúde física, segurança financeira e a chamada dimensão da consciência, relacionada à autorreflexão e à percepção sobre o impacto das próprias escolhas.
A diferença em relação a uma pesquisa tradicional de clima é que a Natura pretende combinar diferentes fontes de informação e acompanhar momentos específicos da trajetória dos funcionários.
A empresa já planeja ampliar a escuta para etapas como admissão, retorno de licença, promoção e desligamento, em vez de depender apenas de pesquisas realizadas em períodos determinados.
A partir de 2027, a expectativa é que o IDH ajude a orientar decisões sobre processos, benefícios, saúde e experiências oferecidas aos funcionários.
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Bem-estar dá dinheiro?
Essa é uma pergunta que o estudo ainda não responde.
A pesquisa não analisou a relação direta entre bem-estar e indicadores financeiros da Natura. Segundo Benevides, essa poderá ser uma evolução futura do trabalho.
Nesta etapa, o objetivo foi entender quais fatores estão associados ao bem-estar e como esse indicador se relaciona com performance e permanência.
Os resultados, portanto, não permitem afirmar que investir em bem-estar aumenta diretamente o faturamento ou o lucro de uma companhia. Eles mostram, no entanto, que quem relatou maior bem-estar também apresentou maior probabilidade de permanecer na empresa e melhores avaliações de performance meses depois.
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