O seu intestino também bebe café?

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
E já cá tenho comigo a nutricionista Mariana Chaves para mais uma edição do "Aprender a Comer". Olá, Mariana.
Olá, Nelson.
Falamos de café durante o último programa. Vamos voltar a ele no programa de hoje. Falamos do cheiro a café há cerca de uma semana. Gostei muito desse programa.
Exatamente, o cheiro a café.
O cheiro pode mexer conosco e o cheiro a café até já foi estudado, como podem conferir no episódio da semana passada. Mas hoje voltamos ao café.
É isso, voltamos, exatamente. E vamos voltar sempre que houver novidades, porque o café é das coisas sobre as quais mais perguntas recebo dos ouvintes. Desde se posso beber café em jejum, se faz mal ao coração, se o descafeinado também serve. E faz todo sentido, porque o café é um hábito tão português, a nossa bica.
A bica ou o cimbalino.
Exato. Norte ao centro. Também faz parte da rotina, daqueles rituais, como falávamos, associado aos cheiros.
E associado, às vezes, às pausas. Falamos disso também.
Exatamente. E eu acho que agora, este mês em que estamos, de outubro, tudo que é bebidas quentes sabe ainda melhor. E por isso acho que faz todo sentido. Nós já falamos aqui várias vezes dos benefícios do café. A maior parte das pessoas associa o café como sendo uma coisa que faz mal, que tem que se ter cuidado. Mas já falamos aqui num programa que se chama "Quantos cafés posso beber por dia?". Falávamos, por exemplo, da redução do risco de doenças cardiovasculares. E também tem efeito protetor em algumas outras grandes doenças como diabetes tipo dois, obesidade, etc. E o café não é só cafeína. Isto para dizer que destes benefícios que se encontram é porque há mais de 800 substâncias, entre elas os polifenóis, que são os ditos antioxidantes, que já falamos aqui muitas vezes, que são responsáveis por muitos destes benefícios. Nós falamos do cheiro na semana passada, antes de começar a beber, e hoje vamos acompanhar o café um bocadinho pelo caminho, depois de bebermos, até ao intestino. Vamos ver que o café acaba por quase conversar com as nossas bactérias.
O café conversa com o intestino, é isso?
Sim. Já falamos várias vezes aqui do eixo intestino e cérebro.
Sim.
E da microbiota, que já é uma palavra que todos que nos ouvem assiduamente reconhecem. Apesar de quem é novo a ouvir, eu vou aqui resumir rapidamente, porque acho que estes dois termos são muito importantes e depois eu explico por que eu estou a falar disso num programa sobre café. Mas realmente vale a pena, porque a ciência da nutrição mais atual fala muito neste eixo intestino e cérebro. O nosso intestino tem milhões de bactérias, a chamada microbiota.
É a fauna e flora do nosso intestino.
Exatamente. E elas não estão lá de passagem. Elas digerem restos dos nossos alimentos, produzem substâncias e que depois comunicam com o resto do corpo, incluindo com o cérebro. Essas substâncias viajam pelo nosso corpo. E essa conversa é bidirecional, nos dois sentidos.
Como uma boa relação tem de ser.
Exatamente. Quem nunca teve dor de barriga antes de uma reunião importante?
É verdade.
E portanto, o que comemos e bebemos vai alimentar essas bactérias. E o café é das bebidas que mais parece influenciá-las.
Como é que se estuda isto?
Olha, o que foi estudado na Irlanda, que eu acho que tem todo o interesse em vermos, houve aqui um estudo muito engraçado.
Na Irlanda até se bebe muita cerveja, não sei como é que é o consumo de café, mas pelo menos fizeram um estudo sobre o assunto.
Verdade. Será que isto está enviesado com o consumo concomitante de cerveja?
Esperemos que não.
A Universidade da Irlanda publicou na revista científica Nature Communications, um estudo que fizeram em adultos saudáveis, com intervalo de idade entre 30 e 50 anos, os que bebiam habitualmente três a cinco cafés por dia e os outros que nunca bebiam café. Fizeram uma coisa muito difícil, que foi, imagina lá, para quem adora café, o que eles fizeram?
Deixar de beber.
Exato.
Há ali alguma abstinência, não há?
É, sem dúvida. Deixaram de beber duas semanas e a seguir, durante três semanas, voltaram a beber. Portanto, essa abstinência que aconteceu durante essas duas semanas acabou por ser difícil. Mas a verdade é que quando eles voltaram a beber café, uns voltaram a beber com cafeína e outros descafeinados.
Ok.
E eles não faziam ideia do que estavam a beber, qual das duas hipóteses. Pelo caminho, fizeram imensas avaliações de urina, sangue, fezes, etc. Questionários sobre humor, estresse, memória e sono. E claro que o café usado, eu tenho que dizer qual foi, foi um café de saqueta, um café de saco. Aquele café de saco que falávamos até no programa anterior, que deixa mais aroma e tudo. Ou seja, era café dia a dia, atenção, não era nada assim sofisticado de laboratório.
Claro, duas semanas sem café é que pode ser um bocado estranho e complicado. Há muita gente que se queixa logo da dor de cabeça. "Dói-me a cabeça. Se calar não tomei café." Como é que estas pessoas sobreviveram?
Foi exatamente isso que lhes aconteceu.
É verdade, então. Isso acontece mesmo.
É verdade. Sonolência, dor de cabeça, foram logo maiores no início, mas também ao fim de quatro dias já tinham melhorado bastante. É mesmo só aquele período inicial. Quem já tentou cortar sabe bem do que eu estou a falar.
Claro.
Mas aqui vem uma parte surpreendente, que ao fim de duas semanas, as pessoas diziam sentir-se menos cansadas e com mais energia
Quando deixaram de tomar, não foi?
Quando deixaram de tomar. Isto é um ponto, porque nós até já falámos aqui de como ter mais energia ao longo do dia e em algumas pessoas o café pode ter esse impacto. Portanto, essas pessoas, no final dessas duas semanas sem beberem café, ficaram menos impulsivas, menos reativas e com uma tensão arterial mais baixa. Mas isto é a parte positiva. Nem tudo foi positivo. Parece que alguns marcadores de inflamação no sangue subiram durante essa pausa e parece que o café tem os dois lados.
E quando voltaram a beber café, o que é que aconteceu? O estudo tinha isto. Eles paravam durante duas semanas e depois voltavam a beber café, alguns descafeinado.
Exatamente. Os dois grupos, tanto os que voltaram a beber café como aqueles que passaram a beber descafeinado, sentiram-se menos estressados, com menos sintomas depressivos e menos impulsividade. Isto sugere que parte dos benefícios do café não vem da cafeína, certo?
Ok, a princípio.
Se está a acontecer o mesmo para quem bebe descafeinado e para quem bebe café, à partida, não será da cafeína. Houve duas diferenças entre os dois, que foi o quê? Café com cafeína, menos ansiedade e melhor atenção. Descafeinado, melhor memória e aprendizagem e também melhor qualidade de sono.
Claro!
Os investigadores pensam que a melhoria desta memória com o descafeinado pode estar ligada a terem dormido melhor.
Sim.
E possivelmente ter feito mais exercício, e isso faz todo sentido. Mas realmente houve melhorias depois quando incluíram o café.
Mas vamos à parte do intestino. O que se passou no intestino? Isto também foi estudado.
Exatamente, com aquelas análises todas que fizeram, inclusive às fezes. Foi estudado e é um tópico mais técnico, mas eu acho que faz sentido. Também acho que é mais divertido. Ou seja, quem bebia café tinha mais de certas bactérias específicas no intestino. Quando deixaram o café, algumas dessas bactérias diminuíram. E depois, quando voltaram a beber, com ou sem cafeína, elas reagiram logo. Agora, por quê? Eu acho que aquela palavra que eu disse inicialmente, os polifenóis.
Os antioxidantes.
Exatamente. Pode fazer todo sentido, porque o café tem também um composto que se chama melanoidinas, que se forma quando o grão é torrado, que lhe dá aquela cor escura, e que estes compostos quando chegam ao intestino servem quase de alimento para as bactérias, um pouco como a fibra, que já falamos também em vários programas. Daí o descafeinado também ter tido esse efeito. Agora, algumas das bactérias que mudaram com o café vivem normalmente também noutras partes do nosso corpo. Isto é só uma curiosidade. Mas um pormenor importante: o café não alterou a diversidade das bactérias global, mexeu em espécies específicas, mas não mudou por completo a microbiota. Portanto, quando tiras o café, elas diminuem, quando voltas a pôr, elas aumentam.
Mas o café faz o mesmo a toda a gente ou isto varia de indivíduo para indivíduo?
Varia mesmo. Aliás, a nossa microbiota é diferente, é muito individual e temos visto várias coisas em termos de resultados científicos, por exemplo, em termos até de índice glicêmico dos alimentos, que varia consoante a microbiota das pessoas. Aqui é igual. Os investigadores foram medir na urina o que sobrava da cafeína e também, ao mesmo tempo, o que sobrava dos ditos polifenóis, dos antioxidantes. Com a cafeína era idêntico os resíduos de todos os participantes. Com os polifenóis já era muito diferente. Ou seja, duas pessoas podem beber exatamente o mesmo café e o intestino de cada um tira coisas diferentes desse café. Isto ajuda a perceber muito porque é que, por exemplo, às vezes o café cai melhor em algumas pessoas do que em outras.
Verdade. É uma questão genética, se calhar, da própria pessoa.
Sim, também há uma componente genética, mas acabámos de perceber que o intestino também reage de maneira diferente ao mesmo produto.
Só uma pergunta muito rápida. Quem não bebe café, deve começar? Tem algum benefício nisso ou é melhor não?
Quem não bebe café e estava muito bem, se calhar-
Deixe estar.
Deixe estar. E o descafeinado, pelos vistos, também traz aqui benefícios. Eu acho que esse tema é muito importante. Há aqui muita gente que olha para o café como um vício mau, e eu acho que temos que começar a ter uma abordagem muito mais completa sobre isto. A ciência tem vindo a mostrar um retrato bem mais completo e que o consumo moderado de café está associado a menos risco de doença e de mortalidade. Estamos a começar a perceber os benefícios que o café nos traz.
É mais um programa sobre café. Acompanhe o da semana passada também. Muito interessante a propósito do cheiro do próprio café. Hoje falamos desta relação com o intestino que o café tem devido à nossa microbiota. A nutricionista Mariana Chaves, não sei o que me vai trazer para a semana, se um café, se um leite com chocolate, mas acompanhe o "Aprender a Comer", porque aqui tem sempre os melhores conselhos de nutrição. Obrigado, Mariana. Até para a semana.
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