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Thursday, September 24, 2026

Almodóvar em tom autoficcional menor e a olhar para o umbigo

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O último grande filme de Pedro Almodóvar foi o semiautobiográfico Dor e Glória (2019), em que Antonio Banderas interpreta uma versão do realizador, Salvador Mallo, quase a fazer 70 anos, crivado de maleitas físicas e atormentado por achaques existenciais e da alma. Mallo julga ter deixado para trás os seus dias de glória, e não considera sequer conseguir escrever um argumento ou rodar um filme. Dor e Glória é uma grave e sentida ficção do “eu” levada a cabo por Almodóvar, cheia de autenticidade emocional, psicológica e confessional, feita num importante momento de introspeção existencial e criativa, pesando a sua vida e a sua carreira artística.

Natal Amargo, em que Almodóvar recorre de novo à autoficção, faz figura de companion piece menor, de sucedâneo peso-pluma de Dor e Glória. O exame íntimo é substituído pela autoindulgência e mesmo pela autocaricatura, e a veracidade dos sentimentos, das relações e das situações dá lugar à artificialidade e à inverosimilhança. Em Natal Amargo, o alter ego de Almodóvar é agora Leonardo Sbaraglia (que também entra em Dor e Glória), interpretando Raúl Rossetti, um consagrado realizador que não filma há cinco anos. Raúl está a escrever um argumento sobre uma cineasta ficcional, Elsa (Bárbara Lennie), que faz anúncios mas quer voltar às longas-metragens com um terceiro filme, e o seu namorado, Bonifacio (Patrick Criado), um bombeiro e stripper em part-time, mais novo que ela.

[Veja o “trailer” de “Natal Amargo”:]

O filme dentro do filme chama-se Natal Amargo (embora quase não se dê pela quadra) e passa-se nos primeiros anos deste século. Elsa é uma versão de Raúl, e Bonifacio do namorado deste, Santi (Quim Gutiérrez), mas o enredo também vampiriza a vida de Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), lésbica e grande amiga e assistente de Raúl, que lhe pediu três meses de férias para ajudar duas amigas: Patricia (Victoria Luengo), cujo marido a terá traído durante uma viagem de negócios a Paris e que tem um filho pequeno, e Natalia (Milena Smit), uma modelo que perdeu o filho num acidente, entrou em depressão, deixou de trabalhar e foi refugiar-se em casa da mãe, na aldeia em que nasceu.

[Veja uma entrevista com Pedro Almodóvar:]

Quando Mónica lê o argumento e se reconhece em Elsa e nos problemas desta, fica furiosa com Raúl, ameaça-o com um processo judicial e também fisicamente, e a sua amizade é abalada. Mesmo assim, o realizador não recua e, muito pelo contrário, percebe que a história não é sobre ele e Santi, mas sim sobre Mónica, e apesar dos protestos desta, vai dar uma nova direção ao guião. Tudo em Natal Amargo, das complicações auto/meta-ficcionais à intriga dos filmes no filme e também deste, passando pela reflexão sobre a legitimidade ou não do recurso a pessoas reais e às suas vidas para construções de ficção, é raso e sensaborão, trocado em miúdos de lugares-comuns, muito pouco envolvente e até mesmo postiço. E a fita é maçadora, coisa invulgar em Almodóvar, arrastando-se durante os primeiros 45 minutos e namorando com a mais impessoal televisão.

Os momentos em que Almodóvar parece autoparodiar-se sem querer são abundantes. E não falta a piada anti-Netflix, quando Mónica diz a Raúl que não se preocupe com o seu declínio criativo, já que atingiu o estatuto de realizador de culto, e faça um filme para esta plataforma de streaming. Até no humor autodepreciativo Almodóvar não consegue ser original, e o recurso a canções de Chavela Vargas em duas sequências, em vez de relevante para a história ou para as emoções, é ridículo e forçadamente melodramático. Por falar em música, a banda sonora de Alberto Iglesias parece pertencer a um filme melhor que Natal Amargo.

Igualmente raro no cinema de Pedro Almodóvar, as interpretações são medíocres e baças, refletindo a debilidade narrativa e a personalidade visual do filme. O argentino Leonardo Sbaraglia é indiferente na pele de Raúl Rossetti, mas a personagem também não passa do estereótipo do realizador com bloqueio criativo. Bárbara Lennie parece sofrer de paralisia facial. Milena Smit, que era das poucas coisas que se salvavam no intragável Mães Paralelas, está reduzida a fazer carinhas agónicas. E Rossy de Palma tem uma participação rápida de mais para o nosso gosto. Se em Dor e Glória Almodóvar olhou fundo para dentro de si, em Natal Amargo ficou-se por olhar para o umbigo.

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