Antibióticos: quando tomar pode fazer mais mal do que bem

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Este é o Tratado da Saúde da Rádio Observador com a Dra. Mariana Sobral, médica de saúde familiar da CUF. Fala a doutora. Bom dia, bem-vinda.
Bom dia, João.
"Será que preciso de um antibiótico?" E muitas vezes a resposta dos médicos é não. Doutora, por quê?
Vamos pensar nas situações mais frequentes, como gripes ou constipações, que são causadas por um vírus e os antibióticos foram concebidos para combater bactérias. São micro-organismos diferentes e os medicamentos também atuam de forma diferente. Um antibiótico não vai destruir o vírus da gripe, não vai encurtar a doença. Quando a suspeita clínica, através de um exame físico e eventualmente análises, for de uma infeção bacteriana, aí naturalmente avançamos para o antibiótico.
E consegue explicar de forma simples a diferença entre um vírus e uma bactéria?
Uma bactéria é um organismo microscópico que consegue crescer e reproduzir-se de forma autónoma. Algumas bactérias são úteis, mas outras podem causar infeções. Os antibióticos atuam sobre estas estruturas ou processos das bactérias, impedindo que, por exemplo, se multipliquem. Um vírus é diferente, precisa de entrar nas células do nosso organismo, multiplicar e, mais uma vez, o antibiótico não tem qualquer efeito. A gripe, a constipação e muitas infeções respiratórias são maioritariamente causadas por vírus e daí o tratamento de suporte com repouso, paracetamol ou efedrina.
Mas doutora, uma gripe pode transformar-se numa infeção bacteriana?
Pode acontecer. Não é regra, mas uma infeção viral pode ser seguida de uma complicação bacteriana. E aí sim, o médico considerar efetivamente um antibiótico. Temos que pensar se há agravamento de sintomas, se existem novas queixas, aí deve ser reavaliada a utilização de antibiótico ou não.
O que responde àquelas pessoas que perguntam: "Então e se eu tomar um antibiótico por precaução, qual é o problema?"
Pode ter efeitos adversos sem nenhum benefício, como diarreia. Podem surgir náuseas, alergias e claro, que a utilização desnecessária contribui para a seleção das chamadas bactérias resistentes.
E o que significa isso, a resistência aos antibióticos? É o nosso corpo que fica resistente?
Não. São as bactérias que se transformam quase como superbactérias e portanto, vai ser cada vez mais difícil tratar. E para além de ser um problema individual, também é um problema coletivo, porque em Portugal é cada vez mais preocupante a nossa taxa de resistência a antibióticos, provavelmente pelo uso indevido de antibióticos ou também incorreto.
Lá está. Se me for prescrito um antibiótico, quais são os cuidados que devo ter?
Tomar como foi indicado: dose, horários e duração. Não deve guardar sobras para outra ocasião ou para partilhar com familiares ou amigos. Se tiver uma reação inesperada ou não conseguir tomar o medicamento, ou se houver uma pioria dos sintomas, voltar a ir ao médico para ser reavaliado.
Estamos mesmo a terminar. Qual é a mensagem prática, dra. Mariana?
Se é gripe, o antibiótico não vai curar a doença. Não tome antibióticos se sobraram, não partilhe medicamentos e não peça um antibiótico apenas para se sentir mais protegido. Se os sintomas forem intensos, se agravarem ou existirem dúvidas, procure ajuda médica.
tratardaSaúde@observador.pt, para onde pode enviar as suas dúvidas. Se preferir, também pode enviar um áudio por WhatsApp para 91 002 4185. Dra. Mariana Sobral, bom fim de semana.
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